Uma invenção que vai agradar inventores

O mundo pode ser um lugar difícil para inventores independentes. Frequentemente, eles têm de enfrentar no tribunal batalhas contra grandes corporações, gastar pilhas de dinheiro com advogados e deixar para os juízes e júris determinarem o valor de sua patente, conseguida com tanto suor.

The New York Times |

NYT
Dr. Daniel Schlager em sua casa
em Tiburon, na Califórnia

Isso pode estar mudando. A polêmica em torno das patentes está começando a deixar os tribunais e entrando no mercado.

Várias companhias novas e grupos de investimento estão comprando, vendendo, licenciando, leiloando e intermediando os processos de patentes no mercado. Além disso, empreendimentos públicos e privados estão surgindo aos montes nessa área.

De acordo com especialistas e economistas, a chegada desses novos agentes com uma mentalidade mercadológica poderia desencadear um forte mercado de patentes, onde o valor é determinado não tanto por julgamentos em tribunais, mas por compradores e vendedores, talvez um dia como o eBay.

Afinal de contas, as patentes são ideias. Qualquer mecanismo de mercado que acelere o processo de decisão sobre a validade das patentes pode incentivar a corrente de ideias na economia, acelerando o passo para inovações, dizem especialistas.

O que você quer é um mercado que promova a inovação e reduza grandes custos de processos, disse Robert P. Merges, professor e diretor do Centro de Lei e Tecnologia na Universidade de Berkeley, na Califórnia. E o mercado está começando a ter esse formato.

Uma pequena empresa de invenções clássica, Zoltar Satellite Alarm Systems, está planejando apresentar amostras ao mercado em leilões no próximo mês. Merges e outros especialistas em patentes apontam para um caso intrigante que deve ser observado.

Na história da Zoltar sempre houve inovações, persistência e processos. Um dos fundadores da companhia, Dr. Daniel Schlanger, teve sua inspiração há quase duas décadas, em um helicóptero de emergência que sobrevoava o norte da Califórnia. Localizar pessoas em perigo era difícil e custava tempo e vidas. Então, ele percebeu que era necessário um tipo de dispositivo de alarme pessoal que transmitisse a localização da pessoa.

Assim, ele procurou um velho amigo de colegial, William Baringer, cientista da computação e especialista em telecomunicações. Usar uma tecnologia de posicionamento global parecia promissor, apesar de arriscado e caro naquela época. Eles surgiram com uma solução e preencheram o primeiro pedido de patente em 1994 para um dispositivo de alarme pessoal que usava a tecnologia do GPS. Um ano depois, a Zoltar foi fundada e foi feito um pedido de patente para alarmes pessoais com receptores de navegação em celulares, que lhes foi concedido em 1997.

Crescimento

Os prospectos da Zoltar alavancaram após a Comissão Federal de Comunicação em 1996 pedir que mais telefones sem fio pudessem identificar sua localização em ligações do 911 (número de emergência dos EUA) até 2001. Essa ação mostrou um grande potencial de mercado para a Zoltar.

Os dois homens desenharam e construíram protótipos, contrataram um especialista em licenciamento de patente e mostraram sua tecnologia para fabricantes de equipamentos de celulares no fim da década de 1990, com a esperança de licenciá-la. É uma indústria com grandes companhias que fazem acordos de licença entre si e mandam as pequenas passear, disse Robert Megantz, gerente-geral de licenciamento da Dolby e consultor que trabalhou com a Zoltar em 1990.

De acordo com os fundadores da Zoltar, no fim das contas, suas ideias e designs se tornaram produtos de grandes empresas. Eles arrecadavam dinheiro, na maioria das vezes de amigos e da família, contratavam advogados e iam a julgamento.

Em 2001, a Zoltar processou a Qualcomm, fabricante de chip para celulares. Após três anos, o júri considerou a patente da Zolar válida, mas a Qualcomm não a infringia. E, em 2006, as duas partes fizeram um acordo.

Em 2005, a Zoltar processou diversos fabricantes de monofone, incluindo a Motorola, a LG e a Samsung, e conseguiram uma determinação com todos eles em 2007.

Mudanças

Até o momento, a Zoltar gastou milhões em tarifas legais e coletou milhões em resoluções no tribunal. A companhia está financeiramente à frente, disse Schlager, mas alguns de seus 60 inventores não receberam em troca. Baringer ainda é um engenheiro consultor e Schlager um físico de emergência médica, apesar de não praticar por completo.

Atualmente, os fabricantes de smartphones com crescimento acelerado, como a Research in Motion, Apple, HTC e Nokia, não têm acordos com a Zoltar. Schlager disse que não pretende processá-los. Ao invés disso, a Zoltar irá vender suas patentes em um leilão, na esperança de obter resultados de forma mais rápida, simples e menos arriscada.

Percebemos que esse seria o caminho a seguir, disse Schlager. É uma opção que não estava disponível há poucos anos.

O leilão será conduzido pela Pluritas, uma corretora de patentes com base em São Francisco. Robert Aronoff, diretor de administração, disse que a Zoltar tem patentes fortes, que já passaram por provas em tribunais e se aplicam a uma grande indústria, em uma época em que há um campo ativo e crescente para a propriedade intelectual. Eles estão entrando em um mercado vasto e modificado com uma boa aposta, disse.

Obstáculos

Mas não está tão claro se essa aposta mostrará bons resultados. Com certeza, elas se tornaram inovadoras com os anos, mas eu acho que há uma questão aqui sobre se para a indústria e a tecnologia elas já são ultrapassadas, disse Merges da Berkeley.

Baringer insiste que esse não é o caso. A cada dia, ainda vemos nossos designs e conceitos implementados em smartphones, disse ele.

Claro que em um leilão o valor das patentes será decidido pelos participantes, que podem ser fabricantes de monofones, mas também grupos que compram patentes como a Intellectual Ventures, a Rational Patent Exchange e a Allied Security Trust, organização não lucrativa.

Outros dos jogadores no mercado da patente são especializados em bancos de investimento e companhias de licenciamento, como a Acacia Technologies, Altitude Capital Partners, Intertrust, Ipotential, Ocean Tomo, Rembrandt IP Management and Thinkfire.

Novos mercados, novos participantes

Empresários de empreendimentos também estão interessados nesse campo ¿ a Kleiner Perkins Caufield & Byers, por exemplo, está apoiando a Rational Patent Exchange, companhia que compra reservas de patentes em áreas cruciais e cobra taxas para integrantes corporativos, que servem como tática defensiva para limitar os custos de processos potenciais em relação às patentes.

A visão da Rational no longo prazo, disse Randy Komisar, parceiro na Kleiner, é se tornar um mercado ou uma câmara de compensação, talvez da mesma forma que a ASCAP no mercado de direitos autorais de música, coletando taxas e distribuindo pagamentos aos artistas.

O objetivo é ser um local onde o dono da patente seja compensado de forma justa, mas que os usuários corporativos tenham acesso à tecnologia com custos mínimos nas transações, disse Komisar. Esse mercado tem potencial para inovar de forma mais eficiente e menos arriscada para ambas as partes.

Valor abstrato

Mas alguns especialistas em patentes questionam o quão longe o modelo de mercado pode se estender às patentes. Eles observam que, tipicamente, é mais complicado determinar um valor sobre elas do que sobre investimentos financeiros como ações ou hipotecas.

Sim, você pode se direcionar para o comércio de patentes, mas estas são posses individualizadas e difíceis de determinar um valor, disse Josh Lerner, um economista da faculdade de administração de Harvard. Elas se aproximam mais de trabalhos de arte do que de ações.


Por STEVE LOHR


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