Violência no Congo atinge gorilas em risco de extinção

BULENGO, Congo - Jean-Marie Serundori acorda todas as manhãs pensando nos gorilas. Eu lavo meu rosto, olho para as montanhas e penso neles, ele disse. Eles são como primos nossos.

The New York Times |

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Mas Serundori, da patrulha selvagem congolesa responsável por proteger alguns dos mais incríveis (e em risco) animais do mundo, está longe dos gorilas de ombros largos que tanto ama.

Ao invés disso, ele está preso em um campo de refugiados úmido e sujo no qual a única vida animal presente são as baratas que rastejam pelo chão. Ele é uma das centenas de pessoas que perderam tudo na última onda de violência que atingiu o Congo e as consequências neste caso podem ser irreversíveis.

O Congo é lar para quase um terço dos últimos 700 gorilas selvagens do mundo (os demais se encontram em Uganda e Ruanda). Agora, não há guardas treinados para protegê-los. Mais de 240 agentes congoleses foram removidos de seus postos, inclusive alguns que escaparam por pouco do avanço rebelde no mês passado e sobreviveram na selva por três dias, vivendo de folhas e lama para a hidratação.

"Nós pensamos que se os gorilas podem comer folhas, nós também podemos", disse Sekibibi Desire, que está em uma barraca perto dos demais agentes.

Esta é a apenas a última crise dentro da crise. Os gorilas do Congo vivem em uma das regiões mais disputadas e sangrentas de um dos países mais disputados e sangrentos da África. Sua casa, o Parque Nacional Virunga, fica em terreno alto (com montanhas enevoadas e vulcões) ao longo da fronteira entre o Congo e Ruanda, por onde rebeldes supostamente transportam armas entre os dois países. No último ano 10 gorilas foram mortos em Virunga, alguns com tiros na parte de trás da cabeça, como em uma execução, afirmam os responsáveis pelo parque.

O parque costumava ser um paraíso naturalista, casa de mais de 2 mil espécies de plantas, 706 tipos de pássaros e 218 variedades de mamíferos, incluindo três tipos de macacos: o gorila da montanha, o gorila de terras baixas e chimpanzés. Agora Virunga é uma zona de guerra.


O Congo tem diversos programas de preservação de gorilas / Getty Images

Soldados rebeldes controlam os morros. Soldados do governo atiram morteiros contra eles, explodindo preciosos habitats naturais dos gorilas que desaparecem rapidamente de qualquer jeito por causa do desflorestamento e comércio ilegal de carvão natural.

"Grupos armados se escondem no parque, treinam no parque e, principalmente, comem no parque", disse Samantha Newport, porta-voz do Parque Nacional Virunga.

Newport disse que há dois anos, em um dos lagos do parque, a milícia local exterminou centenas de hipopótamos por sua carne. "O lago ficou vermelho", ela disse

Escalada na violência

O Congo tem sofrido com a violência há décadas. O problema começou em 1994, com o genocídio em Ruanda, que matou 800 mil pessoas e levou milhares de refugiados ao país, juntamente com milícias violentas.
Desde então, vários grupos armados e nações vizinhas têm disputado o controle sobre a região, rica em ouro, diamantes e outros recursos preciosos. No mês passado, uma força rebelde suspeita de ter o apoio de soldados governamentais da Ruanda posicionou tropas na estratégica cidade de Goma e iria tomá-la, quando os rebeldes declararam cessar-fogo.


Soldados das Nações Unidas patrulham as ruas de Kibati, no Congo / AP

O cessar-fogo permanece instável. No domingo, o mesmo dia em que o líder rebelde Laurent Nkunda prometeu respeitar a trégua, uma violenta disputa tomou conta do norte de Goma. Tropas congolesas dispararam foguetes. Os rebeldes responderam com morteiros. Mais uma vez, os agentes da patrulha florestal foram pegos no meio da disputa. Alguns de seus familiares se feriram.

No mês passado, um agente teve sua filha de 14 anos atingida no estômago durante uma disputa na floresta. "Eu peguei ela no colo e corri", disse seu Mberabagabo Rukundaguhaya. "Pensei que ela tinha morrido". Ela sobreviveu, apesar de não estar claro quando sua família poderá voltar para casa.

As autoridades do Parque Nacional Virunga pedem que os rebeldes e as tropas do governo permitam que voltem ao trabalho. Os rebeldes insistem que os gorilas estão a salvo.

"Nós os protegemos", disse Babu Amani, porta-voz dos rebeldes.

Serundori disse que em 20 anos como agente florestal ele viu os gorilas mais de 100 vezes. "Mas o que mais me impressiona é como eles são frágeis", ele disse. "Eles podem ser destruídos rapidamente..."

Por JEFFREY GETTLEMAN

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