Veteranos de jornais retratam Murdoch como um chefe totalmente engajado

Ex-funcionários do conglomerado News Corp. contestam depoimento de magnata que alegou pouco envolvimento com veículos que controla

The New York Times |

Foi o furo político do ano, uma condenação em série exposta no jornal The Daily Telegraph sobre como os políticos britânicos estavam abusando de sua contas de despesas parlamentares para pagar coisas como a limpeza de fossos e o corte de jardins.

Os artigos, publicados em maio de 2009, abalaram e envergonharam os legisladores do Parlamento. Eles também irritaram Rupert Murdoch, o presidente da News Corp. , pela simples razão de que dois de seus próprios jornais, o The Times e o The Sun, haviam tido a chance de comprar a informação que levou à exposição, mas a recusaram.

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John Witherow, editor do Sunday Times, com quem Murdoch disse falar nas noites de sábado
"A sua raiva atravessou o Atlântico", disse um ex-repórter de um dos jornais de Murdoch.

Na News International, o braço de jornais britânicos de Murdoch, os executivos se esforçavam para desviar a responsabilidade. A culpa caiu em grande parte, sobre um advogado da casa que tinha advertido contra o pagamento de cerca de US$ 450 mil por um disco roubado contendo os registros das despesas parlamentares. (Alguns meses mais tarde, o advogado foi convidado a deixar a News International, onde havia trabalhado por 33 anos, aparentemente depois de uma outra discordância com o conselho.)

Embora não esteja claro se Murdoch desempenhou um papel direto no assunto, há pouca dúvida de que o furo do The Telegraph continuou a ser um ponto sensível para ele e que sua indignação atingiu várias camadas da empresa. Logo depois, o Wall Street Journal, o seu principal jornal americano, fez sua própria investigação dos gastos parlamentares nos Estados Unidos.

A história das despesas ainda estava na mente de Murdoch dois anos depois: foi a única grande história britânica que ele mencionou na audiência parlamentar da semana passada pelo nome.

Ao aparecer diante da Comissão de Inquérito do Comitê para Cultura, Mídia e Desportos da Câmara dos Comuns , Murdoch tentou se distanciar do escândalo de escutas telefônicas explicando que, como emprega "53 mil pessoas em todo o mundo", ele não pode esperar saber tudo o que todos estavam fazendo no News of the World .

Ele pode ter parecido vago, individualista e sem foco na audiência – como um homem velho que às vezes não parecia totalmente presente. Mas Murdoch, que todas as manhãs lê avidamente o que um ex-editor chamou de "o melhor serviço de clipping que eu já vi", nunca foi um chefe pouco envolvido, especialmente em seus jornais.

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Rupert Murdoch durante depoimento ao Comitê de Mídia do Parlamento britânico (19/7)
“Eu realmente não aceitei isso, para ser honesto", disse Roy Greenslade, antigo editor de Murdoch que agora é professor de jornalismo da City University de Londres. "Tenho certeza que ele já não interfere tanto quanto há 20 anos, mas você pode ver no The Sun e no News of the World que a sua palavra permanece lei”.

De fato, em janeiro, quando o escândalo de escutas telefônicas começou a ganhar força e Andy Coulson, ex-editor do News of the World, deixou seu emprego como principal porta-voz do governo (ele já foi preso por suspeita de escutas telefônicas e suborno da polícia), Murdoch adiou sua viagem para o Fórum Econômico Mundial e seguiu para Londres para assumir o comando.

Rodeado pelos editores dos jornais The Sun e The Times de Londres, seu filho James , e Rebekah Brooks , na época presidente-executiva da News International (ela também já foi presa sob as mesmas suspeitas), Murdoch almoçou na cafeteria da equipe do News International. Foi então que ele apareceu na conferência editorial do Times, onde opinou sobre uma das grandes histórias do dia: a decisão da Sky News de demitir o âncora de um programa de esportes que tinha feito comentários lascivos sobre sua coâncora, chegando a sugerir que ela colocasse o microfone na calcinha.

Histórico

Murdoch começou sua carreira quando herdou de seu pai um pequeno jornal na Austrália. Ele permaneceu em seu núcleo um empresário durão com os instintos de um repórter de tablóide, disseram muitos funcionários antigos e atuais, todos sob condição de anonimato por não querer irritar Murdoch.

"Ele vive através de seus jornais", disse um ex-editor de um dos principais jornais da News Corp. "Ele é um viciado em notícias. Ele está interessado no que está impulsionando as vendas, o que está na primeira página. Ele sempre conversa com seus editores".

Murdoch contrata editores que, geralmente, têm a sua filosofia – à direita do centro, anti-grandes governos, anti-União Europeia, pró-negócios – e se concentra em seus favoritos. Mas se os jornais britânicos e americanos da News Corp. – The Times e The Sunday Times, de Londres, e The Wall Street Journal – oferecem poder, seus tabloides oferecem uma plataforma para que ele promova seus interesses políticos e empresariais.

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Piers Morgan, âncora da CNN e ex-editor do News of the World, descreveu a maneira como Murdoch faz negócios de “assustadora”
E seu coração está neles. Ex-editores do News of the World e do Sun dizem que ele liga com frequência, com aparente descontração, mas transmitindo exatamente o oposto, com perguntas incisivas e longos silêncios. Murdoch espera que seus tabloides vençam a concorrência com denúncias agressivas e intrusivas, que resultam em exclusivas espalhafatosas que expõem mau comportamento sexual ou desmascararam o estabelecimento. É essa expectativa, segundo ex-editores e repórteres, que levam os editores de seus tablóides a práticas cada vez mais aventureiras para conseguir notícias.

Nenhum dos editores disse que Murdoch os obrigou a usar escutas telefônicas ou outros métodos ilegais para obter informações. Mas seu entusiasmo por artigos que geraram vendas em massa na banca e irritaram a elite política era lendário na Rua Fleet.

"O que eu devo fazer, ficar de braços cruzados e ver um jornal ir pelo ralo simplesmente porque eu não deveria interferir?", disse ele certa sobre o News of the World. "Que lixo!"

A porta-voz da News Corp. informou que a empresa não quis dar entrevistas para esta matéria.

Em seu depoimento na semana passada, Murdoch disse que fala por telefone com John Witherow, editor do Sunday Times, a maioria das noites de sábado e com frequência conversa com Robert Thomson, editor doJournal, australiano e editor do qual é mais próximo.

Desde que Murdoch o comprou, os artigos do Journal se tornaram mais curtos, diretos e com mais foco nas notícias, em consonância com a opinião do dono sobre como os jornais devem ser. E, por certo tempo, Murdoch foi uma presença constante na redação, muitas vezes sentado em reuniões de pauta, embora ele geralmente tenha permanecido em silêncio.

Cobertura

Mas, apesar de sua proximidade pessoal, Murdoch não faz nenhum esforço para influenciar a cobertura das notícias, disse Thomson.

"Nós simplesmente não discutimos detalhes da cobertura", disse Thomson por email. "Nem uma única vez. Nunca. Há uma clara e distinta linha de demarcação muito honradamente observada. Rupert respeita a independência do editor e sua autonomia, e sugerir que nós orientemos a cobertura é um insulto a todos os jornalistas do Journal”.

Pessoas no Times, onde Murdoch é chamado à revelia simplesmente de "K.R.M." – as iniciais são de seu nome completo, Keith Rupert Murdoch – dizem que a sombra do patrão se agiganta na redação, embora ele a visite no máximo algumas vezes por ano.

"Normalmente, ele analisa os nossos cérebros para saber o que está acontecendo no mundo", disse um ex-jornalista do veículo. "Nós dizemos o que está acontecendo na política e nos negócios e no Afeganistão. Cantamos para receber o nosso jantar".

*Por Sarah Lyall e Graham Bowley

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