'Vocês vão morrer comigo', disse mãe que atirou carro no Hudson

Único dos quatro filhos que sobreviveu após veículo ser lançado em rio contou que mulher se arrependeu e tentou evitar tragédia

The New York Times |

Meave Ryan viu o menino balançando os braços quando brecou para parar atrás de uma fileira de carros. Os outros carros seguiram em frente e atravessaram o cruzamento, mas ela abriu a janela. "Ele estava gritando por ajuda", disse ela. "Ele disse: 'Minha mãe acabou de atirar o carro na água".

Ryan, 31, disse ao menino – La'Shaun Armstrong, 10 – que entrasse no carro e dirigiu a curta distância até a rampa para barcos, de onde ele disse que sua mãe tinha jogado o carro no Rio Hudson , em Newburgh, Nova York. "Eu saí do carro e entrei na água para tentar ver alguma coisa", disse Ryan.

O veículo, uma caminhonete preta, já estava submerso. Ryan mandou La'Shaun voltar para o carro dela e seguiu para a sede do departamento de bombeiros a poucos quarteirões de distância. Ele estava quase vazio, os caminhões de bombeiros estavam respondendo a uma chamada. "Batemos na porta do posto", disse Ryan. Era 19h50 da terça-feira (horário local).

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Ursos de pelúcia e balões são vistos na rampa de onde Lashanda Armstrong atirou carro no rio Hudson (13/04)
Não demorou muito para que a história que o garoto havia contado ganhasse significado trágico: sua mãe, Lashanda Armstrong, 25, havia feito o que La'Shaun disse – ela jogou a minivan no rio. La'Shaun tinha escapado, nadando em uma água de 7º C.

A minivan estava submersa em 2,5 metros de água. A mãe de La'Shaun ainda estava lá dentro, assim como seus outros três filhos, identificados pela polícia como Landen Pierre, 5; Lance Pierre, 2, e Pierre Lainaina, 11 meses.

La'Shaun disse à mulher que o resgatou o motivo para sua mãe estar tão chateada. "Houve uma discussão sobre traição. O padrasto do menino estava traindo sua mãe", disse Ryan. Durante o curto trajeto de seu apartamento em Newburgh até a rampa para barcos, La'Shaun disse que sua mãe ligou para um parente mais velho e disse: "Me desculpe, eu vou fazer uma loucura, mas você tem que me perdoar".

La'Shaun contou para Ryan que a ligação terminou com o parente dizendo que iria discar 911 (o número para emergências nos EUA).

A polícia enviou agentes ao apartamento, mas era tarde demais. Lashanda Armstrong já havia colocado os filhos no carro e dado início ao que o prefeito Nicholas Valentines chamou de "uma tragédia incomparável nesta cidade”.

Ryan, que estava a caminho de visitar parentes em Fishkill, Nova York, disse que La'Shaun foi claro sobre o que tinha acontecido. Ele contou que Lashanda Armstrong agarrou as crianças quando a minivan caiu na água e disse: "Se eu vou morrer, vocês vão morrer comigo". Ela disse que La'Shaun se soltou, abriu a janela e saiu nadando.

nullEle também contou que sua mãe tentou impedir a tragédia, mas que já era tarde demais. Ele disse que, quando a minivan começou a afundar Lashanda Armstrong disse: "Oh, meu Deus, eu cometi um erro, eu cometi um erro". Ele disse que ela tentou dar marcha à ré, mas a minivan já estava fundo demais na água para voltar.

Vizinhos de Lashanda Armstrong disseram que ela tinha colocado as crianças na minivan após uma discussão com o pai dos três filhos menores, identificados pela polícia como Jean Pierre, 26. Ele foi o seu par no baile de formatura do Ensino Médio e trabalhava em um restaurante de fast-food, segundo vizinhos.

Pierre, segundo alguns relatos, ajudava Armstrong com a responsabilidade de cuidar dos quatro filhos com recursos limitados. Mas havia tensões entre os dois: Pierre não vivia com Armstrong.

"Do lado de fora, parecia perfeito", disse Sharon Ramirez, 22, uma vizinha e amiga de Armstrong. "Mas havia um monte de coisas acontecendo. Eles tinham uma relação complicada”. Ramirez disse ter certeza disso por ter tido um relacionamento de três meses com Pierre no ano passado, quando Armstrong estava grávida de Lainaina.

O primeiro sinal da tragédia envolveu a discussão no apartamento de Armstrong, localizado em uma região precária do centro de Newburgh, cerca de 96 quilômetros ao norte de Manhattan. O chefe de polícia Michael Ferrara disse que um parente de Armstrong ligou para o 911 por volta das 7h30 dizendo que Armstrong estava "envolvida em uma disputa doméstica".

Uma tia de Armstrong, Angie Gilliam, disse ter ligado para o 911 depois de Armstrong telefonar para seu pai. No momento da ligação, o pai estava na casa de Gilliam, que podia ouvir "as crianças gritando”. Os dois ficaram tão preocupados que dirigiram até o seu apartamento. Chegando lá, encontraram apenas os policiais que foram enviados em resposta a sua chamada.

A polícia disse ter sido o primeiro chamado ao apartamento desde que Armstrong se mudou para lá no ano passado. A polícia também disse que Pierre não tem antecedentes criminais de violência doméstica. Ferrara disse que a polícia havia interrogado Pierre, mas que nenhuma acusação foi feita.

Ramirez, que disse ter tido um relacionamento com Pierre, disse que o conheceu quando a irmã dele vivia no apartamento antes de Armstrong e os filhos se mudarem para lá há um ano. Ramirez disse que Pierre afirmou ter filhos, mas negou ainda estar em um relacionamento com a mãe deles.

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Angela Gilliam, tia de Lashanda, leva balão até a margem do rio Hudson

Um vizinho, Steve Sheehan, disse que Pierre e Armstrong faziam coisas de casal, lembrando que, no verão, eles teriam feito churrasco em uma churrasqueira na calçada.

Mas o proprietário do apartamento, John Boubaris, disse que duas vezes no ano passado ela lhe pediu para trocar as fechaduras para manter Pierre fora. "Ela disse que não queria ele aqui", Boubaris recordou, acrescentando: "Ele estava aqui o tempo todo”.

Ainda assim, o dia em que terminou em morte no fundo do rio começou sem nenhum sinal de problemas. Sheehan disse que Armstrong e Pierre tinham colocado as crianças na minivan da manhã. Eles muitas vezes saiam para comprar mantimentos ou ir até a lavanderia. "Era um dia normal", disse Sheehan.

Quanto à La'Shaun, a agência responsável pelo bem-estar infantil emitiu um comunicado que dizia que ele está bem. "Ele vai ficar comigo", disse Gilliam.

Mais tarde, Gilliam e quatro membros da família foram até o rio, ao lado da rampa que Armstrong usou, e colocaram três bichos de pelúcia e três balões brancos. Então eles se sentaram. Gilliam chorou e os outros se reuniam ao redor dela.

"Ela era uma boa mãe", disse Gilliam. "Só porque ela jogou o carro ..." A voz dela sumiu. Então ela disse: "Ninguém sabe o que minha sobrinha passou”.

Por James Barron

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