Vazamento abala trabalhadores do Golfo do México

Além dos danos ambientais e econômicos, desastre cria problemas psicológicos para pescadores sem emprego

The New York Times |

Em uma noite normal, Hong Le, um marinheiro que trabalha em um barco de pesca, estaria em alto mar usando redes e varas para pescar atum. Ao invés disso, ele não consegue dormir e vive agoniado no quarto que aluga em uma pensão pensando no dinheiro que não está enviando a sua esposa e filhos no Vietnã e no atraso de seu antigo sonho de trazê-los para os Estados Unidos, causado pelo vazamento de petróleo no Golfo do México.

A cada dia que passa, Le, 58, diz que se sente mais desesperado. "Eu só fico em casa esperando", ele disse, por meio de um intérprete.

Além dos danos ambientais e econômicos, o número de vítimas do gigantesco vazamento no Golfo do México está sendo medido em desespero, ansiedade, estresse, raiva, depressão e até mesmo pensamentos suicidas entre aqueles mais afetados, dizem os assistentes sociais.

Conscientes do aumento dos problemas psicológicos depois que o furacão Katrina atingiu a costa do Golfo em 2005, grupos comunitários estão tentando cuidar da psique coletiva de pescadores como Le ao mesmo tempo em que atendem às necessidades mais imediatas, como a ajuda financeira.

© AP
Peixes mortos e sujos de óleo encontrados em áreas atingidas pelo vazamento na Louisiana

Quando os pescadores chegam para pegar cheques de ajuda financeira de emergência na Corporação de Desenvolvimento Comunitário Rainha Mary do Vietnã, um grupo sem fins lucrativos no enclave vietnamita desta cidade, os conselheiros de crise da instituição beneficente católica Catholic Charities estão ali para verificar sinais de sofrimento emocional e oferecer ajuda.

"Você está tendo problemas para dormir?", os conselheiros perguntam através de intérpretes. "Você se sente sem energia? Você pensa que estaria melhor morto?"

A maioria dos pescadores que passa pelo centro não tem fluência no inglês ou competências além da pesca, uma vocação que já passou por muitas gerações.

"Eles estão muito perturbados", disse o vice-diretor da empresa de desenvolvimento comunitário, Tuan Nguyen. "Para muita gente, a pesca é tudo o que sabem fazer. Eles não gostam de folhetos. Eles são muito orgulhosos. Eles não sabem como vai ser amanhã."

A Catholic Charities relatou esta semana que das 9.800 pessoas das quais os conselheiros se aproximaram desde o dia 1º de maio nas paróquias de Nova Orleans, St. Bernard e Plaquemines, 1.593 foram encaminhadas para assistência por causa de sinais de depressão.

"É o medo de perder tudo", disse o representante Anh Cao, um republicano de Nova Orleans, que montou uma equipe de resposta para viajar ao longo da costa do Golfo para avaliar as necessidades dos eleitores.

Cao disse que encontrou dois pescadores na paróquia de Plaquemines que lhe disseram pensar em suicídio. Embora esses casos sejam "extremos", disse Cao, eles refletem o modo como algumas pessoas "estão se aproximando de um auge de desespero".

Os oficiais do Departamento de Saúde e Hospitais da Luisiana disseram que os membros de sua equipe aconselharam 749 pessoas na última semana de maio e primeira semana de junho, para "mitigar" os sintomas que poderiam levar a um comportamento destrutivo.

"A maioria das pessoas vive um momento de descrença", disse Tony Speier, secretário-adjunto do gabinete de saúde mental do departamento. "Há medo não apenas em relação à sobrevivência econômica, mas a todo um modo de vida".

Enquanto os oficiais do Estado têm enfatizado a resistência dos moradores da Costa do Golfo, que sofreram com o furacão Katrina e outras grandes tempestades como os furacões Gustav e Ike em 2008, os especialistas dizem que a região deve se preparar para uma tensão psicológica a longo prazo.

Pesquisadores que estudaram as consequências do vazamento do Exxon Valdez em 1989 disseram que os moradores do litoral do Alasca viram uma maior incidência de suicídios, divórcios, violência doméstica e abuso de substâncias. Até hoje, muitos ainda lidam com os efeitos dos danos ambientais, prejuízos econômicos e ações judiciais.

No Centro de Bem Estar e Saúde Mental em Chalmette, que abriu no ano passado para tratar casos de transtorno de estresse pós-traumático resultantes do furacão Katrina, a equipe tem verificado as famílias de pescadores, explorando as relações que foram forjadas quando os voluntários ajudaram a reconstruir casas depois do furacão.

Um esforço está em andamento para convidar mulheres para receberem aconselhamento e aprenderem técnicas de respiração e outras habilidades para lidar com o estresse, disse Joycelyn Heintz, a coordenadora do centro, que foi fundado pelo grupo sem fins lucrativos Projeto St. Bernard em conjunto com o Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Estado da Luisiana.

Rachel Morris, uma das esposas que concordou com o aconselhamento, disse que seu marido, Louis Lund Jr., 34 anos, é hoje a sombra do homem alegre que era antes do vazamento.

Frustração semelhante ficou evidente na semana passada no Centro Rainha Mary do Vietnã, onde 50 pessoas que estavam esperando desde as 4h pela abertura das portas por volta das 9h de repente começaram a gritar, empurrando umas as outras. A comoção foi rapidamente sufocada, mas não as expressões de cansaço e preocupação.

Um dos grupos mais atingidos pelo vazamento é o de pescadores vietnamitas, que compõem uma parte significativa dos cerca de 12.400 pescadores comerciais licenciados na Louisiana (não há uma estimativa oficial do Estado, mas os moradores acreditam que sejam até um terço).

Já tendo passado por deslocamentos - quando emigraram do Vietnã e em alguns casos, perderam suas casas depois do furacão Katrina - eles agora enfrentam uma crise de proporções épicas com uma duração incerta.

Entrevistado no quarto escassamente mobiliado que aluga por US$300 por mês em uma casa com grades nas janelas, Le disse que esta sobrevivendo de esmolas após uma vida de autosuficiência.

Ele chegou aos Estados Unidos em 1979. Há nove anos, casou-se em uma visita ao Vietnã com Phan Thiet, garantindo à esposa que um dia ela iria se juntar a ele aqui.

Le disse que costumava enviar até US$ 5 mil por ano para sua esposa e seu filho de 8 anos e filha de 6 anos de idade. Agora ele está vivendo de um pagamento inicial de US$ 1.200 da BP e qualquer ajuda que consegue obter, enquanto sua família se volta para outros familiares em busca de apoio.

Em conversas por telefone, sua esposa lhe pede para encontrar um emprego fora da indústria da pesca. Ele tentou dois restaurantes vietnamitas, mas nenhum quis contratá-lo nem mesmo para o trabalho mais básico.

"Eu não sei o que vai acontecer", ele murmurou. "Qualquer oportunidade de trabalho, eu aceito".

Por Mireya Navarro

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