‘O mundo deve parar de dar ajuda ao povo na Coreia do Norte’, diz ativista

Em apelo por pressão contra Pyongyang, ex-prisioneira conta experiência em gulag e diz que ajuda fortalece regime repressor

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

A comunidade internacional deve parar de ajudar o povo norte-coreano com comida e suprimentos, pois está fortalecendo o regime de Pyongyang. O apelo, aparentemente controverso, é feito por Kim Hye-sook, que viveu na pele os horrores do regime comunista da Coreia do Norte.

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Diante da polêmica sobre o lançamento de um foguete – no qual o Ocidente vê fins nucleares, apesar de Pyongyang garantir se tratar de um satélite –, a ex-prisioneira de um gulag norte-coreano questiona a postura de potências mundiais diante do regime. “Quero que a comunidade internacional não dê ajuda humanitária à Coreia do Norte, pois acabará não ajudando os norte-coreanos”, disse em entrevista por email ao iG . “Não entendo por que o mundo não pode controlar um Estado tão pequeno como esse. Os países devem levantar mais a voz e pressionar o regime para abolir os campos de concentração”.

Divulgação
Kim recorre a lembranças para mostrar estrutura do campo de detenção nº 18, onde esteve presa
A vida de Kim se confunde com os 28 anos em que esteve presa sem saber exatamente por quê. Em 1975, quando tinha 13 anos de idade, ela foi tirada da casa de sua mãe e levada ao campo de detenção nº 18 na província de Pyongan, no sul do país. O campo onde Kim passou a maior parte de sua vida nas montanhas era cercado por uma cerca de 4 metros de altura e vigiado ininterruptamente por agentes de segurança, que com frequência deixavam os prisioneiros sem comida ou os humilhavam ao pedir que abrissem a boca para cuspirem dentro. “Isto aconteceu comigo três vezes. Nos dias seguintes, eu me sentia doente e não conseguia comer nada. Minha existência diária era preenchida com dor”, contou.

Esses e outros abusos que viveu no campo de concentração têm servido de material para relatórios e grupos ativistas de direitos humanos. Em março, suas denúncias também foram levadas à 19ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, onde ela recebeu o apoio de diversas ONGs, como a brasileira Conectas e a Aliança de Cidadãos pelos Direitos Humanos Norte-Coreanos, com sede em Seul. “Os prisioneiros não sabem o que significa direitos humanos. Eles vivem em condições piores do que cachorros”, testemunhou.

Realidade

A experiência devastadora vivida por ela durante quase 30 anos em um gulag ainda é realidade para mais de 150 mil norte-coreanos. Um recente relatório feito pelo Comitê para Direitos Humanos na Coreia do Norte, com sede em Washington, usou imagens de satélite e depoimentos de ex-prisioneiros e ex-guardas que fugiram para a vizinha Coreia do Sul para retratar um “sistema de repressão política que precisa ser eliminado”, segundo a diretora Roberta Cohen. O governo de Pyongyang nega, mas a Anistia Internacional afirma que campos de detenção para prisioneiros políticos existem desde os anos 50.

Até hoje, as razões que a levaram à prisão ainda não estão esclarecidas para Kim. “Não sabia por que eu tinha de viver em um campo de detenção. Lá, quem perguntasse por que estava preso era executado em público”, lembrou. “Meus irmãos que ainda vivem no campo provavelmente não sabem por que estão lá”.

Sem ter qualquer informação oficial, ela presume hoje ter sido presa porque seu avô havia fugido para a Coreia do Sul durante a Guerra da Coreia (1950-1953). “As detenções muitas vezes ocorrem porque membros da família fugiram do país ou por seguirem alguma religião, particularmente o cristianismo”.

Família

Kim, que aos 28 foi autorizada a casar dentro do campo, perdeu seu marido por complicações decorrentes do excesso de trabalho forçado em uma mina. Em 2002, ela foi autorizada a deixar o campo com seus dois filhos.

Apesar de ter passado a maior parte da vida em um campo de concentração e não saber muito bem o que é ter uma vida normal na Coreia do Norte, ela almeja um dia voltar para o que sonha como “casa”. “Ainda que eu tenha sofrido muito em minha terra natal e tido experiências horrorosas, meus irmãos ainda estão lá. Esse é meu país, apesar de tudo, e eu gostaria de voltar para encontrar meus parentes e viver com eles novamente”, vislumbrou. “Um dia, isso vai ser possível.”

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