Violência no Congo testa habilidade de proteção da ONU

A violência duradoura e complexa faz o país ficar conhecido como o 'equivalente africano do Afeganistão'

The New York Times |

The New York Times
Moradora do vilarejo de Luvungi, Anna teve a casa invadida e foi estuprada

Quatro homens armados invadiram a cabana de Anna Mburano, bateram nas crianças e as jogaram no chão. Eles colocaram Anna de costas e, ela contou, estupraram-na repetidamente.

Não importava que dezenas de soldados da paz da Organização das Nações Unidas estavam baseados estrada acima, não longe dali. Ou que Anna tem 80 anos.

O estupro de pelo menos 200 mulheres no remoto vilarejo de Luvungi, com casas de telhado de palha se tornou um embaraço para a Missão das Nações Unidas no Congo. Apesar de mais de 10 anos de experiência e bilhões de dólares, a força de paz ainda parece estar falhando em sua tarefa mais elementar: a proteção dos civis.

Oficiais da ONU admitiram que os agentes de paz não responderam rápido o suficiente ao pedido de ajuda de Luvungi, apesar de dizerem que a principal responsabilidade caiu sobre o Exército congolês, que continua em grave desordem.

Dentro dos círculos de manutenção da paz, o Congo está se tornando conhecido como "o equivalente africano do Afeganistão", disse Annika Hilding-Norberg, diretora do Instituto de Formação de Operações de Paz, na Virgínia, por causa da violência duradoura do conflito e sua complexidade.

Caldeirão

Luvungi, uma aldeia de cerca de 2 mil pessoas, é um caldeirão no qual muitos dos problemas intratáveis do Congo convergem: a busca por minerais, a fragmentação dos grupos de rebeldes, os incentivos perversos entre os grupos armados para cometer atrocidades para reforçar seu poder de negociação, a pobreza que mantém aldeias isoladas e incomunicáveis e o fato preocupante de que nas guerras do Congo o campo de batalha é muitas vezes o corpo das mulheres.

Oficiais da ONU afirmam que a violência sexual no Congo é a pior do mundo.

Os agressores invadiram Luvungi na noite de 30 de julho. De acordo com relatórios da ONU, havia cerca de 300 homens, uma mistura de rebeldes ruandeses que vem aterrorizando o leste do país há anos e combatentes de um novo grupo rebelde congolês, o Cheka Mai Mai, que disputam a atenção conforme o governo tenta absorver mais rebeldes no Exército.

The New York Times
Oficiais da ONU admitiram falhas em conter a violência no Congo
Paradoxalmente, o esforço para integrar certos grupos rebeldes ao Exército congolês – destinado a ajudar a estabilizar a região – pode ter fornecido uma motivação para os estupros, segundo analistas. Quanto mais temível e poderoso um grupo armado parece, mais concessões pode extrair nas negociações.

Os soldados de paz indianos da base de Kibua, a cerca de 11 quilômetros de distância do ataque, disseram ter começado a ouvir relatos de um ataque no domingo seguinte, mas que tinham sido enganados muitas vezes antes. Geralmente, caminhoneiros afirmam que uma determinada área está sob ataque, explicaram as forças de paz, quando na verdade eles simplesmente querem uma escolta da ONU até a próxima cidade para garantir que ninguém roube seus minerais.

Como não há nenhum serviço de telefonia celular na área ou eletricidade, nem sempre é simples saber quando há realmente um ataque. A ONU, que tem cerca de 18 mil soldados no Congo, está agora tentando instalar rádios de energia solar de alta frequência em algumas aldeias.

*Por Jeffrey Gettleman

    Leia tudo sobre: The New York Times

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG