Violência sexual contra homens é a mais nova atrocidade do Congo

GOMA - Eram quase 23h quando homens armados invadiram a cabana de Kazungu Ziwa, colocaram um machado contra sua garganta e arrancaram sua roupa. Ziwa é um homem pequeno, de cerca de 1m40. Ele tentou lutar, mas foi rapidamente derrotado.

The New York Times |

"Então eles me violentaram", ele conta. "Foi fisicamente horrível. Eu me senti nauseado. Meus pensamentos me abandonaram".


Mitima Mohigirwa, de 24 anos, foi violentado por milícia no Congo

Há muitos anos, as densas colinas arborizadas e claros e fundos lagos do Congo oriental têm sido palco de muitas atrocidades. Agora, aparentemente, há outro problema crescente na tragédia deste país: homens que violentam sexualmente outros homens.

De acordo com ONGs como Oxfam e Human Rights Watch, oficiais da ONU e inúmeras organizações beneficentes congolesas, o número de homens violentados subiu nitidamente nos últimos meses, uma consequência das operações militares conjuntas entre Congo e Ruanda contra rebeldes que revelaram um nível apavorante de violência contra civis.

Trabalhadores voluntários acham difícil explicar a súbita alta em casos de violência sexual contra. A melhor resposta, segundo eles, é que a violência sexual contra homens é mais uma maneira de grupos armados humilharem e desmoralizarem as comunidades congolesas que mantêm submissas.

As Nações Unidas já consideram o Congo oriental a capital mundial do estupro. Centenas de milhares de mulheres foram sexualmente agredidas pelos vários grupos armados que assombram estas colinas e agora mesmo esta área está passando por um de seus períodos mais sangrentos em anos.

As operações militares em conjunto que começaram em janeiro entre Ruanda e Congo, vizinhos Davi e Golias que recentemente foram amargos inimigos, deveria acabar com o problema rebelde ao longo da fronteira e trazer uma nova era de cooperação e paz. As esperanças diminuíram depois que um general renegado derrotou tropas de governo e ameaçou marchar pelo país.

Mas organizações beneficentes dizem que as manobras militares provocaram horríveis ataques de vingança, com mais de 500 mil pessoas tendo que abandonar suas casas, dezenas de aldeias queimadas e centenas de aldeões massacrados, inclusive bebês lançados a fogo aberto.

E não são apenas os rebeldes que são culpados. De acordo com grupos de direitos humanos, soldados do exército congolês estão executando civis, estuprando mulheres e alistando aldeões contra sua vontade para que carreguem sua comida, munição e equipamentos pela selva. Esta é frequentemente uma marcha de morte por uma das paisagens tropicais mais bonitas da África, que também é palco de uma guerra devastadoramente complicada há mais de uma década.

"Da perspectiva humanitária e de direitos humanos, a operação conjunta é desastrosa", disse Anneke Van Woudenberg, pesquisadora da Human Rights Watch.

Os casos de violência sexual contra homens acontecem ao longo de centenas de quilômetros e possivelmente envolvem centenas de vítimas. A American Bar Association, que tem uma clínica legal de violência sexual em Goma, afirmou que mais de 10% de seus casos em junho envolveram homens.

Brandi Walker, voluntário do hospital de Panzi, disse, "em todos lugares que vamos, as pessoas dizem homens estão sendo estuprados".

Mas ninguém sabe o número exato. Os homens aqui, como em qualquer lugar, evitam revelar que foram vítimas de agressões. Muitos que fizeram, foram isolados por seu povo, ridicularizados, rotulados como "esposas" dos rebeldes.

Desde que foi violentado há algumas semanas, Ziwa, 53, não demonstra muito interesse em praticar medicina animal, seu negócio há anos. Ele manca ao andar pela vila (sua perna esquerda foi machucada no ataque) com seu avental de laboratório branco sujo com a palavra "veterinário" escrita a tinta vermelha na lapela, a caminho de uma consulta para levar pílulas a cachorros e ovelhas. "Só penso no que aconteceu e estou cansado", ele disse.

O mesmo é verdade para Tupapo Mukuli, que disse ter sido amarrado pela cintura e violentado por uma gangue em sua pequena plantação de mandioca há sete meses.

Mukuli é o único homem no setor de estupros do hospital de Panzi, que está cheio de centenas de mulheres que se recuperam de ferimentos causados pelo estupro. Muitas tricotam roupas e tecem cestas para ganhar algum dinheiro enquanto seus corpos se recuperam.

Mas Mukuli fica de fora. "Eu não sei fazer cestas", ele disse. Então ele passa seus dias sentando em um banco, sozinho.

Os casos de violência sexual contra homens ainda são apenas uma fração daqueles cometidos contra mulheres. Mas para os homens envolvidos, segundo os voluntários, é ainda mais difícil se recuperar.

"A identidade dos homens está ligada ao poder e ao controle", disse Walker. E em um lugar onde a homossexualidade é um tabu, os estupros carregam em si uma dose extra de vergonha.

"Todos riem de mim", disse Mukuli. "As pessoas da minha aldeia dizem: 'Você não é mais homem. Aqueles homens dos arbustos fizeram de você sua mulher'".

Os voluntários dizem que a humilhação é tão grande que muitas das vítimas de estupro só relatam o acontecido se tiverem  problemas de saúde urgentes, como inchaços no estômago ou hemorragia.

Às vezes, até mesmo isso não é o bastante. Van Woudenberg disse que dois homens cujos pênis foram amarrados com cordas morreram alguns dias depois porque tiveram vergonha de procurar ajuda. As castrações também parecem estar aumentando, com homens cada vez mais feridos indo parar em hospitais.

- Jeffrey Gettleman

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