Vida de 'flanelinha' atrai jovens da África do Sul

Sem perspectiva de encontrar vaga formal num país em que desemprego chega a 25%, sul-africanos ganham a vida guardando carros

The New York Times |

Os jovens corriam pelo meio da rua em direção aos veículos que se aproximavam, com seus coletes refletores laranja e verde balançando contra o corpo, gesticulando de uma maneira incoerente enquanto eles se acotovelavam para ganhar uma posição na frente dos carros.

A corrida terminou quando um deles fez um sinal para que o carro parasse e perguntou: vaga para estacionar?

Em campeonatos esportivos, shows e shopping centers, bares e eventos públicos de Johanesburgo, na África do Sul, eles são uma raça onipresente: os autodenominados guardadores de carros indicam as vagas para que motoristas estacionem e pedem dinheiro em troca de tomar conta dos veículos.

Os guardadores de carro fazem parte da economia informal da África do Sul, que emprega cerca de 2,1 milhões de pessoas, mais de 16% da força de trabalho, um setor crucial em um país onde a taxa de desemprego oficial é de 25%.

A economia informal também inclui limpadores de pára-brisas, prostitutas, vendedores ambulantes e mascates - todas as pessoas que não conseguem encontrar empregos oficiais, assim como aquelas que simplesmente não querem.

Mas ser flanelinha requer pouco esforço e seu sucesso depende simplesmente de convencer um motorista a estacionar numa vaga de rua. Por isso, esta profissão informal se tornou a preferida dos jovens com poucas perspectivas de um emprego formal. Ela oferece uma certa sensação de segurança em uma cidade assolada pela criminalidade, portanto estes empreendedores têm encontrado um mercado pronto e uma renda decente livre de impostos.

Collen Khumalo, que em uma noite recente cuidava de carros estacionados nas proximidades de um show de rap no bairro de Newtown, disse que começou a tomar conta de carros em estádios quando a África do Sul sediou a Copa do Mundo de Rúgbi, em 1995. Na época, em quatro horas ele ganhava o equivalente ao que ganhava semanalmente lavando pratos, explicou. Ele agora ganha cerca de quatro vezes mais, ou US$ 120 por semana, e não voltou a ter um emprego formal desde então.

"Os trabalhos formais não estão pagando o suficiente", disse Khumalo, 38, que tem dois filhos e uma esposa que trabalha para uma empresa de segurança. "É por isso que as pessoas estão se voltando para os trabalhos informais."

Os flanelinhas veem o seu trabalho como essencial, dada a taxa elevada de crimes na África do Sul. Eles se esforçam muito para passar uma aura de profissionalismo legítimo - usando coletes, ordenando carros a parar como se fosse uma obrigação, orientando o trânsito com confiança e até mesmo emitindo tickets de estacionamento para os motoristas. Aqueles não familiarizados com a cultura podem até mesmo pensar que os guardadores de carros foram contratados por empresas locais para monitorar os carros estacionados. Poucos, na verdade, o são.

Alguns motoristas ficam gratos pela ajuda, mas outros se sentem coagidos a pagar por uma vaga de estacionamento público.

"Esses caras estão apenas tentando ganhar dinheiro fácil”, disse Jabu Silomo, 22, depois de discutir com um flanelinha perto da casa de show em Newtown, onde o rapper Masta Ace fazia seu show. O flanelinha estava pedindo 20 rands, cerca de US$ 2,50, mas Silomo disse que não iria pagar "porque ele não está fazendo nenhum favor ".

Ele disse ao flanelinha que lhe daria a metade da quantia que ele havia pedido, após o concerto, imaginando que ele já teria ido embora.

É possível questionar se o dinheiro realmente compra a segurança. Alguns flanelinhas foram implicados no roubo ou destruição de muitos dos carros que deviam proteger. Outros, na hora de ajudar no estacionamento, se atrapalham e causam colisões.

Em algumas áreas, a polícia tem tentado contribuir para a segurança dos eventos. O brigadeiro Welcome Zangwa, chefe da delegacia de polícia da região do Estádio Orlando, em Soweto, onde centenas de flanelinhas trabalham regularmente durante jogos de futebol, disse que não havia nenhuma lei contra essa prática. Mas, no ano passado, a polícia começou a registrar os guardadores de carros, tirando suas impressões digitais e gravando informações pessoais para que possam acompanhar quem estava trabalhando na área e pedindo-lhes para gravar os números das placas dos carros dos quais cuidam.

"Digamos que seja um carro roubado", disse o brigadeiro Zangwa. "Podemos pesquisar e dizer: 'Ei, você estava trabalhando nesta área. O que aconteceu?' Infelizmente, temos também prendido alguns dos flanelinhas por arrombar os carros."

Raymond Baloyi, 43, que passou sete anos na prisão por roubo, optou pela vida de guardador de carro no Estádio Orlando porque não queria "roubar mais ninguém". Ele acusou os policiais de atrapalharem o seu negócio.

Enquanto reclamava da situação, ele disse também que eles o prenderam por intoxicação em público. A acusação era absurda, segundo ele, com o hálito cheirando a álcool.

Nesta economia não regulamentada, raramente dá para saber quem irá cuidar de seu carro. Khumalo, no entanto, disse que para ser bem sucedido como um flanelinha é preciso ter um certo grau de profissionalismo e organização.

Ele lê jornais todos os dias, à procura de eventos que poderão atrair muitos carros. Além disso, é preciso ser capaz de se lembrar onde os carros estão estacionados e de quem eles são - essas habilidades são úteis na hora de recolher o pagamento. E ele se veste de uma maneira que inspira confiança, ostentando um chapéu, um colete laranja de sinalização de trânsito e uma camisa branca.

Quando um Ford prata se aproximou, Khumalo entrou em ação. "Siga-me", disse ele.

Ele correu virando uma esquina e depois outra, enquanto fazia movimentos circulares com o braço pedindo para que o motorista o seguisse. Cerca de 500 metros depois, o carro estava estacionado do outro lado da rua do evento.

O motorista perguntou a Khumalo se seu carro estaria seguro. Claro, disse Khumalo. O homem olhou para um lote de um estacionamento adjacente e perguntou se podia estacionar ali, mas Khumalo balançou a cabeça, dizendo que o local estava reservado para VIPs. Improvisar rapidamente com os fatos também pode ser algo útil: Khumalo confessou mais tarde que ele teria sido incapaz de fazer negócios no lote vizinho, então inventou a história sobre o estacionamento VIP.

O motorista não deu a Khumalo os 30 rands, cerca de US$ 3,70, que ele havia pedido. Em vez disso, ele disse que iria lhe pagar 100 rands, US$ 12,30, depois do show. Khumalo disse que sentiu que o homem parecia ser de confiança e que ele iria pagar o valor prometido.

Geralmente, segundo Khumalo, ele prefere trabalhar nos jogos de cricket ou rugby, em vez de jogos de futebol ou shows de rap. "A maioria de nós prefere trabalhar nos eventos em que a maioria é branca, porque elas ganham salários melhores do que os negros", disse.

Em jogos de rúgbi, ele imprime placas que dizem que a vaga custa 50 rands e informa: "Por favor, pague AGORA e não depois."

Khumalo, disse que complementa sua renda apostando em partidas de futebol e corridas de cavalos, porque seu negócio é inconstante.

Após o término do show, Khumalo se aproximou do homem que tinha prometido os 100 rands. O motorista o ignorou e dizer uma palavra, entrou em seu carro e partiu.

Por John Eligon

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