Zabul: Um pedaço do Afeganistão bem guardado pelos próprios afegãos

Com batalhões do Exército operando independentemente, província pobre oferece vislumbre sobre futuro quando afegãos assumirem a segurança em 2014

The New York Times |

A província de Zabul, uma das mais pobres do Afeganistão, é conhecida principalmente por ser rota de tráfego tanto para insurgentes do Taleban quanto para comboios de abastecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Mas recentemente Zabul, que fica no sudeste do Afeganistão, tornou-se importante por outro motivo: um canto pequeno, mas esquecido da guerra no Afeganistão, que oferece um vislumbre de como pode ser um futuro estável quando os afegãos assumirem sua própria segurança e administração em 2014.

Batalhões do Exército afegão estão alocados nos distritos de Zabul e são os primeiros no país a operar independentemente. Eles estão emergindo como uma verdadeira autoridade para as populações locais e como alternativa tanto para os talebans quanto para as forças internacionais, que ainda são recebidas de maneira ambivalente. Cada vez mais, essas forças estão cuidando da segurança, das relações com as pessoas locais e até mesmo da resolução de litígios.

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Afegão discorda em reuniao com forças de segurança no distrito de Arghandab, em Zabul
Em Zabul, pelo menos, nunca houve realmente uma autoridade permanente, além da capital provincial, Qalat. Taleban, oficiais do governo e americanos vêm e vão. Mas as forças afegãs chegaram e se estabeleceram.

O sucesso do Exército afegão em meio ao povo mudou o ambiente de segurança. Conforme as pessoas se abrem para as forças afegãs, os talebans se veem menos bem-vindos e se afastam da região.

"Eu acho que estamos tendo um daqueles momentos 'eureca'", disse o tenente-coronel Andy Veres, oficial da Força Aérea que comanda a Equipe de Reconstrução Provincial em Zabul, agora em sua segunda excursão na província. Ele disse que nas Forças Armadas afegãs "há um sentimento crescente de 'sim, nós podemos fazer isso’”.

Convergência

Zabul começou a funcionar por causa de uma convergência entre boa liderança e anos de experiência de afegãos e americanos, tanto civis quanto militares. Isso existe em outros lugares, mas não é facilmente replicado nas 34 províncias do Afeganistão.

Em entrevistas realizadas longe de tropas afegãs ou estrangeiras, moradores de Zabul geralmente aprovaram a ação do Exército Nacional Afegão, uma força multiétnica que foi construída do zero desde 2002.

No entanto, eles mostraram um medo persistente de criticar o Taleban e queixaram-se abertamente sobre oficiais do governo e da polícia. "Nosso governo é muito corrupto, mas o Exército ainda tem um rosto limpo e confiável", disse Hajji Sayed Agha, um ancião de Zabul.

Esses sentimento apontam tanto o progresso local quanto a multiplicidade de desafios que ainda são enfrentados pelas forças da coalizão, na tentativa de treinar a polícia afegã e as forças do Exército para, eventualmente, assumir a segurança do país.

O Exército Nacional Afegão deve atingir mais de 300 mil soldados até o fim deste ano, mas a sua qualidade e liderança variam. A Polícia Nacional Afegã e a Polícia de Fronteiras do Afeganistão estão muito atrás, assoladas pela corrupção e indisciplina.

Em províncias maiores e mais voláteis, onde mais está em jogo e onde a insurgência é mais concentrada e intensa, a responsabilidade pela segurança continua esmagadoramente nas mãos da Otan, mesmo conforme o comandante dos Estados Unidos no Afeganistão, o general David H. Petraeus, usa soldados, milícias e policiais afegãos para solidificar as conquistas de segurança.

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Moradores de vilarejo em Zabul observam forças americanas e afegãs em Shah Joy
Nesse contexto, o progresso em Zabul pode parecer pequeno. Mas como é liderado pelos afegãos, as conquistas parecem mais sustentáveis do que o que foi feito por operações maiores e mais agressivas nas províncias de Kandahar e Helmand, onde o progresso tem dependido em dezenas de milhares de soldados americanos, alguns dos quais estão agendados para começar a partir neste verão.

Em Zabul, a presença das forças de coalizão – que são compostas por tropas dos Estados Unidos e da Romênia – está limitada a pequenas equipes de soldados das Forças Especiais, oficiais de assuntos civis, engenheiros e conselheiros militares. Eles mantêm uma base em Qalat, principalmente para garantir a segurança ao longo da principal Estrada nacional, que liga Cabul a Candahar.

Além disso, dois batalhões do Exército afegão são responsáveis pela segurança, com comandos afegãos tomando o lugar de soldados de Forças Especiais dos Estados Unidos em uma área para oferecer força extra.

O coronel Gadda Dost Muhammad, 43 anos, foi comandante do batalhão afegão no distrito por dois anos. Tadjique de Cabul, ele aprendeu o pashto, língua falada na província de Zabul, e tem trabalhado arduamente para combater o que chama de "propaganda negra" dos insurgentes.

As pessoas fugiam com medo quando eles patrulhavam as aldeias porque os talebans espalharam propaganda dizendo que suas forças matariam ou prenderiam qualquer pessoa que estivesse pelas ruas, disse. "As pessoas não nos davam as mãos porque eles diziam que estávamos trabalhando com os infiéis", contou. "Então nós fizemos um plano para a criação de um Conselho Distrital, e através das reuniões do conselho explicamos que estamos aqui para ajudá-los, e não para prejudicá-los ou destruí-los”.

A primeira coisa que eles tiveram de fazer foi convencer o conselho de que eram muçulmanos, convidando-os para a mesquita na base afegã, disse.

Os soldados afegãos ensinaram algumas lições a seus mentores estrangeiros, disse. "Dissemos a eles: 'Vocês nunca devem entrar em suas mesquitas e nunca, com base em má informação, entrar em suas casas", disse ele. "Sempre que recebemos informações, passamos pelo líder mulá ou tribal, e lhe dizemos que temos informações e que pretendemos fazer uma busca”.

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Andy Veres, oficial da Força Aérea que comanda a Equipe de Reconstrução Provincial em Zabul, conversa com Abdul Qayum, chefe do distrito de Shan Joy
Essa abordagem trouxe uma relativa paz a Shinkay, a base do Exército afegão não sofre ataques há dois anos, disse Dost.

A estrada para o distrito de Shinkay era repetidamente atacada ou coberta com minas até seis meses atrás, disse Veres. Mas o número e a força das bombas ou artefatos explosivos improvisados (conhecidos pela sigla IEDs, em inglês) caiu, disse ele.

A mudança real, no entanto, não será medida no declínio nos ataques, mas na coragem da comunidade em apoiar o governo, disse ele. "O ponto crítico não é quando a contagem de corpos ou os IEDs diminuem. É quando as pessoas dizem que o Taleban não está voltando".

Confiança

Já há sinais de aprofundamento da confiança, disse ele. Uma disputa familiar levou ao assassinato de dois homens em Shinkay recentemente. Em vez de ir à polícia, aos anciãos da tribo, ou mesmo ao Taleban, os moradores foram à base do Exército afegão e pediram que Dost ajudasse a resolver a questão. "As pessoas sentem que o Exército está aqui para ficar", disse Veres.

Eventualmente, os soldados romenos e afegãos que patrulham a estrada e as principais cidades ao longo dela, esperam poder passar essa responsabilidade para a polícia afegã, conforme a força for treinada e ampliada.

A essa altura, o Exército afegão estará livre para garantir a segurança nos bairros periféricos, na fronteira com o Paquistão, e para cortar as linhas de infiltração do Taleban, uma tarefa feita atualmente pelas unidades de forças especiais dos Estados Unidos. Conforme as forças afegãs assumem maior controle da província, as estrangeiras partem.

O Afeganistão pode ter de viver com alguns de seus distritos mais remotos fora do controle do governo por algum tempo, disse Veres. Estes podem ser gradualmente reinstalados através de combate ou incentivos para se juntar ao governo, disse.

Mas tanto Veres quanto o comandante da brigada afegã em Zabul, o major general Sayed Jamaluddin, em seu quarto ano na província, adotaram um tom cauteloso, dizendo que o Exército afegão ainda não tem os recursos e equipamentos necessários para combater a insurgência sozinho. Foram operações das forças especiais contra os líderes do Taleban e que em grande parte ajudaram a mudar a situação na província, observou o general afegão.

Ambos os comandantes afegãos salientaram que seria necessário a continuação do apoio internacional na luta contra a Al-Qaeda e os talebans. "O Afeganistão é como um homem velho que atravessa o deserto com um grupo de homens jovens e, no meio do deserto, fica fraco”, disse Dost. "Será que vão deixá-lo, com a guerra e cobras ao seu redor?"

*Por Carlotta Gall

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