Vogue italiana faz edição anti-racismo apenas com modelos negras

O preconceito racial na indústria da moda persiste há muito por causa do representacionismo e da discriminação. Nós já temos nossa garota negra, diz um designer a um agente representante, se recusando a ver outras. Ou: Ela não tem a aparência certa. Preguiça, paranóia e pedantismo também podem ter algo a ver com a falha em se contratar modelos negras para desfiles e editoriais de revistas em números significativos, mas isso é só uma idéia.

The New York Times |

Há uma década se explorava o estereótipo da modelo negra vestindo-a em roupas inspiradas na África (ou as garotas asiáticas em quimonos). Isso pelo menos dava emprego às modelos de minorias étnicas, mas também encorajava um ponto de vista ocidental da cultura africana como algo muitos-braceletes-muitas-miçangas.

Tudo bem, a moda não é profunda. Quando olha no espelho não vê nada além de si mesma. A ironia na moda é que adora mudanças, mas não pode realmente mudar nada. Pode apenas refletir uma mudança no ar. Mas o que muda a moda? O que finalmente faria com que designers americanos incluíssem mais modelos negras em suas passarelas? Saber que 30% do país não é branco? Que as mulheres negras gastam US$20 bilhões ao ano em roupas? Que um negro é o indicado à presidência do partido democrata?

A resposta é o olhar individual.

Na moda, um dos olhares mais influentes pertence ao fotógrafo Steven Meisel. Suas imagens registraram uma América que se vangloria do brilho auto-refletido das celebridades e do dinheiro. Ele assumiu inúmeros riscos, especialmente com "Sex", a obra que realizou com Madonna em 1992, que lhe valeu uma carreira e permitiu a liberdade necessária para fazer o que quiser.

Meisel fotografou algumas das mulheres mais lindas do mundo, entrando em suas psiques e se conectando com elas de forma humana, enquanto as transforma em deusas da moda.

Como disse a modelo Veronica Webb, que trabalhou com ele pela primeira vez há 20 anos: "Steven sabe cada tique, cada talento que cada mulher tem. Ele consegue arrancar isso de você".

Para a edição de julho da Vogue italiana, Meisel fotografou apenas modelos negras. Em um padrão invertido das revistas de moda comuns, todas as faces são negras e todos os assuntos se relacionam às mulheres negras nas artes e entretenimento. Meisel recebeu quase 100 páginas para suas imagens. A edição chega às bancas da Europa na próxima quinta-feira e nos Estados Unidos em breve.

Sob comando da editora Franca Sozzani, a Vogue italiana conquistou a reputação de ser mais sobre arte e idéias do que comércio. Sozzani também não se importa de gerar controvérsias.

Segundo ela, como italiana ela se sente curiosa sobre a corrida presidencial americana e Obama, que foi uma de suas inspirações para a idéia de uma edição negra com a participação de Meisel, que começou a ser discutida em fevereiro. Além disso, ela se diz consciente da falta de diversidade nas passarelas dos últimos anos e do debate que isso gerou no outono em Nova York, quando Bethann Hardison, ex-modelo que comanda uma bem-sucedida agência, manteve um painel de debates sobre o assunto.

Sozzani afirmou que a edição não é uma resposta às críticas de que ela também deixou de representar as negras ou as retratou unicamente como estereótipos.

"A minha revista não pode ser acusada de não usar negras", disse Sozzani, mostrando que Naomi Campbell figurou em diversas capas e que Liya Kebede e Alek Wek também.

Meisel já tinha experiência com a maioria das modelos que usou na edição negra da Vogue: Iman, Campbell, Tyra Banks, Jourdan Dunn, Kebede, Wek, Pat Cleveland, Karen Alexander. "Eu acho isso ridículo, essa discriminação", disse Meisel. "Viver num mundo tão limitado é uma loucura. Idade, peso, sexualidade, raça - todos os tipos de preconceito".

Ele começou a escalar as modelos em março. "Eu adoro a história da moda, obviamente, e adoro o velho, por isso tentei selecionar mulheres mais velhas onde pude" ele disse. Apesar da contrariedade inicial de Sozzani, ele também contratou Toccara Jones, uma modelo grande, que ficou conhecida no programa "America's Next Top Model". "Eu queria dizer algo a respeito do peso e nunca sou capaz de fazer isso", ele disse. "Eu conheci Toccara e a achei linda. O que ela tem? Ela é ótima e muito sexy."

Se essas imagens tiverem um bom senso de glamour, isso provavelmente se deve à atmosfera criada por Meisel. De acordo com Webb, "é um estúdio escuro, como um estúdio da MGM".

Há muitos refletores e ventiladores; muitos assistentes. Uma área delimitada para o "Cabelo" e outra para "Maquiagem". (Pat McGrath foi quem cuidou das modelos para essa edição e Guido Palau fez os cabelos.) Um espelho atrás de Meisel ajuda as modelos a entenderem o que estão fazendo.

"É um mundo escuro e você está sob o holofote", disse Webb.

As quatros imagens que Campbell deveria fazer viraram 20. Ela também aparece na capa dobrável, juntamente com Kebede, Sessilee Lopez e Dunn. "Franca não percebe o que fez para pessoas de cor", disse Campbell. "Isso me lembra quando Yves usou apenas modelos negras". Ela falava de Yves Saint Laurent, que, como Gianni Versace e outros designers, rotineiramente optam por selecionar apenas minorias.

Meisel tem suas próprias teorias sobre o porque modelos negras, com exceção de algumas poucas representantes, desapareceram das passarelas. "Talvez os designers, talvez os editores de revistas", ele disse. "Eles são os poderosos. Os anunciantes também. Eu perguntei a meus clientes de propagandas muitas vezes, 'Posso usar uma garota negra?' Eles dizem não". A preocupação é que os consumidores não se identifiquem e resistam ao produto, ele disse. "No final, se trata de dinheiro".

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