O calibre de McCain

As bolsas despencam, o desemprego dispara - 750 mil a menos no ano em vez de 1 milhão e 500 mil a mais -, carros encalhados, lojas vazias, o mercado de imóveis não para de cair e o vinho mais vendido na melhor casa de Nova York custa menos de US$ 20. Economia? Vamos mudar de assunto.

BBC Brasil |

McCain quer falar sobre caráter, patriotismo e valores. Quem é este Barack Obama? Ele acha que tem todas as vantagens e Obama todas as fraquezas. Com quase cem pontos atrás no colégio eleitoral - 264 contra 174, uma queda de quase 60 votos em apenas uma semana - os republicanos apertaram o botão de emergência.

As tropas republicanas abandonaram Michigan e estão na UTI com os números de Indiana, um Estado que ganharam com 20 pontos de vantagem em 2004. Este ano estão empatados.

Virgínia também dá choque. Bush ganhou com margem de oito pontos e agora Obama aparece com dois na frente. Missouri? 220 volts. Na Flórida, o presidente Bush levou com folga de cinco pontos, McCain correr atrás com três a favor de Obama. Até em Ohio as pesquisas favorecem o democrata.

Pela rede NBC, basta Obama ganhar onde John Kerry ganhou há quatro anos e conquistar mais um Estado e terá 269 (270 é o número da vitória) votos no colégio eleitoral, o suficiente para mandar a eleição para uma decisão na Câmara Federal onde os democratas são maioria.

Obama pode se dar ao luxo de perder na Flórida e em Ohio, os dois Estados que decidiram as eleições de 2000 e 2004. São republicanos em pânico, e isto antes das quedas das bolsas de ontem, quando um dos mais populares analistas econômicos anunciou que, se você vai precisar de dinheiro nos próximos cinco anos, saque tudo.

Será que a campanha vai perder a graça a menos de um mês antes da eleição? Pode perder a graça, mas vai ganhar lama.

Os republicanos tiraram as luvas. A vice Sarah Palin, que costuma falar o incompreensível dialeto palinês, no domingo usou um inglês claro e uma matéria do New York Times para lembrar as conexões de Barack Obama com o terrorista urbano William Ayers, que atacou o Pentágono e o Capitólio na década de 60.

O senador e o ex-terrorista trabalharam juntos em projetos de educação em Chicago na década de 90. O candidato já explicou várias vezes que a conexão foi breve e superficial, eram vizinhos de bairro e estavam juntos na direção de uma fundação, mas a conexão existiu, não foi tão superficial e alimenta a desesperada artilharia republicana.

O incendiário pastor Jeremiah Wright foi beneficiado com fundos da fundação e o escroque Tony Resko, que contribuiu para as campanhas de Obama, também são munição de McCain-Palin nesta linha de ataque da caráter e valores.

Barack Obama respondeu com três comerciais sobre o plano de saúde de McCain e suas posições sobre a economia, a maior causa da queda do republicano nas pesquisas.

O democrata também exagera e distorce números. Tirou do baú um escândalo envolvendo McCain e outros senadores que tentaram proteger um contribuinte de campanha - Charles Keating - das investigações em Washington. Keating, além de dar dinheiro para McCain, foi responsável por uma das maiores falências na história do país.

O senador reconheceu que cometeu um erro, pediu desculpas, foi repreendido, mas não foi punido pela Comissão de Ética do Senado. A campanha de Obama colocou um mini-documentário de 13 minutos sobre a conexão Keating-McCain na internet.

Campanhas negativas deram certo em 2000 e 2004. Os democratas, duas vezes derrotados, não querem correr risco e respondem lama com lama. Quando você ouve os discursos de campanha de McCain e Sarah Palin, os ataques são os momentos que geram aplausos e comovem, mas a grande maioria americana é contra as campanhas negativas - 59% dos eleitores dizem que economia é a principal preocupação nesta eleição. A guerra do Iraque vem num distante segundo lugar, com 5%.

A carga negativa pode funcionar melhor para McCain com refrão: quem é este Barack Obama? Um liberal? Um amigo de terroristas? Um ingênuo? Este homem vai ser presidente dos Estados Unidos?
O tiro pode sair pela culatra. McCain já fracassou num salto mortal quando suspendeu a campanha para resolver o impasse do pacote econômico em Washington. Nem suspendeu a campanha e atrapalhou a negociação.

A escolha de Sarah Palin como vice-presidente a cada dia parece outro salto mortal realmente mortal.

O formato do debate desta terça à noite, íntimo e informal, favorece o maverick-imprevisível McCain. Diante de números assombrosos, dependendo do calibre das armas e da lama que ele vai usar, pode ser um duelo decisivo de 2008.

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