Vida noturna de Paris perde seu brilho

PARIS - Os vizinhos não gostam do bar Zero Zero, o inferninho de paredes pichadas na antes tranquila Rua Amelot, no Distrito 11º. Não se trata da aparência do lugar, eles dizem, tampouco de um desgosto particular por sua clientela jovem. É o barulho.

The New York Times |

Os vizinhos ficaram conhecidos por jogar ovos e água sobre a cabeça dos frequentadores do bar. Uma pessoa chegou a atacar os clientes do estabelecimento parados sob sua janela com uma mangueira.


Frequentadores do Zero Zero fumam do lado de fora do bar / NYT

"É insano, os vizinhos acham que somos loucos", disse Nicolas Dechambre, 26, co-proprietário e garçom do bar. A casa pagou cerca de US$ 12 mil em multas por barulho nas ruas no último ano e meio, ele disse, e foi fechada pela polícia por um período cumulativo de quase dois meses como resultado das reclamações dos vizinhos.

"Paris, não é mais a Cidade de Luzes", disse Dechambre. "Ela vai dormir às 23h".

Essa opinião prevalece agora. Apesar de sua reputação como lar espiritual da boêmia, a cidade nos últimos anos se tornou menos agitada e mais calma, dizem os donos de casas noturnas.

Diante de crescentes reclamações de barulho, multas e fechamentos, muitos bares parisienses e salas de shows lutam para sobreviver. DJs e músicos também têm abandonado a capital francesa, forçando uma conclusão surpreendente entre os profissionais da vida noturna da cidade: Paris em breve estará morta durante à noite.

"A lei do silêncio que está acabando com nossos eventos e nossos espaços de convivência logo irá transformar a Cidade das Luzes na capital europeia do sono", escreveu um grupo de promotores musicais em uma recente petição online, que será submetida ao prefeito de Paris e vários ministérios do governo no dia 31 de janeiro.

O documento, assinado por mais de 14 mil pessoas, pede mais tolerância dos moradores e das autoridades. Seria uma "hipocrisia perigosa", afirma o documento, "deixar as pessoas pensarem que a noite parisiense pode prosperar sem perturbar a tranquilidade perfeita de um único morador".


Vida noturna parisiense não é mais a mesma, dizem os boêmios / NYT

Uma manchete no jornal Le Monde do mês passado concluiu que Paris é a "capital europeia do tédio". Para tentar combater essa imagem, a cidade montou um portal na internet, o Paris Nightlife, para promover seus 7.500 bares, casas noturnas e salas de shows, um esforço em "reglorificar a noite", disse Audrey Epeche, conselheiro de turismo da cidade.

Porém, isso dificilmente irá remover os muitos impedimentos à cena noturna da capital francesa, dispostos em um estudo realizado pela cidade sobre sua economia. Uma amostragem dos problemas da cidade: bairros densamente povoados e sem divisão de zonas; falta de transporte noturno (o último metro parte às 2h nos fins de semana, 1h durante a semana); confusas leis de regulamentação de bares e casas noturnas, aplicadas com incomum zelo por uma força policial "repressiva".

Os donos de casas noturnas dizem que o principal problema é a tomada da cidade por classes mais afluentes. Os valores dos imóveis mais do que duplicaram nos últimos 10 anos e os moradores cada vez mais exigem paz e tranquilidade, dizem.

As tensões foram exacerbados pela proibição ao cigarro dentro de estabelecimentos, que levou legiões de fumantes às calçadas a qualquer hora da noite. As reclamações de barulho e multas aumentaram, dizem os proprietários, mas a polícia de Paris se recusou a compartilhar estatísticas.

Os vizinhos dizem estar perdendo a paciência.

"Às 3h da manhã, quando não se pode dormir, você só pensa em destruí-los", disse Xavier Gras, vizinho do bar Zero Zero, a pessoa responsável pelo incidente com a mangueira, e para seu desgosto, frequente prestador de queixa contra o bar.

"Eu chamo a polícia como um velho chato", disse Gras, 56. "Eu não gosto nem um pouco dessa imagem de mim mesmo".

Mas ele diz que a polícia permanece seu melhor recurso. "Nós cansamos", ele disse.

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