O animal político

O homem é um animal político. Dizem.

BBC Brasil |

Quem "dizem"? Os homens políticos. Ou politizados. Quer dizer, os que pretendem votar em vereador, senador, deputado, governador, quem estiver dando sopa na candidatura.

Minha impressão é a de que o Brasil vive em permanente estado eleitoral. Deve ser a obrigatoriedade do voto. Deve ser porque sou impressionável. E à uma considerável distância do país que me viu - e ficou vendo com uma cara de poucos amigos - nascer e crescer. Agora estão os brasileiros às voltas com novas eleições. Nisso que dá, quero crer, ter uma seleção fracativa.

Como podem ver, como deve ter ficado claro, não sou um animal político. Com boa vontade, apenas um animal, diante de minha pouca fé em meus semelhantes e suas instituições. Nada tinha que meter o bedelho nessa história.

Fato é que, na sexta-feira, ensaiei alguns passos na dança frenética do mundo ritmado da política. Dei palpite sobre Washington Luiz, Getúlio Vargas e Lula da Silva. Assuntei e, não satisfeito, passei julgamento. Para aqueles que entendem de julgamento entre linhas e não na 4ª Vara de Justiça.

Deveria ter calado a boca. Choveram mais de dois e-mails reclamando. Enfio o rabo entre as pernas, a viola no saco e fico feito a figurinha de fábula rasa que sou. Paro por aqui, depois de momentaneamente ter perdido o senso.

Em matéria de política, a melhor coisa é citar os outros. Omitir-se de toda e qualquer coisa que possa parecer, mesmo de longe, opinião. Por isso, faço minhas as palavras de outros. E outrem também.

Começo, precavido que passei a ser, no país dos outros. Nenhum país mais dos outros do que os Estados Unidos. Ninguém mais outros do que os americanos.

Vejamos, pois.

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Carta de uma leitora do Guardian publicada há coisa de uma semana. Dou o nome e o local de residência, para o caso de reclamações. Trata-se de Phillippa Wadsworth, da cidade de Buckfastleigh, condado de Devon.

Primeiro, ela tece algumas considerações sobre Sarah Palin, a chapinha companheira de chapa de John McCain, candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos. Diz que pouco importa que ela, Sarah Palin, cace, pesque, seja contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Pouco importa também, prossegue Phillipa, de Devon, que Sarah Palin porte armas, apoie a pena de morte e o ensino nas escolas do criacionismo (creationism é, resumindo, acreditar que Deus criou o homem e o mundo há 10 mil anos).

E arremeta com fecho de ouro a leitora: "O mais assustador em Sarah Palin são os nomes que ela resolveu dar aos filhos: Track, Trig, Bristol, Willow e Piper. Isso sim é de meter medo."
Não opino que deixei de ser besta. Nem irei escrutinar com o pleito dos outros.

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Tá bem. Escrutino com o pleito dos outros. Mas só um pouquinho. Americanos e brasileiros. Irmanados. Nem penso em pagar na mesma moeda à leitora acima citada e dizer que dar ao filho o nome de Barack Hussein Obama, em qualquer parte do mundo, não é brincadeira, não.

Agora mudar o nome para Barack Obama no Brasil, tentando confundir um eleitorado já não dos mais iluminados (pronto, politiquei de novo), já é sacanagem. Leio em vossas folhas, gentis brasileiros, que seis pernambucanos, em brilhante jogada caçadora de botos, tentando uma prefeiturazinha como local de trabalho, mudaram oficialmente o nome para Barack Obama.

Outros jornais dão como nove novos Baracks Obamas distribuídos pelo país, do Oiapoque ao Chuí. Merecem o voto. Para prefeitos, para vereadores. Para tudo. Feito se dizia em Cuba nos tempos mais mansos da Guerra do Vietnã: "Um, dois, três, Baracks Obamas!" Nunca são demais. Olhem bem para o modelo original, antes da auriverde clonagem na marra. Carisma ali é mato, né mesmo?
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Por falar em mato: parem de fazer bobagem com a floresta amazônica. Graham Howells, professor de línguas na Universidade de Brasília, também enviou carta para o Guardian, que o leitor arguto já percebeu ser o órgão informativo britânico de minha predileção.

Diz o ilustre mestre britânico - e vou resumir ao máximo, como se atravessando com cuidado e zelo uma floresta tropical - que "depois de 12 anos de residência no Brasil" notou que "o governo brasileiro se recusa a tomar medidas práticas afim de prevenir a destruição, limitando-se a fazer os right noises (declarações pro forma) sobre a situação que prossegue."
Argumenta o mestre que, na Europa e nos Estados Unidos, após a derrubada de árvores para uso como carvão, conforme era o costume, os países em questão reflorestaram o que fôra devastado.

O professor Graham Howells termina sua missiva, datada de 5 de setembro, dizendo que no dia 7 do mesmo mês o "Exército irá desfilar em pomposas paradas em vez de proteger os maravilhosos recursos naturais do país contra os depredadores do meio-ambiente."
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Eu não tenho nada com isso. Eles lá e eles aí foram quem disseram essas coisas. Limito-me a fazer intriga. Que é mais a meu feitio e nada politizado ou politiqueiro.

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