Um ex-colaborador dos EUA volta para o Irã, mas para quê?

O destino de espiões desertores pode ser ruim. Agora o Irã tem um cientista que partiu e voltou. E tem algumas perguntas para ele

The New York Times |

AFP
Shahram Amiri foi recebido por familiares e autoridades em 15 de julho de 2010 no aeroporto de Teerã, capital do Irã
Quando o cientista iraniano Shahram Amiri surpreendeu a CIA na semana passada ao desertar de volta para Teerã, ele apostou sua vida. Será que ele acabará como Vitaly Yurchenko, o antigo oficial da KGB que desertou para Washington exatamente há 25 anos, revelou alguns dos segredos mais profundos de um império em colapso e, em seguida, fugiu de seus contatos da CIA em um restaurante francês de Georgetown e acabou de volta a Moscou?

O episódio no restaurante francês aconteceu há muito tempo, mas, em uma dessas esquisitices de histórias de espião versus espião, ele estava a apenas sete quadras do prédio de escritórios no qual Amiri se refugiou na noite de 12 de julho, na seção de interesses iranianos da embaixada paquistanesa.

Mas, curiosamente, Yurchenko ainda está por aí. E, enquanto seu interrogatório pelas forças de inteligência iraniana teve início em 16 de julho, Amiri podia apenas desejar o mesmo destino. Como há um final alternativo para tais dramas, Amiri, sem dúvida, não quer pensar a respeito.

É o caso de Hussein Kamel, o genro de Saddam Hussein. Kamel escapou do Iraque para a Jordânia em 1995 e deu ao Ocidente um vislumbre sobre os projetos, então ativos, de pesquisas químicas, armas biológicas e outras estabelecidos por Saddam, algo parecido com o que autoridades americanas dizem ter conseguido por meio de Amiri a respeito do programa nuclear do Irã. Kamel também voltou para casa, após receber a promessa dos tenentes de seu sogro de que tudo foi perdoado. Ele foi morto poucos dias depois.

De longe, parece que os iranianos ainda estão incertos sobre qual é o melhor modelo para se aplicar ao bizarro caso de Shahram Amiri.

Vista de uma maneira, a decisão de Amiri de voltar ao país é um enorme golpe de propaganda para os iranianos. Durante meses, eles têm insistido que Amiri foi sequestrado na Arábia Saudita em junho de 2009 pela CIA e pelos serviços de inteligência da Arábia Saudita, em seguida, ele teria sido drogado e torturado para inventar histórias sobre o programa secreto nuclear do Irã. "Passei pela pior das torturas físicas e mentais", disse Amiri quando desembarcou em Teerã, algo que os oficiais americanos rejeitam como uma "fantasia" criada para poupar sua vida.

Visto de outra forma, o caso Amiri deve ser profundamente inquietante para os iranianos. Se você acredita apenas em uma parte da versão americana dos acontecimentos - a parte que alega que o especialista em segurança radiológica de 32 anos forneceu informações para a CIA por alguns anos, em seguida desertou voluntariamente e repercutiu ainda mais segredos - então, os líderes iranianos devem questionar quanto de seu programa foi comprometido e até que ponto.

Tudo isso deve tornar ainda mais difícil decidir a forma como lidar com o retorno de Amiri. "Primeiro temos de ver o que aconteceu nesses dois anos e, em seguida, vamos determinar se ele é um herói ou não", disse Manouchehr Mottaki, ministro das Relações Exteriores do Irã.

Como Ray Takeyh, estudioso no Conselho de Relações Exteriores, observa, não há precedente real no Irã para lidar com o retorno de desertores nucleares. "Acho que eles têm uma abordagem soviética - vão querer fazer uso da propaganda que ele representa", disse Takeyh. "Minha impressão é que ele vai permanecer ali por mais um ano e pouco." Mas então, disse, "não acho que isso vai acabar bem para ele. Eles têm de mostrar a outros possíveis desertores que existe um custo a ser pago."

Deste lado do Atlântico, entretanto, o mistério nesse caso bizarro é o motivo pelo qual, depois que Amiri rejeitou os pedidos de autoridades americanas para ficar nos EUA como protegido da CIA por US$ 5 milhões, as autoridades americanas se mostraram repentinamente dispostas a falar sobre o seu papel.

Afinal, durante um ano autoridades americanas e europeias responderam qualquer pergunta sobre o caso com olhares vagos e de maneira uniforme. Alguns se permitiram confirmar que ele tinha oferecido vislumbres sobre como o Irã tinha escondido vários projetos de pesquisa e sua infraestrutura, algumas baseadas na universidade na qual ele trabalhava.

Agora parece que ele ofereceu certo discernimento do mundo secreto criado por Mohsen Fakhrizadeh, um cientista que é quase uma obsessão na CIA. Fakhrizadeh, que é citado em uma resolução de sanções da ONU contra o Irã, liderou o que outrora foi conhecido como Projeto 110 e Projeto 111, nomes que supostamente são códigos para os esforços do Irã em projetar armas nucleares que possam caber em mísseis.

É possível que as autoridades americanas tenham começado a falar sobre Amiri na semana passada simplesmente para defender seu tratamento do caso. "Esse é claramente um caso que acabou mal", disse uma autoridade sênior do governo em 16 de julho. "Não sei se isso aconteceu porque a agência lidou com ele de maneira incorreta ou se é porque o sujeito era um pouco instável."

Também é possível, como muitos na blogosfera têm especulado, que Amiri atuava como agente duplo, enviado pelo Irã para espalhar desinformação. Isso, no entanto, parece improvável, uma vez que as autoridades americanas insistem que a maioria das informações recebidas foi confirmada. Além disso, se suspeitassem que Amiri era agente duplo é improvável que ele teria sido autorizado a regressar ao Irã.

Agora que ele está de volta em Teerã, é claro, os iranianos devem temer que Amiri seja um agente duplo americano. Mas isso também parece improvável. Como Takeyh diz: "Quem poderia confiar nele o suficiente para deixá-lo voltar ao programa?" Basta perguntar a Yurchenko: o ex-agente da KGB foi interrogado por anos sobre o que sabia e, mais importante, sobre o que disse aos americanos.

Na melhor das hipóteses, Amiri terá de passar pelo mesmo tipo de interrogatório ao longo dos anos. Sua esperança, é claro, é que será capaz de viver o suficiente para contar a complexa história de suas misteriosas viagens a seu filho - quando ele tiver idade suficiente para compreendê-lo e, talvez, quando o mundo já tiver descoberto se o Irã estava correndo atrás de uma arma nuclear ou se desistiu de tentar.

*Por David E. Sanger

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