O isolamento, uma prática antiga e solitária, perdura

Apesar dos avanços da Medicina, algumas doenças ainda exigem que o paciente seja removido do contato social

The New York Times |

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Solidão: isolamento do paciente ainda é necessário em algumas doenças
Historicamente falando, as pessoas com a má sorte de desenvolver uma infecção nunca estiveram tão bem. A medicina moderna consegue usar uma ampla gama de antibióticos e outras ferramentas a seu favor.

Para algumas delas, porém, nossos avançadíssimos tratamentos incluem uma herança direta da Idade Média. São pessoas que não estão infectadas apenas no interior, mas também infestadas no lado de fora, cobertas de germes. Quando são hospitalizadas, nós as jogamos numa sala de isolamento, e não importa o quanto elas protestem e reclamem, não importa o quão incômodo se torne o restante de seu tratamento médico, nós nunca as deixamos sair.

O isolamento deve ser uma das práticas médicas mais antigas, e sob alguns aspectos é a mais brutal. Os puristas geralmente argumentam que ninguém jamais provou definitivamente que a prática atinge seus objetivos com mais eficácia do que, digamos, lavar assiduamente as mãos e o uso sistemático de água sanitária. Mas o isolamento é, provavelmente, uma prática comum demais para ser estudada com a tradicional imparcialidade.

Alguns avanços foram feitos em relação aos padrões de medicina do século 19 ao procurarmos entender melhor o comportamento dos germes. Assim, mantemos os pacientes com tuberculose ativa em salas de ventilação especial para que, em teoria, os germes não fujam para os corredores públicos quando a porta é aberta. Todos os visitantes usam máscaras, mas luvas e aventais são desnecessários – já que a doença não se propaga pelo toque.

No entanto, o toque transmite a MRSA (sigla em inglês para a bactéria staphylococcus aureus resistente à meticilina) e outras bactérias resistentes a antibióticos que são a maldição de muitos hospitais atualmente. No nosso, algumas das salas de isolamento são destinadas a quem abriga esses germes, mas hoje a maioria delas está ocupada por pacientes com uma infecção intestinal chamada de Clostridium difficile.

Esse organismo é um formador de esporos: ele produz sementes pequenas e rígidas que se agarram a superfícies e se espalham por todo o ambiente. Os pacientes ficam, para usar o sugestivo termo técnico, cobertos por uma fina camada fecal – e se movem numa nuvem fecal.

Uma versão microscópica do Google Earth, examinando-os dentro e fora, mostraria um pequeno e maligno universo – consistindo de um ser humano rodeado por uma trêmula nuvem de bactérias em formato humano. Quando o paciente se vira na cama, enormes ondas de bactérias se levantam e viajam em correntes de ar por toda a sala, aterrissando em mesas, em camas adjacentes e nas pessoas sobre elas. As palmas das pessoas que tocam esses pacientes ficam repletas de bactérias, e toda vez que essas mãos gentis tocam outros pacientes, as bactérias se prendem com rapidez.

A política atual de nosso hospital para evitar as epidemias da infecção é típica da maioria dos hospitais: todo paciente com diarreia é isolado até termos provado que a C. difficile não está causando o problema. Cada um vai a uma sala privada, com caixas de luvas e aventais descartáveis ao lado da porta, que permanece fechada.

Esses aventais são grossos jalecos de papel amarelo, embrulhados individualmente em plástico, com punhos costurados e fios que se amarram na cintura. As luvas são de vinil comum, empacotadas em caixas exibindo P, M e G. Vestir as luvas e jalecos leva dois minutos (a menos que os suprimentos estejam acabando ou só tenha sobrado o tamanho P, ridiculamente pequeno, caso em que a busca pode durar um bom tempo).

Depois você precisa tirar tudo de novo: o jaleco é desamarrado e retirado por sobre as luvas, que saem por último, eficientemente separadas num maço de superfícies contaminadas, todas viradas para dentro. O maço então precisa ser enfiado na lata vermelha de lixo contaminado, que fica invariavelmente cheio. Em seguida as mãos são lavadas (com água e sabão, já que os esporos da Clostridium dão risada dos desinfetantes à base de álcool). Então é a vez do próximo paciente e, com frequência, o mesmo ritual.
O isolamento é uma imensa perturbação para todos.

Para uma enfermeira, entrando e saindo dos quartos de pacientes dezenas de vezes ao dia, todo esse processo de vestir e tirar a proteção simplesmente não é possível. As enfermeiras aprendem a alterar suas rotinas para terminar tudo em menos visitas.

Enquanto isso, os pacientes com diarreia precisam de muitos cuidados de enfermagem. Eles podem começar a reclamar que estão recebendo pouca atenção naquele departamento e, se pensarmos bem, eles também não estão vendo os médicos com frequência. Esses pacientes se sentem muito mal de qualquer forma, e ficam ainda pior por se sentirem sozinhos.

Qualquer insinuação de que pacientes isolados estão sob o risco de um atendimento médico abaixo dos padrões gera veementes negativas de todos os indivíduos e instituições envolvidos. Mas alguns dados apontam o contrário.

Pesquisadores demonstraram repetidamente que os médicos e enfermeiras visitam os isolados com menor frequência. Um estudo descobriu que pacientes em isolamento apresentavam um índice seis vezes maior de complicações associadas a hospitais, como escaras e quedas.

Alguns pacientes isolados dizem apreciar a privacidade, mas a maioria reclama de solidão e de serem estigmatizados. Em uma pesquisa, pacientes isolados responderam consistentemente de maneira menos positiva do que os outros a todas as perguntas sobre sua experiência hospitalar (embora não tenham reclamado o bastante para gerar uma diferença estatística).

Na superfície todos os doentes são praticamente iguais: homens e mulheres insatisfeitos e infelizes deitados em camas, desejando ser outra pessoa. Por séculos, o desafio dos médicos foi enxergar o paciente individual deitado em meio à nuvem da doença.

Mas para pacientes isolados, o desafio se tornou exatamente o oposto: o médico precisa evitar o indivíduo e cuidar principalmente daquela nuvem invisível e evanescente.
É duro dizer qual é mais difícil.

Uma frágil idosa foi admitida em nosso hospital não muito tempo atrás, doente e confusa, algumas manchas de batom cereja ainda persistindo bravamente em seu lábio inferior. Durante o dia, escorada numa cadeira no corredor, ela parecia sentir prazer com o frenético vai-e-vem da ala. Durante a noite, ela chorava desconsoladamente.

Alguns dias depois ela desenvolveu um caso difícil de diarreia. As enfermeiras – se movendo, ao que parece, mais lentamente que o normal – prepararam ela e seus pertences sobre a cama, e a levaram numa cadeira de rodas, rumo a uma sala de isolamento. Era possível ouvi-la chorando por todo o caminho, mesmo depois que a porta se fechou às suas costas.

Aqueles de nós que não estavam envolvidos em seu tratamento nunca a viram novamente, mas ao passar por seu quarto muitas vezes ouvíamos aqueles soluços abafados – até que ela faleceu, algumas semanas depois.

Cada vez mais, a medicina moderna nos força a uma especialização no invisível. Aqui tínhamos germes invisíveis com um comando inviolável, e uma paciente visível demais implorando que nós ignorássemos esse comando. Foi uma dura batalha tentar enxergar um, e tentar não enxergar o outro.

*Por Abigail Zuger

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