Vizinhos falam sobre convivência com aposentado acusado de espionagem

MONROE TOWNSHIP, Nova Jersey - Alguns homens se aposentam para conquistar uma vida de anonimato. Ben-Ami Kadish fez o contrário.

The New York Times |

Escolha um exemplar aleatório do jornal de Ponds, comunidade onde Kadish vive com sua mulher, Doris. Aqui ele é Kadish, responsável pela publicação dos resultados do bridge da semana passada e não o ex-engenheiro militar preso na terça-feira acusado de espionar para Israel há uma geração. Ele e Doris venceram o campeonato East-West no dia 1º de dezembro de 2006.

Ali está ele, escrevendo em sua coluna "Veteranos da Guerra Judaica" sobre uma bem-sucedida excursão à Casa da Memória dos Veteranos em Menlo Park, onde ele e seus antigos companheiros de batalha jogaram bingo e admiraram as novas cadeiras reclináveis que compraram para os moradores com o dinheiro de doações. Ali, na página 19, ele está na coluna de Irene Einsenberg, onde ela agradece Kadish, co-fundador do clube e outros membros do comitê de hospitalidade "pelo ótimo trabalho que sempre fazem".

Parece não haver fim para as atividades publicas de Kadish. Ele organiza visitas à hospitais e missas para os mortos, recomenda ações em Israel para conhecidos, serve refeições, convenceu a associação do condomínio a deixá-lo construir um barracão no seu quintal para receber centenas de pessoas que vêm ao local durante a celebração do festival judaico da colheita Sukkot. Em seu tempo livre ele rastreou 500 membros da família e criou uma árvore genealógica online.

Por tudo isso, a noção de que ele tenha participado de espionagem 25 anos atrás foi muito difícil de engolir para seus vizinhos nessa comunidade de 600 casas entre campos de golfe e trilhas naturais há uma hora de Nova York.

Na quarta-feira, um dia depois que Kadish, 84, foi acusado de entregar documentos militares secretos para o governo de Israel durante os anos 1980, seus vizinhos tentavam enquadrar o homem gentil e tão honrado que nunca roubava nos jogos de cartas, com o suspeito criminoso que pode ter que enfrentar a pena de morte caso seja condenado.

"Você pode conhecer uma pessoa por anos e não saber nada real a seu respeito", disse uma Anita, que conhece os Kadish há 40 anos e pediu para ser identificada apenas por seu primeiro nome.

George Applebaum, que assumiu o posto de comandante do "Veteranos da Guerra Judaica", só conseguiu aceitar as notícias ao lembrar como Kadish acreditava no tikkun olam, conceito judaico de reparação do mundo através dos serviços sociais.

"Nosso objetivo nessa vida é fazer do mundo um lugar melhor", disse Applebaum. "Ele só queria fazer o bem e ser bom, e é isso. Talvez seja isso que o tenha motivado a fazer o que fez, ao compartilhar o que acreditava que Israel precisava saber".

O que Kadish queria que Israel soubesse continua envolto em confidencialidade, mas os procuradores federais dizem que envolve armas nucleares, sistemas de mísseis patriotas e projetos de aviões de combate. Esses eram os temas centrais dos documentos roubados por Kadish do Arsenal Picatinny do Exército, onde trabalhou por 27 anos, levados para sua casa em Clifton e fotografados por uma autoridade israelense em seu porão entre 1979 e 1985.

Em Clifton, Randy Ingersoll, 61, vizinho da casa de tijolos aparentes onde os Kadish moravam numa alameda cheia de árvores disse: "quase caí morto" com as notícias.

De acordo com os registros da corte no processo aberto na terça-feira, Kadish disse ao FBI no mês passado que entregou à autoridade, um cientista do Consulado de Israel em Nova York, de 50 a 100 documentos. Ele disse ter recebido apenas pequenos presentes e jantares em troca.

Anos depois de sua aposentadoria em 1990, ele e sua mulher se mudaram para Ponds, entre as cidades de Princeton e New Brunswick. Eles se assentaram em uma casa de um andar no rancho Goldfinch Drive com um enorme quintal e uma coleção de objetos judaicos, fazendo amigos rapidamente. Eles organizaram um Chavurah, serviço de Sabbath que realiza rodízio entre as casas dos participantes; em uma noite havia tantas velas queimando na casa de Kadish que o alarme disparou, disse Ellen Block, membro do grupo.

No Yiddish Club que o casal fundou, Doris era responsável pela cultura - ela interpretou a Rainha Esther na peça "Purim" no ano passado, disse Eisenberg, enquanto Ben-Amid passou os salgadinhos e se responsabilizou pela limpeza.

Os Kadishes são rostos conhecidos no clube de Pond, que tem quadra de tênis, piscina e salas de jogos, e Kadish era freqüentador do Spiro & Angie, uma lanchonete onde bebia seu café diariamente.

Kadish, segundo amigos e vizinhos, é um grande defensor de Israel e do judaísmo; ele nasceu em Connecticut mas cresceu na Palestina e lutou pela independência de Israel. Entre os aposentados, suas opiniões sobre Israel são consideradas normais. Muitas pessoas disseram que: suas opiniões podem ser fortes, mas ele não chega a ser um extremista, muito menos um espião internacional. Ele estava mais interessado em servir sua comunidade judaica local de qualquer forma que pudesse, eles dizem.

Quando o marido de Rita Cherney morreu, Kadish organizou o minyan, as 10 pessoas necessárias para rezar diariamente. Quando sua neta de três anos morreu, ele fez o mesmo.

"Ele fazia os serviços que são necessários, tornava as coisas mais fáceis durante períodos de stress", disse Cherney.

A notícia da prisão de Kadish reverberou na comunidade na quarta-feira, os moradores se dividiram.

Alguns, como Eisenberg, acham que o governo tem coisas melhores para fazer do que acusar aposentados de espionagem.

"Temos tanto terrorismo nesse país, por que perseguir um velho doente?", ela questiona. "Ele lutou por esse país na segunda guerra mundial. Ele é um patriota e eu realmente acho que seja lá o que fez, ele não pretendia machucar ninguém nos Estados Unidos".

Outros, como Cherney, não hesitam em condenar os atos de que Kadish é acusado.

"Toda quarta-feira, quatro mulheres e eu jogamos bridge juntas", ela disse. "hoje só falamos sobre isso. Nós achamos que ele fez uma coisa horrível. As leis desse país precisam ser respeitadas".

Block e seu marido, Arnold, não sabem o que pensar. Se as acusações forem verdadeiras, a Sra. Block disse, Kadish é culpado de traição. Mas Sr. Block acrescenta rapidamente, "eu me sinto melhor por não ter sido para a Al-Qaeda".

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