O jogo perdido da Venezuela

1, 2, 3¿tas ponchao! A paixão do venezuelano pelo beisebol é tão grande que ele consegue transportá-la perfeitamente para a política. Em mais um dia de protestos em Caracas, os estudantes adotaram o jargão do jogo de origem americana, que quer dizer que um jogador está fora, para atacar o presidente Hugo Chávez.

Gustavo Gantois, enviado especial a Caracas |

Os três strikes aos quais os manifestantes se referem são o racionamento de luz, água e o alarmante crescimento da criminalidade.

Caracas, centro nevrálgico dos protestos, está em compasso de espera por um novo plano que colocará a cidade às escuras. Da primeira vez, há duas semanas, a reação contrária foi tão grande e atingiu em cheio os 8 milhões de habitantes da cidade que o governo voltou atrás na decisão.

Segundo técnicos da Corpoelec, a estatal de energia elétrica, o novo plano para a capital prevê quatro faixas de corte ao longo do dia, divididos por regiões da cidade em blocos de horários.

A Venezuela é uma potência energética e devemos converter isso em um fator de impulso do desenvolvimento econômico do país, justifica o ministro Alí Rodriguez, da Energia Elétrica, sem ao menos esclarecer o porquê dessa potência precisar agora de apagões programados.

Insegurança

Na verdade, os racionamentos que vêm sendo aplicados pelo governo não preocupam tanto quanto a escalada da criminalidade. Caracas é, hoje, a segunda cidade mais perigosa do mundo. E a população tenta de todas as formas conviver com essa realidade.

Vivemos numa prisão, define Vanesa Gongález, dona de uma bodega  perto de um dos maiores shopping da cidade. Durante o dia temos de conviver com falta de água e luz, mas é à noite que temos o medo maior. Não posso colocar o pé na rua depois das oito da noite.

Gustavo Gantois
Vanesa Gongález reclama da carência de água e luz na Venezuela

No ano passado, a taxa de homicídios foi de 160 para cada mil habitantes. É um número quatro vezes superior à media mundial. E que promete aumentar com a falta de investimentos do governo.

Programas sociais

Para a revolução bolivariana de Hugo Chávez, o crime é produto da falta de oportunidade do cidadão. O conceito, que foi atropelado pela queda do comunismo na União Soviética, ainda ganha sobrevida com os programas sociais do governo.

O problema é que eles não têm dado resultado. As Missões, ponta de lança dos programas, estão sendo dilapidadas pela falta de planejamento.  A Missão de Barrio Adentro era originalmente administrada por cerca de 30 mil médicos cubanos. Muitos desses postos de saúde agora estão fechados e o restante com uma grave falta de pessoal. Os cubanos estão indo embora, explica Felix, um assistente social que reluta em dar o sobrenome com medo de represálias do governo chavista. Eles não recebem salário em dia e ainda são vítimas da criminalidade desenfreada.

A Venezuela que Chávez vendeu para a população mudou muito pouco nesses últimos 11 anos de governo. E, agora, é ela quem pede para que ele saia do campo de jogo.

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