Vida sexual de líder sul-africano gera debate sobre privacidade

JOANESBURGO ¿ A África do Sul tem uma democracia ainda jovem, e esta semana seus habitantes estão refletindo sobre uma questão de liberdade de imprensa muito familiar aos americanos: a vida sexual do presidente é de interesse público?

The New York Times |

No dia 25 de janeiro, sob a manchete Todas as mulheres o presidente, o The Sunday Independent mostrou uma situação perigosa onde duas mulheres disputavam o afeto do presidente Kgalema Motlanthe ¿ e nenhuma delas era sua mulher.

De acordo com a história contada, Motlanthe, 59, está afastado de sua mulher, intimamente envolvido com uma colega de 45 anos do meio político e ainda mantém uma terceira mulher, de 24 anos que, acredita-se, está no estágio final de uma gravidez. O jornal perguntou: quem é nossa primeira-dama?

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Motlanthe: vida paticular gera polêmica
O presidente recusou comentar o assunto quando foi contatado pelo The Independent, e, embora a reportagem tenha se baseado fortemente em fontes anônimas ¿ esse fantasma do jornalismo, ela continha uma negação curiosa da mais nova das três mulheres: eu não sou uma pessoa pública. Kgalema é uma figura pública. E eu não devo ser devorada por essa história só porque algumas pessoas querem saber quem ele está namorando, o que ele está fazendo e quando.

E assim, suspiros apimentados se transformaram em artigos apimentados. O público e os especialistas estão na dúvida: tudo isso é verdade? Se sim, que diferença isso faz? As figuras públicas têm direito à privacidade em questões profundamente pessoais?

As opiniões estão divididas, como era de se esperar, fornecendo assunto aos programas de rádio e preenchendo a seção Cartas ao Editor dos jornais. Na quinta-feira, no The Times, outro jornal da África do Sul, um leitor se expressou de maneira sucinta: trabalho particular, vida particular. Trabalho público, SEM vida particular.

Carl Niehaus, porta-voz do partido de Motlanthe, o Congresso Nacional Africano (ANC), toma o caso como invasão de privacidade. Em um artigo opinativo para o The Times, ele parecia implorar por paz: Ele pode estar afastado da mulher, como diz a reportagem, mas ele é o primeiro presidente a atravessar desafios como esse?

Niehaus e muitos outros também levantaram questões sobre a exposição sexual. De onde veio essa informação? Quais são as motivações das fontes? Quem está por trás disso?

Esse episódio é divulgado no momento em que o partido está enfrentando uma disputa eleitoral com um grupo dissidente que se auto-intitula Congresso do Povo.  Será que esses descontentes do Congresso Nacional Africano poderiam ter vazado fofocas sobre os seus ex-camaradas? Ou tudo não poderia basear-se em traições dentro do próprio ANC?

O Business Day, um jornal especializado em economia, escreveu: O ANC classificou a reportagem como uma estratégia para manchar Motlanthe, e provavelmente o partido está certo. Não está claro, entretanto, quem está por trás disso.

Na quarta-feira, em um artigo incomum em primeira pessoa escrito no The Star e intitulado O grande debate, Fiona Forde, a repórter que escreveu a história inicial, negou ter agido de forma maliciosa. Ela disse que seu trabalho envolveu técnicas jornalísticas tradicionais e começou com uma curiosidade inocente. Nós sabemos bastante sobre Michelle Obama, Jackie Kennedy e Hillary Clinton, ela escreveu. Sua mensagem original era aprender mais sobre a primeira-dama da sua própria nação.

Ela se ofendeu com as acusações de malícia. A reação à exposição esta semana reflete muito o estado interno do Congresso Nacional Africano, disse Forde.

Troca no governo

O ANC, o partido liberal já governado por Nelson Mandela, tem governado o país desde sua independência em 1994, sempre ganhando a esmagadora maioria no Parlamento, o corpo que de fato elege o presidente. Com um partido tão forte, um político tão conhecido não sofre tanta pressão para ser propagandeado para as massas e ser aberto para análise pública rigorosa como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos.

Em última instância, não importa muito se Motlanthe tem algum pecado genuíno para confessar. Ele simplesmente é um presidente interino que assumiu o cargo em setembro quando Thabo Mbeki renunciou. Depois das eleições que devem acontecem em alguns meses, espera-se que Jacob Zuma, líder dos ANC, assuma a presidência. E se os casos amorosos de Motlanthe parecem agitados, os de Zuma podem ser considerados hiperativos.

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Zuma considera sua família assunto particular

Aceito, aceito, aceito, aceito foi a maneira que uma recente manchete resumiu suas predileções matrimoniais. Um zulu que pratica poligamia, que é legal na África do Sul, Zuma estava na época em vias de casar pela quinta vez, um anos depois de ter ficado noivo na mulher número 4 e já havia rumores de ele já esteria namorando a mulher número 6.

Zuma, 66, considera que sua vida familiar é um assunto particular, assim como Motlanthe, e se recusa a discutir seus casamentos ou revelar quantos filhos ele tem.

Seu silêncio não parece ser motivado por qualquer vergonha da sua família numerosa. Ao contrário, quanto menos ele fala, mais orgulho ele demonstra ser. Ele disse uma vez durante uma entrevista: existe inúmeros políticos que têm amantes e crianças escondidas e fingem ser monogâmicos. Eu prefiro ser honesto. Eu amo minhas esposas e tenho orgulho dos meus filhos.

Ele deixou implícito que tinha muito mais a falar sobre sua família, mas como de rotina, isso não era assunto para o público.

Por BARRY BEARAK

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