Versão oficial é confrontada por tecnologia digital em casos policiais

NOVA YORK - Por volta das 9h30 da noite de sexta-feira, um ciclista pedalando pela Sétima Avenida guiou para a esquerda, tentando evitar uma colisão com um policial que estava no meio da rua.

The New York Times |

Mas o policial, Patrick Pogan, deu alguns passos em direção do ciclista, Christopher Long, se posicionou e jogou seu corpo contra ele.

Pogan, ex-jogador de futebol americano no colégio, atingiu Long como se estivesse impedindo um atacante de se movimentar durante um jogo e o lançou pelos ares.

Na noite de terça-feira, um vídeo do acidente já havia sido assistido cerca de 400 mil times no site YouTube. "Eu não sei explicar porque isso aconteceu", disse o comissário de polícia Raymond W. Kelly. "Eu não entendo como isso pode ter acontecido".

Mas esse episódio não foi apenas uma forte colisão entre um ciclista e um policial. Esse pode ser um confronto marcante entre as inúmeras histórias falsas contadas por policiais em cortes criminais e as evidências documentais que as contradizem. Ainda que em muitas instâncias histórias imprecisas tenham sido toleradas pelos superiores policiais e promotores, o caso de Pogan tem passado por um escrutínio maior.

Naquela noite, Pogan registrou sua versão oficial do acidente. Seu relato não tinha nenhuma semelhança com o que aconteceu e, por causa dele, Long foi detido por 26 horas sob acusação de tentativa de uso de violência e conduta desordeira.

No entanto, durante o fim de semana o vídeo, feito por um turista na Times Square com sua família, caiu nas mãos de pessoas envolvidas na Critical Mass, o protesto ciclista do qual Long fazia parte no momento do acontecido.

A disponibilidade de tecnologia digital barata (câmeras fotográficas, filmadoras, celulares) acabou com o monopólio da história da vida pública, antes nas mãos da narrativa oficial através dos relatórios policiais e de promotores. A era digital criou uma história livre.

Centenas de casos contra pessoas presas durante a Convenção Nacional Republicana tiveram fim com uma avalanche de vídeos que contradizia a versão policial ou gerava dúvidas sobre sua confiabilidade. Os vídeos foram feitos por pessoas envolvidas nos protestos, transeuntes, turistas e policiais.

Na Biblioteca Pública de Nova York, um pequeno grupo que segurava uma faixa apoiada numa das estátuas de pedra em formato de leão que ficam ao lado da escadaria principal do prédio foi preso e acusado de obstruir o tráfego na Rua 42, apesar de vídeos mostrarem que eles estavam nos degraus, muito longe da rua.

Em outro caso, um policial testemunhou que ele e três outros agentes tiveram que carregar o manifestante Dennis Kyne pelos braços e pernas escada abaixo. Vídeos mostraram que Kyne desceu a escada andando tranquilamente e que o policial que testemunhou no seu caso não teve envolvimento na prisão. As acusações foram retiradas; o promotor do distrito de Manhattan se recusou a acusar o policial de perjúrio.

Dezenas de relatórios foram feitos por policiais que disseram ter testemunhado pessoalmente pessoas violando a lei na rua Fulton e perto da Union Square, mas que depois admitiram sob juramento que seu único envolvimento foi processar as prisões e que não viram realmente a conduta desordeira em questão.

O assistente de promotor distrital Robert M. Morgenthau escreveu ao Departamento de Polícia para ressalta a importância dos policiais não relatarem coisas que não viram por si mesmos. Os promotores dizem que a confusão em torno de prisões coletivas dificultam a responsabilização por perjúrio.

O caso de Long e Pogan está se tornando um exemplo de uma narrativa oficial sendo diretamente questionada por um vídeo.

Em uma ação na corte criminal, Pogan escreveu que Long o atacou deliberadamente com a bicicleta (apesar do vídeo mostrar Long desviando do policial). O policial disse que foi derrubado por Long. No entanto, em todo o vídeo ele permanece de pé, mesmo depois da colisão com Long. Ele também escreveu que Long fazia "curvas" pela rua, "fazendo assim com que múltiplos veículos tivessem que parar repentinamente ou mudar sua direção para evitar uma acidente". No entanto, no vídeo, não há carros na rua.

Long deverá comparecer à corte em setembro. Até lá, a maioria dos ferimentos do acidente terão curado.

O prognóstico para a verdade não é tão claro.

Por  JIM DWYER

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