Venezuelanos assistem à vida passar enquanto esperam em filas

Filas em escritórios do governo, bancos, pontos de ônibus, cinemas e hospitais são incorporadas à paisagem da capital Caracas

The New York Times |

Revoluções vêm e vão. Novas construções remodelam Caracas e depois vão à falência, deixando elefantes brancos como testamento. O preço do petróleo sobe e desce, e ressuscita. Mas uma coisa, pelo menos, permanece a mesma: as filas.

Na frente dos escritórios do governo, bancos, pontos de ônibus, cinemas, hospitais, salões de beleza e supermercados, lá estão elas: filas que chegam às calçadas e podem fazer um europeu oriental lembrar da década passada.

"As filas são para nós como um cônjuge que não aguentamos, mas sem o qual não conseguimos viver", disse Jorge Sayegh, um colunista do jornal El Universal, que escreveu sobre a aceitação dos venezuelanos das filas, que chega a ter certo carinho. "Nós somos atraídos pelas filas como moscas ao mel, nós realmente as amamos”.

Amor por filas? Esse certamente não é o caso de muitos aqui. Mas para outros, que passaram uma vida inteira suportando fila após fila, sem sucumbir ao desespero ou à raiva cega, algo que vai além de mera resignação e se aproximando da apreciação cria raízes.

"Por que ficar chateado com uma coisa dessas?", perguntou Thais Estrada, 62 anos, uma aposentada que estava na fila em uma manhã recente para pagar uma conta de energia elétrica em um estabelecimento do governo. "Ficar na fila é uma chance de fazer novos amigos", disse ela enquanto conversava com a mulher à sua frente. "Depois de compartilhar essa experiência, somos praticamente primas agora", disse Estrada com um sorriso. "Há pessoas que ficam amarguradas por pegar filas, mas esse é o nosso sistema e nos adaptamos a ele".

Outros, naturalmente, são menos otimistas em relação a filas para isso e aquilo. Em uma manhã, no centro da anárquica capital venezuelana, as filas se esticavam como os tentáculos de um polvo em várias direções a partir de escritórios do governo, incluindo o Instituto da Segurança Social, o Tribunal Supremo e o Ministério das Relações Exteriores.

Em uma torre, onde fica a Assembleia Nacional e vários tribunais, 117 pessoas estavam em uma fila de movimento lento à sombra de um mural de José Maria Vargas, um líder do século 19 da Venezuela, e suas palavras: O Mundo é Dos Homens Justos. Alguns folheavam jornais. Outros digitavam em seus BlackBerrys. Alguns cantarolavam melodias ou olhavam para o espaço. Soldados com uniformes moídos caminhavam ao longo da fila, fumando cigarros. Buzinas, alarmes de carro e motos faziam a trilha sonora.

"Que 'ladilla'", disse uma irritada Paula Espinosa, 42 anos, na fila para obter uma cópia de um certificado de casamento. Essa expressão, comumente usada aqui para se referir a algo ou alguém irritante, pode ser traduzido como "que chato".

Espinosa explicou que a fila em que estava em pé fora do prédio era simplesmente para ter acesso ao elevador do edifício. Outras filas, para outros fins, a aguardavam lá dentro.

Assaltos

Outros riscos além do tédio espreitam algumas pessoas nas filas da Venezuela. Páginas policiais dos jornais, por exemplo, veiculam artigos que descrevem homens armados assaltando pessoas nas filas, especialmente nos bancos. Em um assalto a banco, dois ladrões simplesmente ficaram na fila como se estivessem ali para fazer um depósito, antes de prosseguir com a ação.

Economistas e outros estudiosos se esforçam para explicar por que a Venezuela tem uma cultura de compreensão tão extraordinária a respeito das filas, mesmo em comparação com as ricas tradições burocráticas de algumas nações latino-americanas. Alguns culpam o petróleo e a bizantina burocracia, criada para administrar as receitas do petróleo.

Outros, como é costume em alguns círculos, colocam a culpa no presidente Hugo Chávez. O presidente, eles argumentam, aumentou a burocracia da Venezuela, nacionalizando dezenas de empresas privadas e aumentando o número de ministérios de 14 para 27, quando subiu ao poder em 1999. Ainda assim, apesar de todas as novas filas em prédios governamentais em Caracas, um olhar sobre a história da Venezuela sugere que as longas filas da nação sobreviveram a um presidente após o outro.

A escritora americana Erna Fergusson, que veio ao país logo após os 27 anos de ditadura de Juan Vicente Gómez, descreveu as filas que tinha de suportar apenas para subir à bordo de um navio de Maracaibo para Curaçao. Seu livro, "Venezuela", foi publicado pela primeira vez em 1939. "A Venezuela provou ser tão difícil de deixar quanto de entrar", Fergusson escreveu sobre a sua provação angustiante em cinco diferentes escritórios, onde ela garantiu selos, vedações e permissões, incluindo uma petição na Câmara Municipal que permitia que pudesse ir embora. "Para mim, não passou de uma alucinação quente e oscilante”, contou.

Todo esse tempo gasto em pé sob o sol do Caribe cria oportunidades para algumas pessoas empreendedoras.

'Profissão'

Há, é claro, a profissão do "gestor", um despachante que enfrenta a burocracia da Venezuela (incluindo filas) em nome de clientes por uma taxa robusta. Alguns gestores são tão qualificados que atraem o devido respeito, combinando o conhecimento de um contador e o de um advogado.

Negócios mais humildes também persistem em volta das filas da Venezuela. Há aqueles que simplesmente ficam na fila por um preço, guardando o lugar para outra pessoa. Os gestores depreciativamente chamam essas pessoas de "vende-puestos", ou vendedores de espaço. (Para quem está familiarizado com os costumes de Washington, eles se assemelham aos "espectadores de fila" que esperam na fila em nome dos lobistas que querem acesso a audiências no Congresso.)

Depois, há empresários como Lina Medina. Ela começa a trabalhar todas as manhãs às 4h na frente de um escritório de manipulação de registros de estrangeiros, alugando cadeiras de plástico por cerca de US$ 2 cada para as pessoas que esperam para entrar. Em vez de ficar em uma fila de pé desde a madrugada e durante horas, as pessoas podem se sentar. "Quanto mais longa a fila, mais as pessoas estão dispostas a pagar por minhas cadeiras", disse Medina, 27 anos, uma imigrante da Colômbia.

Onde alguns veem oportunidade, outros veem ineficiência. Juan Nagel, um economista que coedita o Caracas Chronicles, um blog sobre política venezuelana, recentemente publicou um texto descrevendo sua espera inútil de duas horas e meia para abrir uma conta bancária. "Meia hora se passa. Três pessoas têm sorte", Nagel escreveu, referindo-se às pessoas segurando pastas de documentos necessários para obter acesso à moeda forte. "Eles se aproximam dos atendentes como um servo se aproxima de um senhor”.

Nagel atribui as filas, em parte, a políticas como o controle de preços e regras de trabalho que determinam quantos funcionários uma determinada empresa pode contratar. Essas medidas também inibem a concorrência, ele argumenta, tornando mais fácil para as empresas maltratarem os clientes.

Ainda assim, alguns venezuelanos dão boas-vindas a certas políticas que criam ainda mais filas. Yahaira Reyes, 42 anos, uma designer gráfica, ficou em nada menos que quatro filas diferentes um dia para comprar comida subsidiada. Ela sorriu ao descrever suas compras, incluindo iogurtes, bacon e cortes de carne bovina brasileira. Esperar para comprar alimentos em tais filas se tornou rotina desde que as autoridades afirmaram controle estatal sobre a indústria de distribuição de alimentos. "As pessoas que se queixam das filas estão desperdiçando seu tempo", disse ela. "Quando vejo uma fila de boa comida a preços baixos, é nela que eu quero estar”.

*Por Simon Romero

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