Um 'tour' pelas casas dos lordes das drogas no México

Residências de suspeitos de envolvimento com o narcotráfico mostram o lado 'pessoal' da cultura do crime no país

The New York Times |

Existem poucos segredos no mercado imobiliário dos Estados Unidos. Uma grande quantidade de sites tem exposto para o público a maioria dos bairros, com apresentações em slides de fotos, passeios virtuais pelas ruas e até mesmo o histórico de preços, enquanto celebridades regularmente abrem as portas de suas casas para câmeras de televisão e fotógrafos de revistas.

No México, no entanto, apenas propriedades de férias recebem este tipo de tratamento. As casas onde os mexicanos de alta renda vivem são normalmente cercadas por muros ou portões que permitem que os moradores tenham privacidade. E nenhuma outra propriedade é mais protegida e escondida do que as casas que pertencem aos chefes do tráfico de drogas do país.

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A sala da casa de Jose Jorge Balderas Garza, o "J.J.", um dos lordes das drogas no México, segundo a polícia (28/11/2011)

Nas novelas e nos filmes mexicanos, as casas dos ricos chegam a ser infames de tão luxuosas, com banheiros construídos em ouro, montanhas de cocaína e dinheiro expostas em qualquer local da casa e móveis que poderiam servir para reis ou rainhas. Na imaginação do público, o que é chamado de "narquitetura" ou "estilo narco" está relacionado aos excessos - parte "Real Housewives", parte "Scarface", parte conquistadores.

Mas pouco disso é verdade. Como correspondente do New York Times no México, muitas vezes passo meu tempo tentando entender mundos desconhecidos como o da imigração ilegal e do tráfico de drogas, e quanto mais tento descobrir como funcionam as redes criminosas do país, mais me pergunto à respeito das pessoas que fazem parte delas: onde elas vivem? Como é o seu dia-a-dia?

Não é necessariamente o tipo de história que você pode escrever apenas batendo de porta em porta, embora eu tenha feito isso em alguns casos, como por exemplo na cidade de Tijuana e em Ciudad Juárez, quando pude encontrar os endereços de indivíduos envolvidos com o tráfico de drogas que haviam sido presos. Também solicitei ajuda dos oficiais da agência do leilão federal do México para ter acesso às casas apreendidas nos arredores da Cidade do México, a maioria recentemente ocupada por pessoas com laços conhecidos ou suspeitos de envolvimento no crime organizado (e no México isso normalmente significa estar envolvido com drogas).

Normalmente, como as autoridades se apropriaram dessas casas algumas horas depois de os moradores partirem - mesmo que uma grande parte da minha exploração tenha ocorrido meses ou mesmo anos depois -, muitas vezes senti como se estivesse bisbilhotando na versão mexicana de Pompéia: sob espessas camadas de poeira havia a sensação de que eu conseguia observar e entender o dia-a-dia das pessoas que moraram ali.

Ao todo, as casas que visitei eram uma mistura de estereótipo e dissonância. O design e os itens deixados para trás representavam o ridículo e o banal, com detalhes que poderiam ser vistos como confusos ou trágicos. Havia sinais óbvios de jovens que pareciam estar querendo fazer muito e gastar muito rapidamente, mas também havia sinais de uma vida em família, do perigo, do tédio e de um desejo evidente de aparentar sofisticação.

Em um país tão transparente quanto um manto preto, as casas dos traficantes não refletem nada mais do que a realidade - uma rara janela para o mundo ilícito e pessoal da cultura criminosa do México.

Dos camponeses aos pashas

As drogas, como o petróleo, podem gerar muito dinheiro de maneira muito rápida. E em várias cidades mexicanas existem casas com enormes cúpulas com um certo toque árabe. A mansão que fica no deserto Amado Carrillo Fuentes - um traficante famoso por transportar cocaína em aviões comerciais e por morrer de complicações em uma cirurgia plástica em 1997 - foi até chamada de Palácio das Mil e Uma Noites, apelido inspirado nos contos do Oriente Médio que incluem a história de Aladdin.

Hoje em dia, em cidades como Ciudad Juárez, estas cúpulas estão presentes sempre que propriedades de alto luxo são construídas ou vendidas, principalmente em shoppings de luxo e empreendimentos habitacionais.

Embora a arquitetura islâmica muitas vezes signifique riqueza no México, alguns acadêmicos que estudam a cultura do crime dizem que a cúpula em si tornou-se uma referência visual para o apelo duradouro do tráfico de drogas: uma vida com possibilidade de ascensão social. Para muitas pessoas, o crime representa um sistema de meritocracia em um país onde predomina a oligarquia e a pobreza. Trabalhe duro, faça o que for necessário, e um chefe do crime irá recompensá-lo com dinheiro, carros e mais responsabilidades.

"Eles encontram no narcotráfico o que normalmente não conseguem encontrar em nenhum outro lugar“, disse José Manuel Valenzuela, professor de sociologia no Colégio da Fronteira Norte, um instituto de pesquisa em Tijuana. "Não se trata apenas do dinheiro, mas também de se ter mais poder."

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A mansão de Zhenli Ye Gon, empresário preso em 2007, na Cidade do México (28/11/11)

Mostrando que o poder fazia mais sentido nos primeiros anos da explosão do tráfico de drogas, nos anos 1970 e 1980, ou até mesmo nos 1990, era comum construir casas de alto padrão para impressionar novos recrutas e até mesmo a concorrência. Mas com o tempo, conforme os conflitos entre os cartéis aumentavam e com o governo do México e dos Estados Unidos tentando cada vez mais reprimir o tráfico, os barões da droga têm procurado manter um perfil mais discreto, comprando casas que já estão disponíveis no mercado ao invés de construir novas mansões.

Na verdade, a maioria das casas que visitei não se parece nem um pouco com palácios. Muitas tinham uma construção padrão e pareciam apenas servir uma necessidade básica de moradia, incluindo uma casa de concreto bege em Juárez conhecida como a Casa da Morte, porque 12 corpos foram encontrados lá em 2004.

Até mesmo na extremidade mais luxuosa do espectro, a maioria das casas poderia ser descrita como de classe média alta. Localizadas em bons bairros, elas são casas geralmente de três a cinco quartos, de cerca de 280 metros quadrados, sem muita beleza externa ou enfeites. A maior dica sobre quem poderiam ser os moradores era a falta de janelas com vista para a rua da frente, além dos melhores sistemas de segurança que o dinheiro pode comprar.

Mistura com poucos acertos

Imagine entrar em uma loja de artigos para casa e ter 60 segundos para escolher os móveis de 15 quartos. A maioria de nós iria enlouquecer e não saberia o que fazer. Mas as casas de alguns traficantes sugerem que eles fizeram essas decisões rapidamente. Como se tivessem falado: "Me dê um de cada.”

Na casa mais extravagante que vi na Cidade do México, que já foi habitada por um importador de produtos farmacêuticos acusado de conspirar contra o cartel de Sinaloa, mesas em estilo barroco se encontravam ao lado de sofás minimalistas de couro, tapetes orientais e uma imitação do quadro "Guernica", de Pablo Picasso.

Em uma casa mais modesta, dentro de um campo de golfe, onde grande parte dos móveis tinha sido leiloada, sobre a única mesa que havia sobrado havia uma miscelânea de eletrodomésticos e utensílios de cozinha completamente diferentes uns dos outros, tudo isso sendo observado por um anjo de cerâmica pendurado acima da mesa.

Valenzuela explicou esses interiores caóticos. Um dos grandes mitos do mundo do tráfico de drogas, disse, é que a riqueza vem facilmente. "Mas não é fácil, você tem que arriscar sua vida", disse ele. "Tudo acontece muito rápido."

E é assim que estes traficantes gastam seu dinheiro: descontroladamente, como se tivessem um prazo para gastar tudo que têm graças a sua profissão perigosa.

O escritório

Muitos dos traficantes de drogas ao redor do mundo trabalham de casa e por isso suas elas tendem a exibir uma mistura de negócios e da vida cotidiana. Isto foi especialmente verdade na casa de dois andares de José Jorge Balderas Garza, também conhecido como J.J., o vice confesso de Edgar Valdez Villarreal, chamado La Barbie, um ex-astro do futebol americano do Texas que se tornou o chefão do narcotráfico de Acapulco.

A casa, que fica na região das colinas do norte e é considerada uma das mais caras da Cidade do México, tem quartos no piso superior perto da porta de entrada. No piso de baixo fica a cozinha e uma sala de jantar que tinha sido convertida em uma academia com espelhos, que dá para uma sala de estar dominada por uma grande mesa de madeira posicionada no canto. "Olha só isso", disse meu guia turístico do governo.

A visita aconteceu cerca de um ano depois de a polícia ter prendido Balderas e a mesa ainda estava coberta com a evidência do trabalho de J.J.: saquinhos plásticos e elásticos, pentes de munição vazios para pistolas Glock. Dentro das gavetas havia várias caixas de remédios e líquidos, incluindo um medicamento hormonal normalmente utilizado para aumentar a massa muscular.

Perto dali, em cima de outra mesa, havia dois bicos de mamadeira, uma visão incongruente, uma vez que o andar de baixo parecia ser decorado como um apartamento de solteiro, com luz negra, cortinas de veludo vermelho, móveis com estofados de zebra, um bar e até uma bola espelhada de discoteca.

Balderas e sua comitiva pareciam ter deixado o local com pressa. No meio da sala, copos de uísque estavam caídos sobre uma outra mesa, junto com garrafas e latas vazias.

Mas também havia sinais do que antropólogos como Howard Campbell da Universidade do Texas, em El Paso, chamam de evolução geracional. Jovens traficantes como Balderas tendem a apresentar um gosto mais cosmopolita do que seus antecessores.

"Eles são orgulhosos e vaidosos", disse Campbell – como indicava uma mochila da marca Montblanc perto do bar no térreo e o menu que estava sobre a geladeira, anunciado pratos de um restaurante chamado Shu, especializado em sushi e descrito por seus clientes como "descolado" e "caro demais".

Notei o mesmo menu no balcão da cozinha de um apartamento de alto padrão que visitei nas proximidades. Aparentemente, alguns traficantes preferem pedir comida no conforto de suas casas

Mimando as crianças

Na Cidade do México, em uma casa cor-de-rosa gigante de três andares, com uma piscina coberta, havia três escovas de dente infantis em um dos banheiros. Presumivelmente todas pertenciam ao filho de Gon Zhenli Ye, um homem de negócios chinês-mexicano detido em 2007 por importar substâncias proibidas, muitas vezes utilizadas para produzir anfetaminas. Ele alegou inocência, embora as autoridades tenham encontrado armas e mais de US$ 200 milhões escondidos na sua casa.

Para mim, essas escovas de dente foram o mais assustador - o tipo de detalhe marcante, pois revelava algo que vi em tantas outras dessas casas: uma combinação de uma vida não apenas de excesso e risco, mas também de convívio familiar.

No quarto principal, a foto do menino na escola e um desenho que ele fez de montanhas com algumas mensagens de amor para seus pais ("te amo mamãe, te amo papai") tinham sido varridos para um canto em uma pilha na qual também se encontrava um estojo Faberge de veludo, um DVD de um filme intitulado "O Corruptor" e uma seringa. Um policial que fazia a segurança da casa apontou para a caixa vazia de uma pistola Beretta.

“Como é que os pais conseguem expor seus filhos a tais perigos?”, eu me perguntava. Eu me lembrei do caso de Eduardo Arellano Félix, que estava em casa com sua filha de 11 anos de idade durante o tiroteio que levou à sua prisão. O que será que passava por sua cabeça? Será que ele pensava que nunca seria preso ou morto?

Valenzuela, o sociólogo, disse que era exatamente o oposto. As crianças são uma parte importante da vida do narcotráfico, disse ele, porque os pais querem que seu legado tenha continuidade. Eles também querem que as pessoas que amam e confiam desfrutem do que eles batalharam para conseguir ter.

"Os traficantes são muito mais complicados do que as pessoas pensam", disse Valenzuela. "Eles não são monstros ou alienígenas de outro planeta. Eles têm uma grande parte dos mesmos valores sociais que todo mundo tem."

Talvez. Mas o mundo da droga no México se tornou muito mais cruel na última década. Antigamente, gastos excessivos e excêntricos aconteciam, como a piscina em forma de guitarra construída por um traficante de Juárez na década de 1980 e o castelo do tamanho de uma casa que ele mandou construir para as bonecas de suas filhas.

Mas este tipo de brincadeira tem gradativamente cedido espaço à violência, com mais de 47 mil pessoas mortas nos últimos cinco anos. Aquela casa com a piscina em forma de guitarra e a casa de bonecas são, agora, um centro de terapia física sem fins lucrativos, destinados a crianças com deficiência – muitas delas tratadas por ferimentos de tiros.

Por Damien Cave

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