Vila que faz protestos pacíficos serve de modelo para causa palestina

BILIN, Cisjordânia - Todas as sextas-feiras dos últimos quatro anos e meio, centenas de manifestantes (aldeões palestinos, voluntários estrangeiros e ativistas israelenses) caminharam em harmonia até a fronteira israelense que separa esta pequena vila do bem-sucedido assentamento de Modiin Illit, parte do qual foi construído sobre terras da aldeia. A 30 metros dali, soldados israelenses assistem e aguardam.

The New York Times |

Os manifestantes cantam e gritam e, inevitavelmente, jogam algumas pedras. Então, também inevitavelmente, os soldados abrem fogo com gás lacrimogêneo e jatos d'água, ultimamente incluindo um líquido à base de óleo de odor pútrido que impregna toda a área.


Protestos são reprimidos com gás lacrimogênio / NYT

Este é um dos protestos mais longos e bem organizados da história do conflito Israel-Palestina e transformou esta vila agrícola anônima em um símbolo de desobediência civil palestina, um modelo que muitos partidários da causa palestina gostariam de ver disseminado e próspero.

Por este motivo, um grupo de famosos antigos estadistas,  incluindo o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter (que gerou controvérsia ao sugerir que a ocupação israelense da Cisjordânia agravou o apartheid local) veio à Bilin na quinta-feira para dizer aos organizadores locais o quanto admiram seu trabalho e por que é vital mantê-lo atuante.

O Arcebispo anglicano aposentado Desmond Tutu, também presente na visita, disse: "Da mesma maneira que um homem simples como Gandhi conduziu a próspera luta não violenta na Índia e pessoas simples como Rosa Parks e Martin Luther King conduziram a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, as pessoas simples aqui em Bilin estão conduzindo uma luta não violenta que trará sua liberdade".

Tutu, sul-africano vencedor do prêmio Nobel da Paz, falou pisando sobre a terra rochosa cercada dos restos de latas de gás lacrimogêneo e diante de rolos de arame farpado, parte da barreira que Israel começou a construir em 2002 em toda a Cisjordânia conforme uma violenta insurreição palestina teve início. 

Israel dizia que seu principal propósito era impedir a circulação de homens-bomba em seu território, mas a rota da barreira (uma mistura de cerca, torres de guarda e paredes de concreto) chega a regiões longínquas da Cisjordânia em determinadas áreas, e a raiva palestina a respeito da barreira se deve tanto à terra perdida quanto à liberdade perdida.

Bilin perdeu metade de suas terras para o assentamento Modiin Illit e levou sua reclamação à Suprema Corte de Israel. Dois anos atrás, o tribunal lhe concedeu uma incomum vitória. Foi ordenado que as construções na região fossem interrompidas e que o exército israelense reposicionasse a barreira para terras de Israel, devolvendo quase metade das terras perdidas à aldeia.

"Os aldeões dançaram nas ruas", relembra Emily Schaeffer, advogada israelense que trabalhou no caso para a aldeia. "Infelizmente, já fazem dois anos desde a decisão e a barreira não se moveu". A vila voltou aos tribunais, até agora em vão, para conseguir que a decisão seja colocada em prática. 

Schaeffer explicou o caso às visitas que atendem pelo nome de Os Anciões (The Elders). O grupo foi fundado pelo ex-presidente Nelson Mandela da África do Sul dois anos atrás e é mantido através de doações, inclusive de Richard Branson, presidente do Grupo Virgin e Jeff Skoll, fundandor e presidente do eBay.


FHC, que participa do grupo "The Elders", ao lado do ex-presidente
dos EUA Jimmy Carter e outros líderes, na Cisjordânia / AFP

Sua meta é "apoiar a construção da paz, ajudar a lidar com grandes causas de sofrimento humano e promover os interesses compartilhados da humanidade".

Branson e Skoll estavam presentes na visita a Bilin, bem como Mary Robinson,  ex-presidente da Irlanda, Gro Harlem Brundtland, ex-primeiro-ministro da Noruega, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil e Ela Bhatt, indígena defensora dos direitos dos pobres e das mulheres. Sua visita por Israel e territórios palestinos também incluiu reuniões com jovens israelenses e palestinos.

Cardoso disse que há muito ouve falar sobre o conflito, mas que vê-lo de perto lhe marcou profundamente. A barreira, ele disse, serve para aprisionar os palestinos.

Leia mais sobre Oriente Médio

    Leia tudo sobre: oriente médio

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG