O legado dos índios argentinos submerso nas águas do rio Paraná

Joan Faus. La Paz (Argentina), 22 mar (EFE).- O abundante rio Paraná oculta sob suas águas dezenas de ilhas onde habitavam até finais do século XIX as tribos indígenas argentinas chaná e timbu, cujo prezado patrimônio artesanal é no momento praticamente inacessível com o alto nível do rio.

EFE |

Cerca de 10 mil índios chaná e timbu chegaram a viver nas ilhas do delta do Paraná, no norte da Argentina, onde praticavam a caça e a pesca e elaboravam detalhadas peças artesanais.

Diversos cemitérios onde enterravam e homenageavam seus entes queridos são o único rastro que perdura até hoje, embora sob as águas desses povos nativos, explicou à Agência Efe María Asunción Gotardo, diretora do Museu Regional da cidade argentina de La Paz, que abriga uma coleção de peças artesanais indígenas.

A pequena cidade de La Paz, na qual residem cerca de 25 mil pessoas, é a mais próxima às ilhas e também a mais afetada pelo forte fluxo das águas do Paraná, que cobre totalmente os cemitérios indígenas.

Gotardo se mostra confiante que o nível do Paraná em breve diminua, o que permitiria às equipes de arqueólogos retomar as escavações nos cemitérios. Em suas inspeções anteriores, os especialistas encontraram fragmentos de peças de cerâmica e a múmia de uma jovem índia.

A coleção do Museu Regional de La Paz inclui uma urna utilizada para enterrar bebês, assim como dezenas de peças de vasos e panelas de barro e argila.

As alças desses utensílios têm formatos de cabeça de papagaio, cobra e coruja, o que, segundo Gotardo, demonstra a riqueza cultural dos chaná e dos timbu, que foram os "primeiros artesãos" da região de Entre Ríos, onde se encontra La Paz, fundada em 1835 e localizada a 520 quilômetros ao norte de Buenos Aires.

O museu possui também um mapa desenhado em 1749 pelo pai jesuíta José Quiroga no qual há detalhes sobre todos as moradias indígenas do litoral do trecho argentino do Paraná, um rio de mais de 4,5 mil quilômetros de extensão que nasce no interior brasileiro, demarca a fronteira Brasil-Paraguai e segue para a Argentina.

O forte nível do Paraná desloca continuamente os restos mortais dos cemitérios, encontrados frequentemente por pescadores ou velejadores, que costumam comercializar essas peças históricas, denunciou Gotardo.

Além disso, a diretora do museu lamenta o pouco apoio público, tanto do Governo federal como do regional, na recuperação dos restos mortais desses povos nativos.

Os povos chaná e timbu se organizavam em famílias poligâmicas, costumavam usar colares feitos com caracóis e perfuravam o nariz, descreveu Gotardo.

Os especialistas consideram que esses grupos indígenas praticavam a caça e a pesca com armas, arcos e flechas de osso ou madeira, e cultivavam legumes da terra.

No final do século XIX, os chaná e os timbu foram expulsos das ilhas e começaram a desaparecer pela falta de terras e pelo contato com novas doenças.

Apesar de não haver registros oficiais, os especialistas estimam que ainda há descendentes desses povos indígenas na Argentina, onde estão registrados cerca de 6,5 mil guaranis.

O Museu Regional de La Paz é uma das escalas da expedição fluvial Paraná Ra'anga, um ambicioso projeto científico-cultural que começou no dia 12 passado na cidade argentina de Rosário e que terminará em Assunção no final do mês. EFE jfa/sa

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