Violência atravessa movimento jovem da 'Primavera Árabe'

Em busca da resistência baseada na não-violência, juventude árabe esbarra em ditadores dispostos a usar força para preservar poder

The New York Times |

Atualmente, Muhammad Al-Maskati é um prisioneiro em seu próprio apartamento, com seu BlackBerry cortado pelo governo, as ruas diante de seu apartamento tomadas por tanques, os hospitais em torno da cidade cheios de feridos.

Al-Maskati é um ativista de direitos humanos de 24 anos de idade que há não muito tempo sentia que o Egito estava perto de conseguir implementar uma revolução pacífica, através de um compromisso obstinado com a não-violência. Até os tanques sauditas entrarem no Bahrein e os manifestantes serem atacados, em uma demonstração de todo o poder do Estado contra civis desarmados.

"Nós achávamos que iria funcionar", disse Al-Maskati, sua voz amaciada pela depressão, mas ainda afiada com raiva. "Mas agora, a agressão é demais. Agora não é mais protesto, é uma questão de autodefesa”.

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Jordanianas ativistas na web se reúnem em Dheiban, na Jordânia
A 'Primavera Árabe' não chegou necessariamente ao fim, mas tem esbarrado em ditadores dispostos a usar a força para preservar o seu poder. O ímpeto da juventude que levou a mudanças parou primeiro na Líbia, onde Muamar Kadafi lançou as tropas contra seu povo, e, em seguida, no Bahrein, onde o rei Hamad Bin Isa Al Khalifa pediu a ajuda da Arábia Saudita para esmagar as manifestações.

Os protestos do Bahrein faziam parte de uma transformação do Oriente Médio, impulsionada pelos jovens livres do medo que conteve seus pais. No início, elas pareciam uma força invencível, impulsionada pela força da demografia – 60% da população em todo o mundo árabe tem menos de 30 anos de idade. Eles começaram a reformar as sociedades nas quais os jovens reverenciam os velhos, derrubando velhas hierarquias juntamente com os governos.

O movimento ainda está forçando mudanças em lugares como Marrocos e Jordânia, orientando as transições no Egito e na Tunísia, e acontecendo em países como Argélia e Iêmen. Os jovens continuam na frente, empunhando as ferramentas online com as quais cresceram para mobilizar protestos, iludir a vigilância e atravessar fronteiras de classe.

O acesso dessa geração a uma vida sem fronteiras através da internet e de redes de televisão pan-árabe, como a emissora Al-Jazeera, acabou expondo-a a outras sociedades, alimentando a raiva contra a política repressiva e a estagnação econômica, que tirou as oportunidades e a liberdade de jovens da região.

Juventude

Há muito se esperava que os jovens iriam emergir como uma força poderosa, porque a idade média em todo o Oriente Médio é de apenas 26 anos. Mas o que surpreendeu a muitos foi a ausência do discurso religioso – e a adoção do pluralismo – de uma geração que foi mais observadora do que seus pais e frequentemente buscou no islã consolo diante de sua situação de governantes despóticos e vidas destruídas.

Essa geração rejeitou líderes da oposição tradicionais, como os partidos políticos que serviram aos ditadores ao proporcionar uma aparência de legitimidade democrática, ou a Irmandade Muçulmana, que muitos passaram a ver como parte do status quo.

Os jovens entrevistados em toda a região ecoaram as mesmas ideias, táticas e motivações que desencadearam as revoluções no Egito e na Tunísia. No Marrocos e na Jordânia, os monarcas ofereceram concessões, gerando entusiasmo e esperança. É uma força dirigida por jovens como Tarek Al-Naimat, 26 anos, da Jordânia, que aderiu ao Facebook há algumas semanas atrás, dizendo que era uma ferramenta mais poderosa que a Irmandade Muçulmana. E Oussama El-Khlifi, 23 anos, que deixou a União Socialista de Forças Populares do Marrocos para fundar um movimento não ideológico – inicialmente organizado no Facebook – que reagrupou as pessoas nas ruas do Marrocos e pressionou o rei a anunciar planos para modificar a constituição.

"Nós vimos que mudanças não iriam acontecer pelos partidos, isso iria acontecer através das pessoas", disse El-Khlifi. "Criamos um grupo no Facebook chamado Marroquinos Discutem o Rei, e em quatro ou cinco dias conseguimos reunir 3 mil membros”.

Vitórias

As primeiras vitórias na Tunísia e no Egito os encorajaram. "Eu cresci em um mundo onde nós acreditávamos que não podíamos fazer nada", disse Mariam Abu Adas, 32 anos, um ativista online na Jordânia que ajudou a criar uma empresa chamada Hiber para treinar os jovens a usar a mídia
social. "Gerações acreditavam que não podiam fazer nada e agora, em uma questão de semanas, nós sabemos que podemos”.

É um novo modelo para o Oriente Médio, não apenas porque os jovens estão tomando a liderança, mas porque os mais velhos começaram a ouvir e seguir. "Nós tínhamos medo dos jovens, mas temos observado, e os jovens estão mudando a região", disse Mustafa Rawashdeh, ex-diretor de uma escola em Karak, Jordânia, que foi demitido após a tentativa de formar um sindicato de professores. "Os jovens viram os ventos da mudança e nos guiaram”.

E então as forças de Kadafi abriram fogo, após a repressão do rei Hamad. O idealismo dos jovens ativistas foi contestado pela dura realidade da repressão, deixando-os desanimados, ainda que resolutos. Uma pausa solene é feita, conforme a oposição do Bahrein cuida de seus feridos e os rebeldes da Líbia fogem do avanço das forças pró-Kadafi. O futuro da Primavera Árabe está em jogo.

"Eu não acredito que os protestos pacíficos vão continuar", disse Al-Maskati. "Agora, trata-se de resistir à agressão”.

*Por Michael Slackman

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