Um médico para a doença, um xamã para a alma

MERCED, Califórnia - O paciente do quarto 328 tem diabetes e hipertensão. Mas quando o xamã da tribo Hmong, Va Meng Lee, deu início ao processo curativo envolvendo seus pulsos com um laço, a principal preocupação era recuperar a alma fugitiva do doente.

The New York Times |

"Médicos são bons para a doença", disse Lee ao envolver o paciente, Chang Teng Thao, um viúvo de Laos, em uma "cobertura protetora" invisível criada no ar com a ponta de seu dedo. "A alma é responsabilidade do xamã".


Xamã em trajes típicos atende em hospital da Califórnia / NYT

No Centro Médico Mercy, em Merced, onde cerca de quatro pacientes por dia são Hmongs do norte de Laos, curar significa mais do que seringas e monitores. Uma vez que muitos Hmong confiam em suas convicções espirituais para curar doenças, o hospital adotou uma nova política única no país em relação aos xamãs Hmong, reconhecendo formalmente o papel cultural de curandeiros tradicionais como Lee e os convidando a realizar nove cerimônias aprovadas dentro do hospital, inclusive o "chamado da alma" - desde que cantado a uma altura que não pode exceder três decibéis.

A política e um novo programa de treinamento para apresentar os xamã aos princípios da medicina Ocidental fazem parte de um movimento nacional para a consideração de convicções culturais e valores dos pacientes no momento de seu tratamento médico.

A postura está sendo adotada por dezenas de instituições médicas e clínicas de todo o país que atendem imigrantes, refugiados e populações étnico-minoritárias.

Xamãs certificados, com suas jaquetas bordadas e crachás de funcionário, têm o mesmo acesso irrestrito aos pacientes dado a padres e outros membros do clérigo tradicional.

Os xamãs não recebem pela assistencia médica do paciente ou qualquer outra forma de pagamento, embora sejam conhecidos por aceitar galinhas vivas.

O programa de xamãs do hospital Mercy foi projetado para fortalecer a confiança entre os médicos e a comunidade Hmong - uma espécie de cura no sentido mais amplo da palavra. Ele tenta reparar anos de mal entendimento entre o estabelecimento médico e os Hmongs, cuja vida nas montanhas do Laos foi irremediavelmente alteradas devido à guerra no Vietnã.

Soldados Hmong, entre os quais estava Lee, foram recrutados pela CIA nos anos 1960 para combater a guerra contra insurgentes comunistas no seu país e, posteriormente, para evitar retaliações, foram forçados a fugir para campos de refugiados localizados na sua maioria na região do Vale Central da Califórnia.

Durante um treinamento de sete semanas no Centro Médico Mercy, 89 xamãs aprenderam elementos da medicina ocidental, incluindo teorias sobre germes. Eles visitaram salas de operação e olharam através de microscópios pela primeira vez. Ao olhar células de um coração, uma idosa xamã pediu ao patologista que lhe mostrasse um "coração feliz".

Projetado para acabar com o medo da medicina Ocidental, o programa "criou confiança de ambos os lados", disse Dr. John Paik-Tesch, diretor do Programa de Residência de Medicina Familiar, que treina médicos residentes no Centro Médico Mercy.

Desde que os refugiados começaram a chegar há 30 anos, profissionais de saúde como Marilyn Mochel, uma enfermeira registrada que ajudou a criar as políticas do hospital a respeito dos xamãs, têm buscado formas para melhor lidar com as necessidade de saúde dos imigrantes que acreditam que cirurgia, anestesia, transfusões de sangue e outros procedimentos comuns são tabu.

O resultado é uma alta incidência de apêndices rompidos, complicações de diabetes e câncer descoberto apenas na fase final, com temores de que a intervenção médica e atrasos no tratamento sejam exacerbados por "nossa inabilidade de explicar aos pacientes como os médicos tomam as decisões e fazem suas recomendações", disse Mochel.

Os Hmong acreditam que almas, como crianças errantes, são capazes de vagar para fora do corpo ou de ser capturadas por espíritos malévolos, causando doenças. A cerimônia de Lee para o homem diabético era uma espécie de inoculação espiritual, que visava proteger sua alma de ser sequestrada pela de sua mulher morta, ampliando assim seu "visto para a vida".

- Patricia Leigh Brown

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