Uma nadadora olímpica de certa idade

Próximo à piscina aquecida, no Grande Prêmio de Missouri de natação, em Colúmbia, um grupo de otimistas olímpicos se vestiram em maiôs de treinamento e toalhas, num sábado pela manhã em fevereiro. Dara Torres, que ganhou a primeira de suas nove medalhas olímpicas em 1984, um ano antes do nascimento de Michael Phelps, coloca uma touca marcada com suas iniciais e se prepara para nadar. Dara tem agora 41 anos e é mãe de uma menina de 2 anos, Tessa Grace.

The New York Times |

Entre os acompanhantes de Dara estão incluídos um treinador principal, um treinador de velocidade, um treinador de força, dois treinadores de alongamento, duas massagistas e uma babá, a um custo de no mínimo 100 mil dólares por ano.

Nos testes olímpicos, esta semana, em Omaha, espera-se que ela nade rápido o suficiente para estar na sua quinta equipe olímpica. Se conseguir, será a primeira nadadora americana a competir em cinco Olimpíadas (apesar de ter ficado de fora das de 1996 e 2004). Ela também será a mulher nadadora mais velha da história dos Jogos Olímpicos.

Em Novembro passado, na Alemanha, Dara marcou 23.82 segundos nos 50 metros nado livre, quebrando o recorde americano e fazendo dela uma entre as 5 únicas mulheres a nadar nesse evento em menos de 24 segundos.

Se você estudar a face e o pescoço de Torres, poderá ver alguns sinais fracos dos seus 40 e tantos anos. Mas salvo 13 pequenas incisões cirúrgicas nos seus joelhos, cotovelos, ombros, mãos e dedos, seu físico parece quase sem defeito. Suas proporções se parecem muito mais com o longo triângulo invertido de Phelps ¿ ombros largos, torso longo, quadris finos, braços longos ¿ do que das mais musculosas e fortes curvas dos dois maiores nomes da natação feminina americana, Natalie Coughlin e Katie Hoff.

Depois de nadar, Dara voltou ao hotel para almoçar e tirar uma soneca. Então ela se dirigiu de volta ao centro aquático no fim da tarde. Nadadores se referem aos 50 metros livres como o chapinhar e arremessar. Você mergulha, atinge a água, faz o máximo por mais ou menos vinte segundos e estende a mão para a parede. Nas preliminares, Dara riscou a piscina em 24.89 segundos, colocando-se em segundo lugar, atrás de Kara Lynn Joyce, de 22 anos. Ela ficou contente com sua atuação.

Na manhã seguinte, sobre as plataformas nas finais, Dara parecia mais alta e mais em forma do que as outras sete mulheres, que tinham entre 12 e 20 anos menos que ela. Desta vez, ela tocou a parede em 24.85 segundos, bem à frente de Natalie Coughlin e novamente atrás de Joyce.

Tendo crescido em Beverly Hills, a quinta de seis crianças e a mais velha de duas garotas, Dara começou seguindo seus irmãos nas aulas de natação na ACM local, com 7 anos de idade e mais tarde se juntou à equipe de natação de Culver City. Ela quebrou o recorde mundial nos 50 metros nado livre aos 14 anos. Durante seu ano de novata no ginásio, Dara mudou-se para Mission Viejo, na Califórnia, para treinar para a Olimpíada.

Na Olimpíada de 1984, em Los Angeles, Dara nadou sua parte no revezamento dos 4X100 metros livres em 55.92 segundos, o melhor pessoal, e a equipe ganhou a medalha de ouro. No verão de 1988, foi classificada a nº 1 do mundo nos 100 metros nado livre. Como ela mesma diz, simplesmente não conseguia juntar tudo em Seul, nas Olimpíada de 1988, e classificou-se em sétimo nos 100 metros nado livre; ela novamente ganhou medalhas apenas nos revezamentos, uma de prata e uma de bronze.

Uma vez terminada sua carreira universitária, Dara decidiu aposentar-se. Mas não muito depois ela sentiu o desejo de competir novamente e foi eleita capitã da equipe olímpica para os jogos de 1992, em Barcelona. Ela ganhou ouro em revezamento nado livre.

Depois de 1992, Dara tornou-se a primeira atleta modelo na edição de trajes de banho da revista Sports Illustrated, e se casou e divorciou de Jeff Gowen, um empresário esportivo. Na primavera de 1999, apesar de não ter estado numa piscina, exceto para refrescar-se, durante 7 anos, Dara decidiu que ela queria competir nos jogos de 2000. Em Sydney, Dara, então com 33 anos, ganhou três medalhas olímpicas individuais - bronzes nos 50 e 100 metros livres e 100 metros borboleta. Também ganhou duas medalhas de ouro nos revezamentos. Ela voltou para casa e novamente aposentou-se.

Durante os cinco anos seguintes, Dara casou-se e divorciou-se novamente. Desta vez com um cirurgião israelita chamado Itzhak Shasha. No outono de 2005, depois de anos lutando para ter um bebê, Dara finalmente engravidou de Tessa. Três meses e meio após o parto, ela concorreu no Campeonato Mundial de Másteres. Quinze minutos após amamentar Tessa no banheiro, ela nadou a primeira entrada do revezamento 50 metros livres em 25.98 segundos ¿ suficientemente rápido para qualificar-se para as provas classificatórias da Olimpíada daquela semana.

Como uma nadadora de certa idade, Dara leva mais tempo para se recuperar entre os treinos. Na faculdade ela nadava 10 treinos por semana, num total de, mais ou menos, 65 mil metros. Agora ela nada 5, num total aproximado de 25 mil metros.

As inovações de Dara para manter seu corpo no pico de sua forma enquanto avança na meia idade são quase que completamente fora da piscina. Na Flórida, depois de seu treino na água de 2 horas, ela se encontra com seu treinador de resistência, Andy O'Brien, no ginásio. No último ano e meio, O'Brien, que também é treinador de resistência do time de hockey Flórida Panthers, mudou o foco da nadadora de um treinamento pesado e estático de levantamento de peso para um treino voltado para exercícios balanceados e dinâmicos que estimulam o sistema nervoso central. "A idéia não é isolar os grupos musculares, mas fazer com que os músculos se contraiam juntos, na seqüência correta, O'Brien explica.

Treinamento com pesos, ele avisa, desenvolveu-se com o fisiculturismo, e aquela tradição pouco representativa de pesos altos é mal empregada para um velocista, pois um corpo formado de grandes músculos, que foram treinados para produzir força apenas individualmente, gasta uma energia considerável tentando mover-se. O'Brien diz que a velocidade deriva de movimentos altamente coordenados e ritmo flexível. Sob sua tutela, Dara está 55 quilos mais leve, mais forte e mais em forma do que estava em 2000. Ela faz seu treino com pesos de 60 a 90 minutos, 4 vezes por semana.

Depois de comer um bife com salada para o almoço, Dara dirige para casa para ser alongada. Quase todo mundo com quem eu falei para este artigo lutou para dizer elegantemente que os consideráveis recursos financeiros de Dara ¿ patrocínios da Toyota e Speedo; dinheiro que ela ganhou como modelo, trabalho na TV e palestras motivacionais; mais um patrocínio particular para seus gastos pessoais ¿ a estão ajudando a ganhar velocidade. Ela marca uma massagem três vezes por semana e visita, quando precisa, um quiroprático.

Essa tarde, entretanto, ela está tendo as suas duas horas de alongamento. Anne Tierney, uma das treinadoras, senta-se numa cadeira próximo à cabeça de Dara. Seu companheiro, Steve Sierra, senta-se numa cadeira ao seu lado e os dois praticam uma massagem nos ombros e pernas dela com seus pés ¿ algumas vezes ficando de pé sobre seu corpo ¿ então suas mãos não se cansariam e eles poderiam aplicar mais força. Depois de 45 minutos, eles começam a seqüência de alongamento de resistência, uma série de manobras que parece um cruzamento entre aula de yoga, uma massagem e uma apresentação do Cirque du Soleil.

O conceito por trás do alongamento de resistência é que os músculos ganham mais flexibilidade se eles são contraídos e alongados ao mesmo tempo. Num determinado momento, Dara se vira sobre seu estômago, dobrando uma perna debaixo do seu peito. Então Tierney inclina seu torso contra a perna dela levemente torta, empurrando-a em direção aos glúteos, enquanto ela trabalha para superar a força de Tierney e endireitar aquela perna.

Dara chama o alongamento de resistência de sua arma secreta. Bob Cooley, que inventou essa disciplina, a descreve em termos menos modestos. De acordo com Cooley, num período de duas semanas, em 1999, seu sistema de flexibilidade transformou Dara de alguém na equipe de revezamento na mais rápida nadadora da América. O segredo para a velocidade dela, diz Cooley, é que sua técnica não apenas faz seus músculos mais flexíveis, como também aumenta suas habilidades em encurtarem de forma mais completa, e quando os músculos encurtam mais completamente, eles produzem maior energia e velocidade.

Quando escutaram que Dara provavelmente fará parte da equipe olímpica aos 41 anos, muitas pessoas fizeram a mesma pergunta: como isso é possível? Quiropráticos dão o contra com uma pergunta diferente: por que vocês ficam tão surpresos?

Uma das primeiras razões pelas quais a atuação se deteriora na idade adulta é a mudança nas prioridades. As pessoas tendem a dedicar mais tempo aos empregos e às famílias do que aos esportes. Mesmo atletas comprometidos diminuem seus objetivos de treinamento quando alcançam sua melhor forma pessoal. Os acadêmicos se referem a essa redução na atividade física como hipocinese.

"Mas veja as pessoas que mantém os níveis de atividade," diz Joel Stager, um professor de kinesiologia na Universidade de Indiana, "é uma história diferente. Muito do que nós assumimos como envelhecimento é apenas hipocinese progressiva. Quantas pessoas com a idade de Dara mantiveram seus treinamentos de forma consistente? Eu direi que muito poucos.

Então, por quanto tempo pode a atuação de um atleta de ponta durar? Hirofumi Tanaka, diretor do Laboratório de Pesquisa de Envelhecimento e Cardiovascular da Universidade do Texas, em Austin, encontrou que ambos os corredores e nadadores de elite, e os não de elite, podiam manter seus melhores desempenhos até a idade de 35 anos, depois disso o desempenho declina de forma gradual e linear até mais ou menos a idade entre 50 e 60 para corredores, e 70 para nadadores. A partir daí a deterioração é rápida. Tanaka também descobriu que nadadores experimentavam um declínio mais modesto que os corredores, e que nadadores de velocidade, como Dara, experimentavam o menor declínio de todos. Na Universidade de Yale, Ray Fair, um corredor e economista, triturou as estatísticas sobre envelhecimento e desempenho atlético que ouço e criou o que ele chama de Modelo Justo. O modelo fornece uma tabela de coeficientes que permite ao atleta pegar seu melhor tempo pessoal e computar por quanto tempo ele ou ela deveria esperar levar para completar a mesma competição num ponto específico da vida, mais tarde (assumindo que ele ou ela tenha continuado a reinar no mesmo nível). De acordo com o Modelo Justo, uma mulher que nadou seu melhor tempo nos 50 metros nado livre, em 24.63 segundos na idade, ou antes, de 35 anos deveria esperar marcar 25.37 segundos na idade de 41. "Eu estou surpreso em o quanto as taxas de deterioração são pequenas, Fair escreveu num ensaio chamado O quão rápido os homens ficam vagarosos?, "pode ser que as sociedades tenham sido muito pessimistas sobre as perdas do envelhecimento para indivíduos que permanecem saudáveis e em forma.

Historicamente, a economia da natação também tem contribuído para a preponderância de jovens campeões. Era pouco o dinheiro de patrocínio para nadadores há até 10 anos, o que tendia a significar que quando um nadador se formava na faculdade, era tempo de arrumar um trabalho. Mas agora, Speedo e TYR, entre outras companhias no negócio da natação, tornam possível para a elite dos nadadores americanos treinar em período integral e continuar a serem competitivos bem além dos 20 e 30 anos.

As conquistas de Dara provocaram consistentes rumores de que ela devia estar sob doping. Estes foram tão persistentes que em setembro último, ela voou para Colorado Springs, no Estado do Colorado, para encontrar-se com Travis T. Tygart, presidente da Agência Anti-Doping dos Estados Unidos. Tygart ofereceu a Dara a chance de se voluntariar para um programa piloto, que testa mais amplamente o sangue e a urina para assinalar doping e, possivelmente, pegar uma porcentagem maior de atletas sujos. Ela disse sim. "Eu acho que uma atleta suja seria louca de ser voluntária para esse programa, Tygart me disse.

Mesmo Dara sabe que, se conseguir ganhar uma das duas vagas disponíveis na equipe olímpica para os 50 metros nado livre, ou uma das seis disponíveis nos 100 metros livres (o que inclui a equipe de revezamento), essa será sua última viagem para os jogos.

Ainda assim, na manhã seguinte, dobrou-se para a piscina, chiando e cedo como sempre. Agarrou suas folhas de treinamento, fixou-a ao lado da piscina e partiu para o trabalho. O humor do treino era calmo, e Dara, aquecida, seu corpo esbelto alongado entre outros 16 corpos espetaculares, era fácil esquecer que antes do ano passado ninguém acreditava que a mãe de uma criancinha, com 41 anos e saindo de uma pausa de seis anos em suas atividades, pudesse nadar tão rápido.

- Elizabeth Weil é escritora para a revista The New York Times

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