Veteranos, unidos na solidão, compartilham histórias que não podem contar a ninguém

A guerra contra o terror, que até agora já durou mais do que a Segunda Guerra Mundial, está criando o crescimento da família de veteranos combatentes. É uma família sem vínculos, livre e ampla, mas unida da mesma forma que soldados que passaram por difíceis testes.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Eu mesmo presenciei, outro dia, no município de Stony Point, Nova York, em um centro de conferência de orações, tão tranquilo e verde, diferentemente do Iraque e do Afeganistão.

Era um workshop de fim de semana promovido pelo Vets 4 Vets, uma organização de veteranos na cidade de Tucson, no Arizona, sem fins lucrativos, que está montando grupos de apoio que buscma a nova geração de veteranos de todo o país.

A maioria daqueles presentes ¿ vinte quatro homens e duas mulheres - nunca tinham se conhecido, mas imediatamente se abriram uns para os outros, compartilhando histórias de guerra que alguns disseram nunca ter contado a ninguém. Não eram veteranos inabilitados ¿ não visivelmente. Mas, após dois dias, ouvindo de uma cadeira, de fora da conversa, ficou claro que este era um grupo com feridas.

Michael Rudulph: Muitas vezes minha raiva, minha frustração são cem por cento justificáveis. Mas no fundo da minha mente eu sei que isso é uma falha.

Kevin Cajas: Nós fomos expostos a tantos traumas que nos tornamos viciados nisso. Viciados em traumas. Eles não vão embora, então você tem que aprender a controlá-los. Eu gosto disso; não vou mentir.

Todo mundo tem uma história de mudança. Saíram, repentinamente, de um modelo de "caçador-assassino para um modelo de "marido-estudante", isso é maluco. Um dia você está em Bagdá, e no dia seguinte em Atlanta, ouvindo fileiras de civis lhe aplaudindo no aeroporto Hartsfield. Então você segue sua vida. O preço é muito caro, noites sem dormir, a consciência perturbada e a raiva guardada.

As pessoas não têm idéia, os veteranos disseram. Ryan Knudson, de Phoenix, disse-me o que um salva-vidas de uma piscina lhe perguntou: É muito violento por lá"?

É sim. Você quer ouvir sobre isso? Não, disse Knudson, você provavelmente não quer.

Cajas: Nós éramos o Exército preparado. Quando você está em atividade, você tem uma raiva maníaca e contínua. Meu corpo se acostumou com aquilo. Eu recolhi pedaços dos corpos de meus amigos. Meu colega de quarto teve seu rosto explodido.

Cajas esteve na força de primeira-reação, os caras que derrubam portas. Fizemos um bom trabalho, ele disse. A ironia de servir é que fizemos um bom trabalho e voltamos diferentes. É o que isso faz aos humanos. A analogia que usamos foi a prisão. Estávamos aprisionados na base e toda vez que  éramos soltos, tínhamos que matar pessoas. Agíamos como animais porque éramos animais.

Era difícil assisti-los, embora as expressões intensas de culpa parecessem sinais de almas intactas. Um veterano me disse que era assombrado pela imaginação de que qualquer trauma que ele sofresse seria multiplicado por cem para cada iraquiano no qual ele atirou.

Alguns me deram dicas para continuar no mundo civilizado: Não pergunte "A Questão (Você matou alguém?)". Os ímãs com a frase Apoie as tropas não significa nada para eles. E a cultura militar não é boa em emocionar: as coisas principais que os civis querem fazer com soldados ¿ abraçá-los e embebedá-los ¿ geralmente não são bem-vindas.

Sofrimento coletivo, apoio recíproco

Vets 4 Vets tem apenas algumas centenas de membros em cerca de vinte quatro cidades. O fundador, Jim Driscoll, tem raízes no movimento anti-guerra, mas insiste que o grupo é apolítico. E também não tem fins terapêuticos; ninguém que dirige os workshops são terapeutas qualificados.

Há um lugar na era dos antidepressivos para a sessão de culpa no estilo-Vietnã? Parece que sim. Dezenas de milhares de soldados estão voltando ano que vem. O Departamento dos Assuntos dos Veteranos aumentou a abrangência em seus hospitais e Centros de Veteranos, mas a demanda é grande. Oficiais militares sempre reclamam sobre como é difícil fazer os soldados falarem sobre seus problemas. Muitos veteranos dizem que ajuda profissional parece inútil. Alguns daqueles em Stony Point foram tão incontroláveis que o controle medicinal e o grupo de terapia de alguns meses não adiantaram muito.

Kevin Cottrel, ex-médico, disse que, em suas sessões de grupo, se sentou entre o velho ex-soldado do Vietnã e um marinheiro que esteve em Bahrain, e que não tinha nada a dizer a eles. Mas após a semana passada, ele disse que quis começar um capítulo da Vets 4 Vets em sua área.

Os veteranos se repartiram em pequenos grupos, que é a parte mais difícil dos workshops. Em uma mesa de piquenique, embaixo de uma árvore, Cottrell compartilhou histórias de seus piores momentos com Michael Gillespie, Stephen Wade e o líder do workshop, Abel Moreno. Ele contou que tentou salvar, frenéticamente, um soldado cujo caminhão havia sido explodido, que tinha perdido partes das duas pernas e acabou morrendo no hospital.

Então, Wade contou sobre quando telefonou para sua esposa e ela colocou seu novo namorado no telefone. Ela lhe disse que era um marido ruim por ter ido para o Iraque. Ele está rezando para que um juiz lhe conceda a custódia de sua filhinha.

Wade ficou em silêncio, perturbado. Moreno disse que o próximo passo geralmente é um abraço. Eles começaram um estranho abraço de homem, dando tapinhas uns nas costas dos outros. Gillespie se juntou a eles e então Cottrel, um cara grande, envolveu-os em um abraço. Eles ficaram lá por um tempo insuportável, segurando uns aos outros...

Por LAWRENCE DOWNES

Leia mais sobre guerra

    Leia tudo sobre: guerra

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG