Uma universidade onde desaprender vem primeiro

Instituição egípcia desafia estudantes a fazer perguntas sobre sua identidade e sobre os diferentes métodos de ensino do país

The New York Times |

Quando Rafik Gindy terminou o ensino médio, ele sabia que queria ser engenheiro. Por isso se matriculou na Universidade Americana do Cairo e se preparou para mergulhar em aulas de matemática e ciência. Mas a universidade tinha uma ideia diferente.

Gindy sabia o que queria ser, mas não sabia muito bem quem era. E era sobre isso que a universidade queria que ele pensasse a respeito, em uma aula chamada "Expedição Humana: Explorando as Grandes Perguntas".

"Achava que identidade era apenas o seu nome, sua cultura, mas agora sei que é algo realmente complexo", disse Gindy, um calouro que primeiro se surpreendeu com o desafio.

Quem sou eu? O que significa ser humano? Essas são as perguntas feitas aos jovens universitários dessa instituição de 90 anos no que o reitor, David D. Arnold, chama de "desorientação" do primeiro ano.

Durante a desorientação, os estudantes - 85% dos quais são egípcios - aprendem de formas diferentes os métodos de ensino tradicionais do país.

O Egito, como grande parte do mundo árabe, exige conformidade em muitas áreas da vida. A educação se baseia no conceito de repetição e a criatividade não é incentivada na sala de aula.Os estudantes da Universidade do Cairo dizem que memorizam e recitam, nunca analisam e teorizam.

A Universidade Americana é uma instituição particular e de elite, ainda que o corpo docente não goste do rótulo elitista. A escola é cara e geralmente dentro do alcance apenas de famílias ricas e alguns alunos bolsistas. Um estudante egípcio paga US$19,6 mil por ano, um valor alto em um país no qual metade da população vive com menos de US$ 2 por dia.

A universidade foi fundada em 1919 por um grupo de missionários presbiterianos. Ela ficava originalmente na Praça Tahrir, no centro do Cairo, um cenário bastante urbano, no qual o mosaico da vida egípcia é visto em todos os cantos. Isso fazia parte do apelo da universidade.

Mas com seu crescimento ao longo dos anos, a universidade transferiu seus 5 mil alunos para um prédio de arquitetura inspiradora, ainda que isolado no subúrbio.

A localização redefiniu a instituição no momento em que ela própria buscava se definir como uma universidade de primeiro escalão. Mas, conforme a universidade cresce, também aumenta o conflito interno: Pode ela mudar sua missão e manter o conceito liberal, preservando aulas como a das Grandes Perguntas?

Por enquanto, a liderança da universidade afirma que permanece comprometida com sua missão central, que parece servir muito bem aos alunos.

*Por MICHAEL SLACKMAN

    Leia tudo sobre: EducaçãoEgitoUniversidade

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG