Vibradores ganham espaço e criam debate polêmico nos EUA

Antes discutidos apenas entre mulheres, acessórios do prazer são anunciados em TV e estão presentes em prateleiras de lojas

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Pasta de dente? Ok. Absorventes? Ok. Vibrador? Ok!

Durante anos, os vibradores foram comprados silenciosamente em sex shops e, posteriormente, online, quando passaram a ser entregues em casa em embalagens discretas. Eles eram raramente discutidos, com exceção, talvez, de durante um bate-papo entre mulheres alimentado por muitas taças de Pinot Grigio, tarde da noite. Mas agora eles são anunciados na MTV e corajosamente exibidos nas prateleiras de lojas convencionais, a poucos passos de produtos considerados comuns.

O último modelo nas prateleiras é o Tri-Phoria (US$ 39,99), criado pela empresa de preservativos Trojan após um estudo realizado em 2008 em parceria com o Centro de Promoção da Saúde Sexual da Universidade de Indiana revelar que mais da metade das mulheres americanas já usaram vibradores e, desse grupo, quase 80% delas tinham compartilhado o aparelho com seus parceiros. James Daniels, vice-presidente de marketing da Trojan, disse: "A ideia veio realmente das consumidoras. Elas sempre falavam "Vibradores, vibradores". E nós apenas ríamos. E então percebemos que era sério”.

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Vibradores à venda em drogaria de Nova York
O Tri-Phoria junta-se ao A:Muse – massageador para o prazer pessoal -, que chegou às lojas em janeiro, e ao Allure, da Durex, que fez sua estreia nas prateleiras em 2008, ambos os modelos custam US$ 19,99. Alan Cheung, gerente sênior da marca Durex, disse que as vendas de produtos de vibração da companhia subiram 60% nos últimos seis meses, em comparação com o mesmo período do ano passado. "As consumidoras definitivamente já não estão tímidas em relação a esse tipo de compra no ambiente de varejo", disse ele.

Isso não é nenhuma surpresa para Rachel Venning, uma das fundadoras da Babeland, uma cadeia de lojas de brinquedos sexuais que abriu na região familiar de Park Slope, Brooklyn, em 2008, e enfrentou inúmeros protestos. "Eu sei que as mulheres vão comprá-los em qualquer rede de lojas e como defendo a vida sexual saudável fico feliz com isso", disse Venning. "Esse é mais um passo na evolução dos vibradores se tornarem apenas mais um dos produtos de consumo, tirando deles aquela imagem de vergonha, vício sexual e depravação".

Liz Canner, que em 2009 dirigiu o documentário Orgasm Inc., concorda. Seu filme confronta as empresas farmacêuticas que sugerem que as mulheres têm algum problema e, portanto, precisam de algum tipo de ajuda medicinal ou terapêutica, se não conseguirem atingir o clímax durante o sexo. "É mais fácil em uma cultura reprimida você aceitar que tem um transtorno do que ir a uma sex shop e comprar um vibrador", disse Canner em uma entrevista recente. "Há mais de 100 anos se sabe que os vibradores aumentam o prazer sexual. Por que não aproveitar isso?"

Vibradores fizeram aparições culturais ocasionais na década de 90, com cenas em filmes como She's the One e Slum’s of Beverly Hills. Mas foi apenas em um episódio de Sex and the City – que mostrou um dispositivo real chamado Rabbit Pearl – que o vibrador realmente saiu da gaveta do criado-mudo. "Esse seriado foi muito importante para o conforto sexual das mulheres nas duas últimas décadas", diz Laura Berman, do programa In the Bedroom with Dr. Laura Berman (No quarto com a Dra. Laura Berman, em tradução livre).

Vendas

Berman, uma proeminente especialista em relacionamentos e questões sexuais, também tem uma linha de brinquedos sexuais (drlauraberman.com), que segundo ela teve um grande aumento nas vendas – de US$ 100 mil em 2005 para US$ 5 milhões em 2010. Após uma aparição no programa Oprah, no qual falou sobre as mulheres adultas que tem problemas em chegar ao orgasmo, um dos produtos mais vendidos, o Aphrodite, “esgotou para sempre", disse ela. E em 2006, ela provocou um debate nacional quando incentivou as mães a comprar vibradores para suas filhas adolescentes. "Se ela fica excitada durante um encontro, ela pode ir para casa e se autoestimular, ao invés de ficar grávida", disse Berman sobre as filhas.

(Claro, um dispositivo de plástico movido a bateria não é necessário para a autoestimulação, mas não existe potencial de mercado nessa ideia.) Avaliando a atual onipresença do vibrador, Berman disse: "As mulheres estão ficando cada vez menos presas a uma visão puritana do que é ser uma boa menina. Quando conseguem aceitar a sua autoestimulação, elas podem tomar posse de sua sexualidade".

Os homens entrevistados disseram não sentir ameaça na adição dos acessórios na vida de suas parceiras sexuais, e confessaram entusiasmo. Jeremy, 31 anos, um estrategista de conteúdo no setor de entretenimento que vive em Nova York e pediu que seu sobrenome fosse omitido por questão de privacidade, disse: "Na minha opinião, uma mulher que explora completamente o seu próprio corpo, com ou sem brinquedos que ache interessante, se torna uma amante muito melhor".

Kate, 29 anos, coordenadora de programação de Nova York, que é namorada de Jeremy há um ano e meio, se disse "uma evangelista dos vibradores". Na faculdade, ela se lembra de ver um no tema Hello Kitty. "Eu queria ele apenas porque era kitsch e legal", disse ela. "Eu pensei que era tão ridículo que acabei fazendo uma pesquisa e comecei a levar a sério". Kate, uma cliente devota da Babeland, disse que a certa altura ela pediu às amigas que juntassem dinheiro para comprar-lhe um bom vibrador de aniversário.

E quando Lou, 44 anos, que mora em Long Island e é casado com Sarah, 47 anos, há 20 anos, descobriu que tinha câncer de próstata, ele usou um kit para fazer um vibrador à sua imagem e semelhança para sua esposa antes da cirurgia. "Eu nunca achei isso estranho", disse ele.

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Carol Queen, curadora do Museu de Vibradores Antigos, no filme Orgasm Inc.
Carol Queen, que é curadora do Museu de Vibradores Antigos e sexóloga da loja Good Vibrations, que vende brinquedos sexuais desde 1977 e se anuncia como o "local limpo, original e bem iluminado para se comprar vibradores", atribui a aceitação ao debate mais honestos sobre sexo e prazer e ao medo do HIV no início dos anos 90, que levou a discussões mais francas sobre preservativos. Ela também mencionou uma mudança nas revistas eróticas publicadas naquela época.

iPhone

E agora, graças a Suki Dunham, 43 anos, os vibradores também têm um aplicativo no iPhone. Dunham, ex-gerente de negócios da Apple foi dona de casa por quatro anos antes de fundar a OhMiBod, uma linha de vibradores que sincronizam ritmicamente com iPods, iPads, iPhones e outros smartphones. (Mas ela alerta: "Nossa linha de produtos não será vendida na loja da Apple em breve") Ela teve a ideia depois que seu marido, Brian, que viaja frequentemente a trabalho, lhe deu um iPod e um vibrador de Natal.

O marido deixou o emprego para ajudá-la em seu invento, que tem enfrentado alguns obstáculos. A revista Nylon se recusou publicar um anúncio, disse Dunham. E o governo federal negou seu pedido de empréstimo porque disseram que ela tem um negócio "lascivo".
“Eu posso sentar com a minha filha de 10 anos de idade durante o horário nobre da TV e assistir a um comercial do Viagra, mas não posso anunciar a nossa página de fãs no Facebook", disse Brian Dunham.

A capacidade de fazer compras online que certamente ajudou a crescente popularidade dos vibradores. As vendas da Good Vibrations aumentaram 60% desde os anos 90. "Eu sou da internet", disse Ellie, 32 anos, estudante e cliente da Babeland em Old Town, Maine. "Acho que as pessoas querem o produto, mas não querem ir às lojas e enfrentar os olhares das outras pessoas”.

A história do dispositivo é uma contínua fonte de fascínio. Em uma provocação ao puritanismo dos anos 60, um episódio da primeira temporada de Mad Men mostrou um cinto vibrador chamado Electrosizer. A aclamada peça da Broadway chamada Na sala ao lado (ou o jogo do vibrador), de Sarah Ruhl, explorou as razões socioculturais por trás da invenção do vibrador, que servia para tratar mulheres "histéricas" nos anos 1880.

E Hysteria, uma comédia romântica que será estrelada por Maggie Gyllenhaal e Hugh Dancy, vai contar o mesmo ponto na história vitoriana. O enredo gira em torno de Dancy, um sério jovem médico que assume um trabalho de massagear a pélvis da mulher em "paroxismos". Mas quando o médico desenvolve uma síndrome, seu melhor amigo (Rupert Everett), que é obcecado com a eletricidade, inventa um dispositivo que tem impressionantes poderes curativos.

"Os americanos estão prontos para rir do vibrador como um dispositivo médico", disse Tanya Wexler, diretora de Hysteria, cujo filme tem um olhar parecido com aquele que Canner menciona no seu documentário: o tratamento médico de mulheres que não conseguem chegar perfeitamente ao orgasmo – sobre o qual Wexler também se sente perplexa. "As pessoas não precisam de médicos para isso", disse ela. "Elas só precisam de um pouco de liberdade”.

*Por Hilary Howard

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