O palco favorito de Joe Ades era a praça Union Square, onde, na feira aos sábados, compro queijos, frutas e legumes dos fazendeiros da região, artes e bagulhos dos camelôs. O talento do camelô Joe era vender um descascador suíço de aço inoxidável para frutas e legumes.

Custava US$ 5. Ou 5 por US$ 20. Eu comprei um a primeira vez que o vi em ação, há uns 15 anos. Nunca falhou e não quebra. A performance de Joe Ades valia os US$ 5.

Com sotaque inglês, camisa, gravatas e ternos finos, era o vendedor de rua mais elegante de Nova York. Um artigo sobre o guarda-roupa dele identificou os ternos de Chester Barrie e as camisas da Turnbull Asser. Era tão bem vestido e polido que às vezes despertava suspeita.

Nesta cidade com mais de 8 milhões de histórias, a do inglês fascinava não só por ser um vendedor genial de um objeto banal. Era um apaixonado pela profissão. E também fascinante depois que parava de descascar as batatas e cenouras.

Joe Ades morava num apartamento de três dormitórios na Park Avenue - de US$ 4, 5, 6 milhões, talvez mais - com sua quarta mulher Stelle, que conheceu no cafe do Pierre, na 5ª Avenida, onde seis noites por semana eles tomavam uma Veuve Cliquot e ouviam a pianista Kathleen Landis. Havia quem o achasse parecido com Sean Connery de barba e muitos, inclusive a pianista, antes de conhecê-lo, achavam que ele era um dos donos dos caríssimos apartamentos do Pierre.

De lá saíam para os restaurantes mais caros de Nova York e terminavam a noite num clube de jazz. Joe era um entendido.

E jamais escondia sua profissão. Quando um curioso indiscreto perguntava o que ele fazia, respondia na bucha : "Sou vendedor de rua. Vendo um descascador de batatas". O indiscreto achava que era deboche e mais não perguntava.

Ele cresceu em Manchester, na Inglaterra, durante a Segunda Guerra, um dos sete filhos de uma viúva pobre. Mau aluno, saiu da escola e, aos 15 anos, trabalhava num escritório de advogados. Um dia, foi entregar uma carta e passou por uma cratera ainda fresca de uma bomba alemã no centro da cidade onde viu alguns camelôs se aproveitando da multidão para vender cadarços e remédios para tosse. Encantou-se pelo plá dos vendedores.

Bye bye escritório e lá foi ele para as esquinas da vida. Vendeu de tudo, livros de crianças, árvores de Natal, eletrodomésticos. Em Londres, conquistou uma das esquinas do Harrods vendendo bijuteria e tecidos. Aparece até num cartão postal.

Sua segunda mulher, uma australiana, era doutora em física. Dela ganhou de presente um clássico sobre o submundo inglês do século 19, London Labour and the London Poor, de Henry Mayhew. São histórias detalhadas e entrevistas longas com ladrões, prostitutas, mendigos, vendedores de rua, um tratado sociológico que ajudou Joe a estudar os vendedores de rua.

Aprendeu que os mais bem sucedidos recitavam sempre o mesmo plá em voz clara e rítmica e, o principal segredo, ficavam agachados ou em banquinhos. Em volta deles formava-se uma roda e quem passava perto precisava chegar ainda mais perto para ver o centro daquela atenção. O importante era ter gente em volta.

Nas esquinas, esta era a cantilena do camelô Joe Ades com seu instrumento: "Quando você descasca uma batata, não importa se você é canhoto ou destro, ou, como um político, tem mãos safadas. Com este pequeno descascador, só sai a casca fina. Não há desperdício. Cheguem perto. Vocês vão ver melhor. Não se preocupem. Não vou pedir dinheiro. Pode ver sem pagar...e você aprende a descascar".

Talvez seja mito, mas no fim de semana mais inspirado e recordista vendeu US$ 100 mil. Deixou dois filhos na Austrália e uma filha, Ruth, em Nova York, que estudou na Universidade Columbia, paga com o descascador suíço. É casada com o dono do restaurante La Ripaille, no Village. Durante anos o pai tentou convencê-la a vender o descascador, mas ela resistiu.

Na semana passada, depois de um fim de noite de jazz no Village Vanguard, o coração de Joe Ades pifou. Estava num período de festas para comemorar a recém-chegada e longamente esperada cidadania americana.

Nestes dias de desemprego, a vida de Joe Ades, com certeza meio mito, meio fato, traz algumas lições. Nas entrevistas, Joe dizia que a paixão dele era pelas ruas das cidades e não pelo dinheiro. É possível ser feliz antes de ser rico. Mas quando insistiam sobre o segredo da fortuna ele dizia: "nunca despreze dinheiro porque é pouco" .

A filha Ruth cedeu. No último fim de semana estava na esquina da praça: "Não importa se você é canhoto...."

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