WikiLeaks revela gastos exorbitantes da família Kadafi

Telegramas diplomáticos dos EUA falam em show da Mariah Carey no ano-novo, nepotismo e disputas entre filhos do líder líbio

The New York Times |

Depois do ano novo de 2009, meios de comunicação ocidentais relataram que Saif Al-Islam Kadafi, filho do líder líbio Muamar Kadafi, havia pago a Mariah Carey US$ 1 milhão para que ela cantasse apenas quatro músicas em uma festa de réveillon na ilha caribenha de St. Barts.

No jornal que controlava, Saif negou o relato: o grande gastador, disse ele, era seu irmão, Muatassim, conselheiro de segurança nacional da Líbia, de acordo com um dossiê diplomático dos Estados Unidos emitido em Trípoli, capital da Líbia.

Também foi Muatassim, o dossiê afirma, que em 2008 exigiu US$ 1,2 bilhão do presidente da empresa nacional de petróleo da Líbia, supostamente para estabelecer a sua própria milícia. Isso permitiria que ele ficasse quite com seu outro irmão, Khamis, comandante de um grupo de forças especiais que "serve efetivamente como uma unidade de proteção do regime".

AP
Dossiê de 2010 descrevia Saif Al-Islam Kadafi, filho do presidente líbio, como principal nome à sucessão do pai (foto de arquivo)
Conforme o clã Kadafi conduz uma luta sangrenta para se manter no poder na Líbia, dossiês obtidos pelo WikiLeaks oferecem um relato vívido dos gastos, do nepotismo desenfreado e das amargas rivalidades que têm definido o que um documento de 2006 chamou de "Qadhafi Inc.", usando a grafia preferida pelo Departamento de Estado americano para designar a problemática primeira família da Líbia.

Vislumbres das ações do clã nos últimos anos chegaram os líbios apesar do controle rígido que Muamar Kadafi exerce sobre os meios de comunicação e contribuíram para aumentar ainda mais a indignação pública. E as tensões entre os irmãos podem ser um fator relevante no caos que se estabeleceu neste país africano rico em petróleo.

Embora os filhos de Kadafi sejam descritos como concorrentes por posições de liderança no país conforme a idade de seu pai avança – três filhos disputaram os lucros de uma nova franquia da Coca-Cola – eles têm sido bem cuidadosos, segundo os dossiês.

"Todos os filhos de Kadafi e seus favoritos supostamente recebem fluxos de renda da companhia petrolífera nacional e suas subsidiárias de serviço", afirma um dossiê de 2006.

Um ano atrás, um dossiê informou que diversos escândalos haviam colocado o clã em uma "confusão" e "oferecido aos observadores locais sujeira suficiente para uma novela". Muatassim havia repetido sua festa de ano novo em St. Barts, desta vez contratando os cantores pop Beyoncé e Usher. Um "observador político local" em Trípoli disse a diplomatas dos Estados Unidos que as "orgias e extravagâncias de Muatassim irritaram alguns locais, que viram suas atividades como ímpias e embaraçosas para a nação".

Enquanto isso, Hannibal, um outro irmão, fugiu de Londres após ser acusado de abusar fisicamente de sua esposa, Aline, e após a intervenção de Ayesha, filha de Kadafi que viajou à capital britânica apesar de estar "grávida de muitos meses”, relatou o dossiê. Ayesha, juntamente com a segunda esposa de Muamar Kadafi, Safiya, mãe de seis de seus oito filhos, "aconselhou Aline a relatar à polícia que ela tinha se machucado em um ‘acidente’ e a não mencionar nada sobre o abuso", disse o dossiê.

Em meio a manobras de seus irmãos, Saif, o segundo filho do presidente tinha sido "oportunamente afastado de assuntos locais" em férias de caça na Nova Zelândia. Sua entidade de filantropia, a Fundação de Caridade para o Desenvolvimento Internacional Kadafi, enviou centenas de toneladas de ajuda ao Haiti após o terremoto que abalou o país, e ele era visto como uma perspectiva razoável para suceder seu pai.

Um dossiê de 2010 chegou a dizer que "jovens contatos líbios tinham informado que Saif Al-Islam é a ‘esperança’ da ‘Libia Al-Ghad’ (A Líbia do Amanhã), com jovens na casa dos 20 anos dizendo que aspiram ser como Saif e acreditam que ele é a pessoa certa para dirigir o país. Eles o descrevem como educado, culto e alguém que quer um futuro melhor para a Líbia”, ao contrário de seus irmãos, afirma o documento.

Isso era antes. Hoje, os jovens manifestantes nas ruas estão exigindo a saída de toda a família e foi Saif que declarou na televisão à 1h de segunda-feira que a Líbia enfrentaria uma guerra civil e "rios de sangue" se o povo não se mobilizasse a favor de seu pai.

Retrato

Quanto a Muamar Kadafi, de 68 anos de idade, os dossiês fornecem um retrato arrebatador, descrevendo-o como um hipocondríaco que teme voar sobre a água e muitas vezes jejua às segundas e quintas-feiras. Os dossiês dizem que ele é fã de corridas de cavalos e dança flamenca, que certa vez atribuiu a si mesmo o título de Rei da Cultura, entre muitos outros. Os dossiês também disseram que ele anda sempre acompanhado por uma "loira voluptuosa", chefe de sua legião de enfermeiras ucranianas.

Depois que Muamar Kadafi abandonou sua busca por armas ilegais em 2003, muitas autoridades dos Estados Unidos elogiaram a sua colaboração. Em visita com uma delegação do Congresso em 2009, o senador Joseph Lieberman disse ao líder e a Muatassim que a Líbia é "um importante aliado na guerra contra o terrorismo, salientando que ter inimigos em comum, por vezes, é o melhor motivo para se tornarem melhores amigos".

Antes de Condoleezza Rice visitar a Líbia em 2008 – a primeira secretária de Estado a fazê-lo desde 1953 – a embaixada em Trípoli procurou acentuar o lado positivo. Claro, Muamar Kadafi era "notoriamente eloquente" e "evita fazer contato visual", o dossiê advertiu Rice, ao acrescentar: "pode haver longos períodos de um silêncio desconfortavel”. O documento disse também que ele é "um consumidor voraz de notícias", que tem ideias tão distintas quanto promover a resolução do conflito entre Israel e Palestina com a criação de um novo Estado chamado "Isratina".

"Autointitulado intelectual e filósofo, ele tem antecipando ansiosamente há vários anos a oportunidade de compartilhar com você a sua opinião sobre assuntos globais", avertiu o documento a Rice.

*Por Scott Shane, com contribuição de Andrew W. Lehren

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