Vídeos provocam raiva contra a polícia na Rússia

Gravação feita por policial aumenta insatisfação dos russos com a corrupção no país

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Imagem de vídeo mostra gravação de Dymovsky
No outono passado, um policial vestiu seu uniforme e se sentou em um sofá velho diante de uma câmera de vídeo. Em tom monótono, ele gravou dois apelos em vídeo a Vladimir V. Putin, com 13 minutos de duração no total.

"Como pode um policial aceitar subornos?" perguntou o policial. "Você entende para onde nossa sociedade está caminhando?"

"Eu não tenho medo de desistir. Vou te dizer o meu nome. Eu sou Dymovsky, Aleksei Aleksandrovich".

Os vídeos foram publicados no YouTube em novembro, e uma nação que tem ficado cada vez mais enfurecida com as ações da polícia não consegue tirar os olhos deles.

Os vídeos são o reconhecimento da cultura de corrupção existente nas forças policiais da Rússia - os subornos, as prisões ilegais para extorquir dinheiro, os chefes de polícia que compram carros de luxo e mansões com salários modestos.

Os vídeos foram vistos mais de 2 milhões de vezes, mas Putin, o primeiro-ministro, o ignorou. Seu protegido, o presidente Dmitry Medvedev, fez o mesmo - embora Medvedev tenha reconhecido que a corrupção policial atingiu níveis vergonhosos.

E as autoridades locais rapidamente retaliaram o oficial.

Dymovsky, 32, foi imediatamente demitido de seu emprego em Novorossiysk, um porto no Mar Negro, 750 quilômetros ao sul de Moscou. A polícia interrogou ele, seus parentes e amigos próximos, e invadiu suas casas.

Organizações internacionais de pesquisa classificam a Rússia como a grande economia mais corrupta do mundo, em parte por causa da corrupção ligada à aplicação da lei.

Mas oficiais russos de alto escalão há muito parecem ver a fidelidade dos agentes policiais como mais importante do que a sua integridade. E as autoridades parecem não fazer nada para corrigir os abusos que Dymovsky divulgou.

O Ministério do Interior, que supervisiona a polícia em todo o país, negou as acusações de Dymovsky. Tudo estava em ordem, segundo o ministério, na força policial de Novorossiysk. Mas Dymovsky admite que suas próprias mãos não estão limpas.

Como major, ele recebia apenas US$ 450 por mês. Ele disse que as autoridades sabem que, com salários tão baixos, os oficiais precisam encontrar outras formas de pagar suas despesas.

Ele insistiu que aceitou apenas pequenos subornos, nunca mais de US$ 20. Mas este era o seu argumento: a corrupção é endêmica.

Aqueles que têm ajudado Dymovsky ou exigido uma reformulação das forças policiais também estão sob pressão.

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Dymovsky é visto em sua casa em Novorossiysk (15/07)

Em Novorossiysk, um ativista de direitos humanos chamado Vadim Karastelyov foi preso por uma semana pela distribuição de folhetos pedindo que os moradores participassem de um comício a favor de Dymovsky. Depois que foi libertado, Karastelyov foi espancado por dois desconhecidos que não tentaram roubá-lo.

Karastelyov vinha recebendo ameaças anônimas por telefone e mensagem de texto, mas a polícia não lhe deu proteção. Ele fugiu da cidade recentemente com sua família.

"Os líderes policiais querem que todos esqueçam de Dymovsky, para que possam continuar a fazer o que sempre fizeram - cometer atos corruptos e inventar casos contra pessoas inocentes", disse Karastelyov.

Por Clifford J. Levy

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