Uma noiva para muitos irmãos: costume himalaio perde força

Vista como solução prática para problemas geográficos e econômicos, poliandria deixa de ser comum em regiões da Índia

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Buddhi Devi, 70, que se casou com dois irmãos, é vista em sua casa em Malang, na Índia
Buddhi Devi tinha 14 anos quando se casou. Na Índia, isso não é incomum, muitas pessoas se casam jovens.

Seu pretendente era um rapaz da sua aldeia, dois anos mais jovem - isso também não era estranho. Mas ela também devia se casar com o irmão mais novo de seu futuro marido, assim que ele tivesse idade o suficiente.

Agora, aos 70 anos e viúva ainda casada - apenas um de seus maridos está morto - Devi é um fantasma de uma outra era, uma das poucas pessoas que ainda vivem em famílias que seguem a antiga prática da poliandria.

Nas remotas aldeias deste vale himalaio, a poliandria, a prática de vários homens se casarem com uma mesma mulher, foi durante séculos uma solução prática para um conjunto de problemas geográficos, econômicos e meteorológicos.

As pessoas sobreviviam de pequenas plantações nas montanhas a uma altitude de 3.350 metros e dividir uma propriedade entre vários filhos deixaria cada um com pouca terra para alimentar uma família. Um inverno rigoroso encerra a temporada de plantio abruptamente.

"Nós costumávamos trabalhar e comer", disse Devi. "Não havia tempo para mais nada. Quando três irmãos compartilham uma mulher, todos eles voltam a uma casa. Eles compartilham tudo". A poliandria tem sido praticada há séculos na região, mas em uma única geração ela quase desapareceu.

Depois de séculos de isolamento estático, tanta coisa mudou no Vale do Lahaul na metade do século passado - as primeiras estradas e carros, depois os telefones, televisão por satélite e celulares e agora conexões de banda larga à Internet - que uma revolução social completa aconteceu. Nenhuma das cinco crianças de Devi vive em uma família poliândrica.

"Os tempos mudaram", disse Devi. "Agora ninguém mais se casa assim".

A poliandria nunca foi muito comum na Índia, mas em alguns lugares a prática persiste, especialmente entre as comunidades hindus e budistas do Himalaia, onde a Índia confina o Tibete.

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A vila de Keylong, na Índia, onde a poliandria era comum

Sukh Dayal Bhagsen, 60, é da vizinha aldeia de Tholang. Quando jovem, ele se juntou ao casamento do irmão mais velho com uma mulher chamada Prem Dasi. Isso nunca foi discutido, mas sempre se assumiu que ele iria fazer aquilo quando chegasse à idade apropriada, ele conta.

Três irmãos casaram com Dasi, com quem tiveram cinco filhos.

Mas a vida no Vale do Lahaul mudou de maneira que as pessoas nascidas na era Raj da Índia nunca imaginariam. Estradas esculpidas em montanhas íngremes trouxeram o mundo exterior mais para perto.

As crianças começaram a ir para a escola. Homens foram mais longe em busca de trabalho, ganhando salários pela primeira vez.

De repente, a necessidade de irmãos compartilharem uma mulher desapareceu.

Um dos irmãos Bhagsen mais velhos, Bhimi Ram, é uma indicação dessa mudança. Ele conseguiu um emprego como pedreiro em Kulu, uma cidade do outro lado da montanha que liga o vale ao resto da Índia. Ele comprou um pedaço de terra ali e, finalmente, decidiu sair do casamento.

Por Lydia Polgreen

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