Venda de vinho ilegal cresce em enclaves chineses nos EUA

Autoridades investigam produção de vinho de arroz caseiro, que é feito por imigrantes recém-chegados e tem entre 10% e 18% de álcool

The New York Times |

O restaurante parece com muitos outros no coração do agitado bairro Chinatown de Manhattan: uma placa berrante em chinês e inglês, fotos de pratos apresentadas nas janelas e famílias chinesas aglomeradas em torno das mesas, saboreando peixe, tofu frito e agrião refogado.

Mas faça a pergunta certa a uma garçonete e ela desaparece nos fundos da casa, retornando com copos de shot e algo que não está no menu: um recipiente de plástico suspeito sem marcas e contendo um líquido avermelhado.

É vinho de arroz caseiro. "O melhor de Chinatown", afirma o proprietário do restaurante. Mas ilegal.

Nos enclaves chineses da cidade, há um mercado em expansão para esse vinho de arroz caseiro, que representa um dos focos mais curioso de contrabando de bebidas na cidade desde a Lei Seca. O crescimento reflete uma mudança gritante no padrão da imigração proveniente da China.

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Bairro de Chinatown, na cidade de Nova York (foto de arquivo)
Nos últimos anos, conforme a imigração da província costeira de Fujian aumentava, a população local passou a dominar o Chinatown da Baixa Manhattan e partes do Brooklyn e Queens.

Esses recém-chegados trouxeram consigo uma robusta tradição de fazer – e vender – o vinho de arroz caseiro. Nesses bairros, bem debaixo do nariz das autoridades, os donos de restaurantes fazem vinho de arroz em suas cozinhas e o vendem com orgulho aos clientes. Vendedores oferecem o produto abertamente nas esquinas e recipientes são empilhados à vista em refrigeradores nas mercearias, ao lado de outras iguarias chinesas, como águas-vivas e ovos de pato.

A venda do vinho de arroz caseiro – que normalmente tem entre 10% e 18% de álcool, quase o mesmo que o vinho de uvas – viola uma série de leis locais, estaduais e federais que regem a produção comercial e a venda de álcool, mas as autoridades aparentemente não reprimem a prática.

Um porta-voz da Autoridade de Bebidas do Estado de Nova York disse que a agência recebeu recentemente algumas queixas sobre o vinho de arroz ilegal chinês e que está investigando, embora não tenha fornecido mais detalhes. Autoridades da polícia de Nova York disseram que o departamento nunca investigou o comércio.

Empresários

Os vendedores deste vinho são uma reminiscência de um grupo anterior de empresários imigrantes: durante a Lei Seca, os imigrantes judeus e italianos estiveram entre os mais ativos contrabandistas de Nova York.

Mas vários etnólogos e sociólogos afirmam que, atualmente, não parece haver uma bebida ilegal equivalente – feita e vendida em Nova York – entre qualquer outra população imigrante.

O vinho de arroz, que é quase sempre avermelhado, é o resultado de um processo de fermentação bastante simples envolvendo arroz glutinoso, fermento vermelho e água. Seu sabor varia de produtor para produtor e, é claro, conforme o bebedor. As melhores versões lembram o sherry ou saquê japonês. As piores lembram vinagre,.

"Não subestime esse álcool", alertou um fabricante de Chinatown, que disse se chamar Zhu. "Você vai ficar bêbado".

Na Província de Fujian, as pessoas fazem o vinho de arroz em suas casas, para beber, servir para convidados ou usá-lo na cozinha. Em Nova York, muitos imigrantes de Fujian fazem o mesmo – uma prática legal, desde que o produto não seja comercializado.

Há cerca de 317 mil imigrantes chineses em Nova York, de acordo com dados do censo, mas esse número é amplamente considerado como um subregistro. Zai Liang, professor de sociologia na Universidade de Albany, que estudou a população de fujianense em Nova York, estimou que até 40% dos chineses que imigraram para Nova York nas últimas duas décadas vieram da província de Fujian. O comércio clandestino de vinho de arroz é desconhecido até mesmo para muitos chineses de outras províncias.

Consumo

Como o vinho de arroz pode estragar após exposição excessiva ao calor, ele é amplamente considerado uma bebida de inverno, e os vendedores florescem mais durante os meses mais frios. Mas mesmo no alto verão, nunca é difícil de se encontrar um copo.

Na verdade, a população fujianense gosta de falar sobre o vinho de arroz, explicando como ele é feito, descrevendo suas delícias e exaltando suas virtudes como um elixir para tudo. "Se você beber isso, vai se manter jovem", explicou Chen Dandan, um operário aposentado da província de Fujian. "Ele ajuda na sua circulação."

"Se você beber isso, viverá até uma idade avançada", disse Lin Yong, um motorista de ônibus que vive no Queens. Ele disse que seu avô, que morreu há vários anos com 99 anos, viveu seguindo um ditado bem simples: tudo bem pular uma refeição, mas nunca pule um copo de vinho de arroz.

*Por Kirk Semple e Jeffrey E. Singer

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