Xangai tenta descomplicar versão mutilada do inglês

Comissão do governo tenta acabar com o estranho e divertido "chinglês"

The New York Times |

Para quem fala inglês, mas sabe pouco de chinês, a vida cotidiana na China oferece opções bastante confusas.

Nos bancos, existem máquinas para "cash withdrawing" (sacar dinheiro, em tradução literal) e "cash recycling" (reciclar dinheiro). Os cardápios de restaurantes locais podem trazer delícias como "fried enema" (enema frito), "monolithic tree mushroom stem squid" (lula caule de cogumelo de árvore monolítica) e uma misteriosa bebida pra saciar a sede conhecida como "The Jew's Ear Juice" (suco de orelha de judeu).

Quem comer lula caule de cogumelo de árvore monolítica em excesso pode precisar de uma roupa mais larga: tamanhos grandes podem ser encontrados nas versões "fatso" (gordão) ou "lard bucket" (balde de banha). Estas e outras modas podem ser compradas na loja conhecida como Scat (dê o fora).

Você pode rir, mas nos dois últimos anos a Comissão Xangai de Gerenciamento do Uso da Língua tem tentado acabar com essas e outras adaptações ruins do inglês.

Com a ajuda de um exército de 600 voluntários e um Politburo (comitê executivo do Partido Comunista chinês) de hábeis conhecedores do inglês, a comissão corrigiu mais de 10 mil letreiros públicos (adeus "urine district", ou distrito da urina), reescreveu cartazes históricos na língua inglesa e ajudou centenas de restaurantes a renomear suas ofertas.

A campanha foi parcialmente inspirada no esforço feito por Pequim em limpar os sinais em inglês antes dos Jogos Olímpicos de 2008, que levou à substituição de mais de 400 mil placas de rua, 1.300 cardápios de restaurantes e outros exemplos inconvenientes, como o Hospital Dongda Anus - agora conhecido como o Hospital de Proctologia Dongda. Acabou, também, o Racist Park (parque racista), uma atração cultural que foi rebatizada Minorities Park (parque das minorias).

"O objetivo das placas é a sua utilidade. Eles não são feitos para diversão", disse Zhao Huimin, antigo embaixador chinês nos Estados Unidos que, como diretor geral do Gabinete de Assuntos Exteriores da capital, tem liderado a luta pela padronização e seriedade linguística.

Mas enquanto a guerra ao inglês mutilado pode ser considerada uma conquista do governo e autoridades oficiais, aficionados do que é conhecido como "chinglês" começam a entrar em desespero.

Oliver Lutz Radtke, antigo repórter de rádio alemão que provavelmente é a maior autoridade mundial em chinglês, disse acreditar que a China deva abraçar a fantástica mistura de chinês e inglês como a marca de uma língua dinâmica e viva. No seu entender, o chinglês é uma espécie em extinção que merece preservação.

"Se você padronizar todos estes signos, você não apenas tira a graça que existe em um passeio pelo parque, mas também uma vitrine para a mente chinesa", disse Radtke, que é o autor de alguns livros de imagens de placas em chinglês em seu habitat natural.

Antes que alguém considere que é tudo uma questão de piada, Radtke também faz um doutorado em chinglês pela Universidade de Heidelbergue.

Ainda assim, os inimigos do chinglês dizem que os risos causados pela nova língua são humilhantes. Wang Xiaoming, um estudioso de inglês da Academia Chinesa de Ciências Sociais, recorda dolorosamente as gargalhadas de seus colegas estrangeiros estrangeiros ao olhar uma coleção fotográfica de placas e cartazes com erros de inglês.

"Eles não fizeram por mal e não queriam me insultar, mas eu me senti desconfortável", disse Wang, que desde então se tornou um dos principais perseguidores do chinglês em Pequim.

Aqueles que estudam as raízes do chinglês dizem que muitos exemplos podem ter como raiz a preguiça e um programa de tradução gratuito muito ruim. Victor Mair, professor da Universidade Chinesa da Pensilvânia, disse que o dicionário informatizado Jingshan Ciba fez com que alguns produtos alimentícios tivessem traduções vulgares e com conotação sexual que foram usadas em supermercados e levaram a resultados lamentáveis como o "enema frito" do cardápio, que deveria ter sido traduzido como "salsicha frita".

Embora os programas de tradução tenham melhorado e o crescente zelo por um inglês gramaticalmente correto tenha diminuído a criação de novos termos em chinglês, Mair afirma ter recebido pelo menos cinco exemplos por dia de pessoas que sabiam que ele buscava decifrar os erros. "Se alguém me pagasse, eu passaria minha vida fazendo isso", disse ele.

Entre os que são pagos para combater o chinglês está Jeffrey Yao, um tradutor de inglês e professor do Instituto Universitário de Interpretação e Tradução de Xangai que está encabeçando a caçada às placas erradas da cidade. Mas mesmo conforme ele erradica os piores exemplos munido de um decreto do governo - e as empresas não se atrevem a ignorar as sugestões da comissão - ele tem sentimentos mistos, constatando que embora algumas frases em chinglês soem estranhas aos ouvidos ocidentais, elas podem ser incrivelmente poéticas.

"Chega a ser expressivo e até elegante", ele disse, analisando rapidamente um catálogo de placas e sinais que foram apresentados pelos voluntários que registraram Xangai com suas câmeras digitais. "Elas oferecem uma vitrine sobre a forma como nós chineses pensamos a língua."

Ele ofereceu o seguinte exemplo: enquanto os parques do ocidente pedem "Keep Off the Grass" (não pise na grama), versões chinesas tendem a mudar isso para envolver as massas dizendo, por exemplo, "The Little Grass Is Sleeping. Please Don’t Disturb It" (a graminha está dormindo, por favor não perturbe) ou "Don't Hurt Me. I Am Afraid of Pain" (não me machuque, eu tenho medo de dor).

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