WikiLeaks encontra poder na imprensa

Desde sua estreia, em 2008, site que vaza documentos evoluiu até chegar à estratégia de divulgar informações em doses homeopáticas

The New York Times |

Será que o WikiLeaks mudou o jornalismo para sempre? Talvez. Ou talvez o contrário tenha acontecido.

Pense em 2008, quando o WikiLeaks simplesmente divulgou documentos que sugeriram que o governo do Quênia havia roubado seu país. A mídia ficou decididamente muda.

Mas o WikiLeaks adotou uma abordagem mais jornalística – com a edição e anotação de um vídeo de 2007, gravado em Bagdá, no qual um helicóptero Apache é visto disparando contra homens que pareciam estar desarmados, incluindo dois funcionários da Reuters. As críticas foram mistas, com alguns sugerindo que o vídeo havia sido editado para fins políticos, mas a divulgação recebeu muito mais atenção da imprensa.

AFP
Assange é fotografado dentro de veículo da polícia, na chegada ao tribunal, em Londres (14/12/2010)
Em julho, o WikiLeaks começou uma parceria com organizações tradicionais de mídia, incluindo The New York Times, dando-lhes a oportunidade de ver com antecedência o chamado Diário da Guerra do Afeganistão, uma estratégia que resultou em extensos relatos sobre as implicações da divulgação dos documentos secretos.

Então, em outubro, os 250 mil dossiês diplomáticos confidenciais dos Estados Unidos, que descrevem as tensões existentes em todo o mundo foram compartilhados pelo WikiLeaks com o Le Monde, El País, The Guardian e Der Spiegel. O resultado foi enorme: muitos artigos foram escritos, analisando principalmente as implicações da divulgação dos documentos.

Estratégico

Observe que a cada nova divulgação o WikiLeaks se torna mais estratégico e tem sido recompensado com uma cobertura mais profunda, mais extensa de suas revelações. O WikiLeaks percorreu um longo caminho de sua origem como um site gerenciado pelo usuário para algo mais parecido com uma publicação tradicional, mas que parece estar em sintonia com o seu manifesto de divulgar documentos com "o maior impacto possível".

Julian Assange, fundador do WikiLeaks e seu orientador espiritual, aparentemente começou a entender que a escassez, e não a ubiquidade, impulsiona a cobertura de eventos pela mídia. Em vez de apenas revelar os dados para que todos vejam, ele começou a limitar as divulgações para aqueles que agregam valor por meio da apresentação, edição e reportagens adicionais. Em certo sentido, Assange, um ex-programador, alavancou o poder de processamento dos meios de comunicação para construir uma história e apresentá-la de forma compreensível.

Anarquismo

E através da publicação de apenas uma parte dos documentos, em vez de derramar informações indiscriminadamente e de forma imprudente que colocaria vidas em risco, o WikiLeaks poderá também adotar uma postura de responsabilidade, uma abordagem que parece ser contrária ao próprio anarquismo de Assange.

Embora Assange argumente agora que o site está envolvido no que chamou de um novo tipo de "jornalismo científico", seus escritos anteriores sugerem que ele acredita que a missão do WikiLeaks é jogar areia nas obras de Estado que ele considera corruptos, sigilosos e inerentemente ruins. Ele iniciou uma conspiração para derrubar o que vê como uma conspiração maior.

"O WikiLeaks não é uma organização de notícias, é uma célula de ativistas que irá liberar informações destinadas a constranger as pessoas no poder", disse George Packer, um escritor sobre assuntos internacionais na revista The New Yorker. "Eles acreditam simplesmente que o Departamento de Estado é uma organização ilegítima que precisa ser exposta, o que não é realmente jornalismo".

Ao ocultar seu radicalismo e colaborar com a mídia, Assange criou uma zona de conforto para os seus parceiros no jornalismo. Eles podem fazer o seu trabalho e ele pode fazer o seu.

Sem novidade

"A noção de que essa experiência de alguma maneira mudou profundamente o jornalismo, a forma como a informação é divulgada ou a maneira como a diplomacia acontece, parece um pouco exagerada", disse Bill Keller, editor executivo do New York Times, que usou a informação do vazamento para escrever uma série de artigos. "Foi importante, mas nada novo. Os consumidores de informação ficaram sabendo de muitas coisas que antes eram secretas", disse Keller. "A escala foi incomum, mas será que foi diferente dos Papéis do Pentágono ou das revelação de Abu Ghraib ou de escutas por parte do governo? Eu acho que não".

Neste caso, as companhias de notícia também podem ter algum conforto em saber que os documentos atuais não contêm, com poucas e notáveis exceções, revelações surpreendentes. Nenhum cidadão consciente ficou surpreso ao saber que os diplomatas não confiam uns nos outros e dizem isso a portas fechadas. Conforme se torna cada vez mais evidente que o site está mudando a forma como a informação é liberada e consumida, algumas dúvidas foram levantadas sobre o valor das abordagens jornalísticas tradicionais.

"As pessoas do mundo digital estão sempre dizendo que não precisamos de jornalistas porque a informação está em todo lugar e não há nenhuma barreira ", disse Nicholas Lemann, reitor da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia. "Mas esses documentos são uma boa resposta para essa dúvida. Mesmo que os jornalistas não os tenham encontrado, há um grande valor em seus esforços para explicar e examiná-los. Quem mais teria a energia ou os recursos para fazer o que estas organizações de notícias fizeram?"

O WikiLeaks certamente não está recebendo a mesma proteção que damos a outros meios de comunicação em países livres. Ele sofreu ataques significativos quando PayPal, Amazon e Visa tentaram bloquear seus serviços, uma medida que seria impensável em relação aos jornais tradicionais. (Você consegue imaginar o barulho que seria feito caso uma empresa de cartão de crédito decidisse cortar o Washington Post por não gostar do que foi publicado na primeira página?)

Execução

Mike Huckabee, o ex-governador do Arkansas, pediu a execução de Assange e o senador Joseph Lieberman já afirmou que ele deveria ser acusado de traição, enquanto Sarah Palin, o chamou de "um agente anti-americano com sangue em suas mãos". (Na verdade, o senador Lieberman sugeriu que o Departamento de Justiça examine o papel do New York Times nos vazamentos.)

Packer é contra a acusação do WikiLeaks por traição porque, segundo ele, "discernir entre as diferenças legais do que o WikiLeaks fez e do que as organizações de notícias fazem é difícil e abriria um terrível precedente".

AP
Protestos pró-Assange em frente à embaixada sueca em Londres
Mas Assange, que está preso na Grã-Bretanha em conexão com um pedido de extradição sueco, é um parceiro complicado. Até agora, o WikiLeaks esteve envolvido em uma colaboração frutífera, uma nova forma de jornalismo híbrido emergente no espaço entre os chamados hacktivistas e a grande mídia, mas o relacionamento é instável.

O WikiLeaks pode estar disposto a jogar bola com os jornais hoje, mas a organização não compartilha dos mesmos valores ou objetivos que a mídia. Assange e seus apoiadores veem a transparência como o objetivo final, acreditando que a abertura vai privar os maus feitores do sigilo de que necessitam para ser bem sucedidos. A grande mídia pode passar muito tempo tentando conseguir informações das mãos dos oficiais, mas em grande parte ela opera na crença de que o Estado é legítimo e tem direito a pelo menos alguns de seus segredos.

Assange jogou uma carta apocalíptica sobre a mesa: ele disse que se a existência do WikiLeaks for ameaçada, a organização estaria disposta a divulgar todos os documentos em seu poder para o domínio público, ignorando as consequências possivelmente fatais. (Seus advogados disseram à ABC News que acreditam que ele sera indiciado por acusações de espionagem nos Estados Unidos). Packer disse que tal ato "é algo que nenhuma organização jornalística jamais faria, ou ameaçaria fazer".

Guerra de informação

O que aconteceria se o WikiLeaks não gostasse da forma como um de seus meios de comunicação parceiros lidasse com as informações ou com a cobertura do WikiLeaks? As mesmas armas usadas na guerra de informação contra seus opositores políticos poderiam ser usadas contra a mídia.

Steve Coll, presidente da Fundação Nova América e escritor e colaborador da revista The New Yorker, que tem escrito extensivamente sobre o Afeganistão, disse que a durabilidade do modelo do WikiLeaks ainda permanece incerta. "Sou cético sobre um lançamento desse porte acontecer novamente", disse ele, "em parte porque os interesses estabelecidos e o Estado de Direito devem ficar mais rigorosos com futuros ataques. Pense no impacto inicial do Napster e o que aconteceu posteriormente a ele".

Naturalmente, o Napster não existe mais, mas a insurgência que representou mudou a indústria da música para sempre.

"Neste momento, os meios de comunicação estão tratando isso como uma transação com uma organização jornalística legítima", disse ele. "Mas em algum momento, eles vão ter que evoluir para uma organização que tem um endereço e identidade ou esse nível de colaboração irá acabar".

Emily Bell, diretora do Centro Digital Tow de Jornalismo na Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, disse que o site já mudou as regras, criando uma situação em que organizações de notícia concorrentes estão agora cooperando para compartilhar um furo. "O WikiLeaks representa um novo tipo de defesa, que traz à mente o ativismo dos anos 60, aquele em que as pessoas querem colocar suas mãos sobre a informação e fazer a sua própria apuração", disse ela. "O que estamos vendo agora é apenas uma fresta na porta. Ninguém sabe ainda para onde isso nos levará".

*Por David Carr

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