Vazamentos anônimos, como no WikiLeaks, têm futuro?

Apesar de tecnologia inspirada no site de Assange ser simples, responsáveis por trás dos vazamentos enfrentam ameaças e espionagem

The New York Times |

Enquanto o governo dos Estados Unidos tenta construir um caso contra o WikiLeaks, site de publicação de documentos secretos comandado pelo hacker australiano que virou celebridade Julian Assange, toda uma nova geração de serviços como o WikiLeaks, que permitem publicações de documentos de forma anônima e segura estão surgindo em todo o mundo. Embora a tecnologia desses sites possam ser sólidas, as pessoas por trás dos vazamentos enfrentam crescentes ameaças de processo e de espionagem.

Um desses projetos lançado recentemente é a Unidade de Transparência da Al-Jazeera, que incentiva as pessoas a fazer upload de documentos, fotos e vídeos "para revelar informações governamentais e corporativas notáveis e de interesse público que poderiam passar despercebidas (...) de direitos humanos à pobreza e corrupção oficial”.

Reuters
Assange sorri ao chegar à Corte dos Magistrados de Belmarsh, em Londres, na Inglaterra (8/2/2011)
O editor-executivo do New York Times, Bill Keller, disse que seu jornal está planejando uma espécie de espaço para as pessoas dispostas a vazar informações", mas se recusou a dar mais detalhes sobre o projeto. Daniel Domscheit-Berg, um ex-funcionário do WikiLeaks, usou o Fórum Econômico Mundial do mês passado, em Davos, na Suíça, para anunciar o lançamento do seu OpenLeaks, que não se destina a servir como um repositório de documentos em si, mas a oferecer a tecnologia para que organizações não-governamentais, meios de comunicação e outras organizações criem suas próprias caixas de entrada para o vazamento de informações.

A tecnologia para a apresentação de documentos de forma anônima é difícil de implementar, mas fácil de entender. Primeiro, o site precisa ser incapaz de identificar o computador de origem do vazamento de informações. O WikiLeaks orienta seus contribuintes a usar o serviço Tor, que cria uma rota através de uma cadeia de servidores, cada um dos quais pode identificar apenas o computador anterior na cadeia. Ao fazer uma conexão passar por diversos servidores em todo o mundo, o Tor impossibilita o rastreamento do computador de origem. O WikiLeaks supostamente também não mantém registros das conexões de computadores externos, o que talvez pudesse ajudar a encontrar a origem dos documentos vazados.

Segundo, o site receptor precisa ser protegido de bisbilhoteiros que monitoram seu tráfego de entrada e saída, o que pode ajudar a identificar fontes. O WikiLeaks é atualmente hospedado pelo provedor sueco ISP Bahnhof, que criptografa todo o tráfego através de sua rede de roteamento – essencialmente oferecendo aos seus clientes uma rede privada – de modo que nem mesmo os funcionários do Bahnhof podem ver o que está sendo enviado ou recebido pelo Wikileaks.

Proteção

Tais precauções ajudam a proteger a fonte de um documento vazado, mas não protegem o receptor e editor de informações vazadas de ações legais. Jay Rosen, professor de jornalismo na Universidade de Nova York, acha que o New York Times e a Al-Jazeera terão de ser mais cautelosos do que Assange sobre o que aceitar e publicar. "Como não é organizado sob as leis de qualquer nação, o WikiLeaks é menos vulnerável às pressões jurídicas de diversos Estados", diz ele. "Mas um jornal que crie sua própria caixa de entrada utilizando o OpenLeaks está em uma posição diferente. Isso pode influenciar sua decisão de fontes e afetar quantas organizações de notícias usarão a tecnologia do OpenLeaks".

Jonathan Zittrain, professor de Direito em Harvard e cofundador do Centro Berkman para Internet e Sociedade, diz que a situação é complicada e incerta. "Nos Estados Unidos, as pessoas que vazam informações enfrentam o Ato de Espionagem", diz ele. "Sites de vazamento poderiam ser acusados de ‘cumplicidade’ embora os custos políticos de perseguir tal acusação possam ser elevados”.

Em 2005, a repórter do New York Times Judith Miller passou 12 semanas na cadeia por se recusar a identificar uma de suas fontes a um júri federal. Miller divulgou sua fonte como condição para sua libertação. A lei sueca, que teoricamente cobre o site WikiLeaks, proíbe as autoridades de exigir que os jornalistas revelem suas fontes. No entanto, o suposto contribuinte do WikiLeaks Bradley Manning tem sido mantido em confinamento solitário nos Estados Unidos há mais de seis meses, no que alguns observadores acreditam ser uma tentativa de desgastá-lo para implicar Assange no vazamento de dossiês diplomáticos e um vídeo de 2007 de um helicóptero de ataque no Iraque que matou um fotógrafo da Reuters.

Dentro do governo dos Estados Unidos, o Escritório de Gerenciamento e Orçamento enviou um memorando de 14 páginas em janeiro que detalha como as agências federais devem reprimir o ponto de vazamento em potencial, incluindo o uso de psiquiatras e sociólogos para analisar funcionários possivelmente descontentes.

"Não se pode automatizar o processo de denúncia. Ainda se trata de uma conversa humana", disse Micah Sifry, cofundador do Fórum de Democracia Pessoal, uma conferência anual que explora o impacto da tecnologia sobre política e o governo, em Nova York, e autor do novo livro WikiLeaks and The Age of Transparency (WikiLeaks e a Era da Transparência, em tradução livre). "Se Bradley Manning fez o que ele supostamente fez, então passou muito tempo tentando descobrir se poderia confiar nesse Assange", disse Sifry, citando trechos da conversa entre Manning e o hacker Adrian Lamo que foram publicados. No fim, Manning não foi realmente pego baixando ou publicando arquivos, Lamo o entregou.

Segurança

Obviamente, as medidas de segurança na internet não podem impedir que um escritório local de um site de vazamento de informações seja infiltrado. Assange disse recentemente no programa 60 Minutes que antes de sua prisão por acusações independentes no Reino Unido, ele manteve um estilo de vida nômade porque "quando se está envolvido com informações nas quais as agências de espionagem também estão interessadas... se você ficar em um local por muito tempo, é inevitável que será grampeado”. Nos Estados Unidos, entrar em casas e escritórios para instalar grampos em computadores pessoais é uma atividade de aplicação da lei quando acompanhada de um mandado judicial. Para as agências de notícias e outros possíveis receptores dos vazamentos, a infiltração é um risco real.

Uma vez que a informação é vazada, o mais importante é a classificação, compreensão, validação, elaboração e publicação das informações recebidas. O WikiLeaks diz que obteve 251.287 dossiês americanos confidenciais, mas publicou apenas 1.942 deles até hoje. O New York Times e o jornal britânico The Guardian também afirmam ter obtido o arquivo completo através de outra fonte, mas ambos pararam de reportar sobre os dossiês, dizendo que não encontraram mais histórias de interesse jornalístico.

O ex-diplomata britânico Carne Ross detalhou suas dúvidas sobre essa conclusão depois de questionar os editores de ambos os jornais em um painel de discussão recente na Universidade de Colúmbia. Por exemplo, um dos dossiês aparentemente expunha a vigilância aérea americana secreta do Líbano, que Bill Keller disse desconhecer. "Nem a imprensa nem o WikiLeaks têm a capacidade plena de analisar todos os dossiês vazados, graças ao grande volume de dossiês, mas também seu significado extremamente amplo e político", Ross escreveu depois.

*Por Paul Boutin

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