Venezuela teria pedido que Farc matassem opositores, diz instituto

Informação faz parte de análise de materiais achados com ex-líder Raúl Reyes; não há evidência se Chávez estava ciente dos pedidos

The New York Times |

O principal grupo rebelde da Colômbia tem uma história intrincada de colaboração com as autoridades venezuelanas, que lhe pediram para fornecer treinamento de guerrilha urbana às células pró-governo locais e matar opositores políticos do presidente da Venezuela, segundo uma nova análise das comunicações internas do grupo.

A análise afirma que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foram convidadas a servir como uma milícia paralela para o aparato de inteligência da Venezuela, embora não haja evidência de que o presidente Hugo Chávez estivesse ciente dos pedidos de assassinato ou que eles tenham sido concretizados.

Os documentos, encontrados nos arquivos do computador de um alto comandante das Farc que foi morto no Equador em um ataque colombiano lançado em 2008, também mostram que a relação entre os rebeldes de esquerda e o governo da Venezuela, embora muitas vezes cooperativa, foi difícil e por vezes hipócrita.

Os documentos fazem parte de um relatório de 240 páginas sobre o grupo rebelde intitulado "Os arquivos das Farc: Venezuela, Equador e o Arquivo Secreto de Raúl Reyes", que foi publicado nesta terça-feira pelo Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, em Londres.

Embora alguns dos documentos tenham sido citados anteriormente, o lançamento de um CD que acompanha o livro contendo todos os arquivos representa a primeira vez que um grande número desses documentos vem a público desde que foram apreendidos.

O livro é lançado em uma fase delicada nas relações das Farc com o governo da Venezuela. Chávez reconheceu no mês passado pela primeira vez que alguns de seus aliados políticos colaboraram com os rebeldes colombianos, mas insistiu em que "isso aconteceu por trás das nossas costas".

O livro contradiz essa afirmação, apontando para uma longa história de colaboração entre Chávez e seus principais confidentes. O governo da Venezuela via as Farc como "um aliado que manteria a força militar dos Estados Unidos e da Colômbia na região amarrada em ações de contrainsurgência, ajudando a reduzir possíveis ameaças contra a Venezuela", indica o relatório.

Os arquivos descrevem uma reunião secreta na Venezuela em setembro de 2000, entre Chávez e Reyes, o comandante das Farc cujos computadores, discos rígidos e pen drives serviram de fonte dos arquivos. Na reunião, Chávez concordou em emprestar dinheiro para as Farc comprar armas. Um porta-voz de Chávez não respondeu aos pedidos de comentário.

O governo da Venezuela alegou que os arquivos de Reyes foram fabricados. Em 2008, a Interpol descartou a possibilidade de que os arquivos, que incluem documentos que remontam ao início dos anos 1980, tenham sido adulterados.

Além disso, os dados do arquivo permitiram a recuperação de depósitos de urânio na Colômbia e dólares americanos na Costa Rica, e tem sido a base das ações de governos, incluindo Canadá, Espanha e Estados Unidos. Tais usos constituem "um reconhecimento do fato" de que o arquivo é autêntico, disse o instituto.

"Não começamos o dossiê com as palavras ‘Eu acuso’", disse Nigel Inkster, um dos responsáveis pelo documento. "Em vez disso tentamos produzir uma análise sóbria das Farc desde os anos 1990, quando a Venezuela se tornou um elemento central na sua estratégia de sobrevivência."

Recentemente, a Venezuela parece ter esfriado em relação às Farc, em conformidade com o padrão de altos e baixos entre Chávez e os rebeldes descrito no relatório. Em abril, seu governo tomou uma medida incomum ao prender Joaquim Pereira, suspeito de ser um agente sênior das Farc que viveu na Suécia, e deportá-lo para a Colômbia.

Essa medida aconteceu em meio a uma reaproximação entre Chávez e o presidente colombiano Juan Manuel Santos como a resposta de Chávez às acusações da Colômbia de que as Farc estavam operando em solo venezuelano .

Os arquivos, que revelam surtos de tensão e mesmo ódio entre as Farc e emissários de Chávez, mostram que o líder venezuelano tomou o partido do governo colombiano em outras ocasiões, especialmente quando obteria ganhos políticos.

Em novembro de 2002, o livro relata, antes de uma reunião entre Álvaro Uribe, o então presidente da Colômbia, e Chávez, as Farc pediram ao Exército venezuelano permissão para transportar guerrilheiros de trem através do território venezuelano.

O Exército venezuelano concedeu permissão e, em seguida, emboscou o comboio prendendo oito agentes das Farc e entregando-os à Colômbia, dando a Chávez a oportunidade de informar Uribe pessoalmente. Essas traições, bem como promessas não cumpridas de grandes somas de dinheiro , causaram uma tensão considerável entre os rebeldes e Chávez.

Um membro do secretariado das Farc, Victor Suárez Rojas, que usava o nome de guerra 'Mono Jojoy', chegou a chamar Chávez de "presidente enganoso e divisionista que não tem vontade de organizar-se política e militarmente".

Ainda assim, os períodos de tensão tendiam a ser uma exceção em um relacionamento que deu ao grupo rebelde um amplo espaço de ação nos dois lados das fronteiras.

Em algumas das descrições mais reveladoras das atividades das Farc na Venezuela, o relatório explica como a principal agência de inteligência da Venezuela, anteriormente conhecida pela sigla Disip e que agora se chama Bolivariana Serviço de Inteligência, procurou mobilizar as Farc no treinamento das forças de segurança do Estado e na realização de ataques terroristas, incluindo bombardeios, em Caracas, em 2002 e 2003.

Um encontro descrito no documento mostra que Chávez quase certamente desconhecia a decisão da Disip de envolver as Farc em terrorismo de Estado, mas que oficiais da inteligência venezuelana realizaram tais contatos com uma grande autonomia.

A partir de análises dos arquivos das Farc, o informe também descreve como o grupo treinou várias organizações pró-Chávez na Venezuela, incluindo a Força Bolivariana de Libertação, ou FBL, um obscuro grupo paramilitar que opera ao longo da fronteira com a Colômbia.

As comunicações das Farc também reveleram discussões sobre o fornecimento de treinamento em métodos de terrorismo urbano para os representantes do Partido Comunista da Venezuela e várias células radical do 23 de Enero, um bairro pobre de Caracas que há muito tem sido uma colmeia de atividades pró-Chávez. O livro também cita os pedidos feitos pelo governo Chávez aos guerrilheiros para assassinar pelo menos dois de seus adversários.

As Farc discutiram um pedido dessa natureza em 2006 feito por um conselheiro de segurança local em nome de Ali Rodriguez Araque, um oficial de alto escalão da Venezuela. De acordo com os arquivos, o conselheiro Julio Chirino pediu às Farc que matassem Henry Lopez Sisco, que liderou a Disip na época do massacre de 1986 de membros desarmados de um grupo subversivo.

"Eles pedem que, se possível, atiremos na cabeça desse cara", disse Reyes, o ex-comandante das Farc. O relatório diz que não havia nenhuma evidência de que as Farc atuaram sobre o pedido antes de Lopez Sisco deixar a Venezuela em novembro de 2006.

Menos ainda se sabe sobre um outro pedido de assassinato citado no documento, inclusive quem era o alvo ou se a ação ocorreu. Mas o documento deixa claro que os rebeldes colombianos muitas vezes acharam seus anfitriões venezuelanos sem escrúpulos e enganadores.

Em um exemplo, 'Mono Jojoy', que foi morto em um bombardeio no ano passado , usou palavras duras para falar de Ramón Rodríguez Chacín, um oficial venezuelano naval que servia de ligação entre Chávez e as Farc, chamando-o de "o pior tipo de bandido”.

*Por Simon Romero

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