O genocídio de 1994 em Ruanda

O genocídio em Ruanda, praticado por grupos ligados ao governo hutu da época, deixou cerca de 800.000 mortos entre abril e julho de 1994 entre a minoria tutsi e hutus moderados, segundo a ONU.

AFP |

Na noite de 6 de abril de 1994, o avião do presidente ruandês hutu Juvénal Habyarimana, que retornava de Arusha (Tanzânia) onde realizava negociações de paz com a rebelião da Frente Patriótica Ruandesa (FPR, maioria tutsi, hoje no poder), foi abatido sobre Kigali por pessoas não identificadas.

No dia seguinte, o primeiro-ministro hutu moderado, Agathe Uwilingiyimana, dez capacetes azuis belgas da Missão de Observação das Nações Unidas (Minuar) encarregados de sua proteção e vários ministros da oposição foram mortos.

Era o início de uma onda de massacres em grande escala.

Os tutsis foram acusados sem discernimento pelo governo, então dominado pelos hutus, de conluio com a rebelião vinda de Uganda, que havia penetrado no norte do país em 1990.

Listas de pessoas a serem mortas foram elaboradas pelas autoridades, em todos os níveis do governo. Seus braços armados, as milícias hutus Interahamwe e as Forças Armadas Ruandesas (FAR), massacraram metodicamente os "Inyenzi" (as baratas de kinyarwanda, para designar os tutsis), além de hutus que se opunham ao partido de Habyarimana e aqueles que se recusavam a participar dos massacres.

Barreiras foram montadas nas ruas de Kigali, e milicianos e militares revistavam as casas. As milícias "Interahamwe", formadas a partir do "Movimento da Juventude" do partido de Habyarimana, tornaram-se verdadeiras máquinas de matar.

Os massacres se estenderam a todo o país. Homens, mulheres e crianças foram exterminados a golpes de machetes (um tipo de facão), desmembrados por granadas e obuses, nas ruas, em suas casas, e até mesmo em igrejas e escolas, onde acreditavam estar em segurança.

A população, mobilizada pelas autoridades e pela imprensa, teve grande participação nos massacres, nos saques e nos estupros sistemáticos.

No dia 28 de abril de 1994, a Médicos Sem Fronteiras da Bélgica alertou para um verdadeiro genocídio em andamento. "Era um horror total. Estávamos nas trevas", declarou o porta-voz do CICV.

A Minuar era incapaz de conter o banho de sangue, sem reforços, com uma comunidade internacional paralisada. Durante o maior dos massacres, o contingente de 4.000 soldados se encontrava reduzido a somente 270 homens.

No dia 4 de julho, o FPR chegou às portas de Kigali. A vitória dos rebeldes desencadeou um êxodo de centenas de milhares de hutus para o vizinho Zaire (hoje República Democrática do Congo), em meio à operação militar-humanitária "Turquesa", efetuada pela França.

No dia 8 de novembro, a ONU criou um Tribunal Penal International para Ruanda (TPIR), em Arusha (Tanzânia).

Quatro anos mais tarde, o TPIR pronunciou suas primeiras penas de prisão perpétua e incluiu o estupro e a violência sexual entre os atos de genocídio.

Essas decisões representaram o primeiro reconhecimento do genocídio contra a minoria tutsi ruandesa pela justiça internacional.

acm/dm

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