Um dilema para os líderes russos: suprimir ou não os protestos?

Após séculos reprimindo manifestações, governo da Rússia busca nova estratégia diante de insatisfação da classe média com eleição

The New York Times |

No início de dezembro, quando Moscou se preparava para o primeiro de uma série de grandes protestos contra o governo, alguns analistas pareciam mergulhar no poço da história russa, quando czares colidiram com as multidões em uma onda de sabres, ataques de cavalaria e massas de plebeus segurando ícones sobre suas cabeças.

Nas histórias antigas, as multidões eram uma força brutal, elementar, e não é de se admirar que os governantes russos buscassem suprimi-las. Elas são parte da memória coletiva do Kremlin e pairam sobre os protestos de hoje.

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AP
Milhares protestam contra fraudes na eleição parlamentar russa na capital, Moscou (24/12/2011)

Pedro, o Grande, aos 10 anos, recém-declarado Czar, acovardou-se com sua mãe quando houve tumultos, enquanto guardas empalavam seus parentes com lanças. O Czar Alexiscame saiu para atender peticionários e viu-se tragado, apreendido pelos botões de seu casaco.

Mas o conto mais instrutivo é, provavelmente, o do Czar Nicholas 2º, cujas tropas atiraram em 8 mil trabalhadores que foram ao Palácio de Inverno em 1905 para pedir melhores condições de trabalho.

O ataque escandalizou de tal forma aqueles que cercavam Nicholas que ele adotou as reforma solicitadas pelos manifestantes, como a criação de um Parlamento. Quando novos protestos aconteceram 12 anos mais tarde, ele decidiu tomar um rumo diferente, permitindo que mulheres e crianças realizassem um comício tranquilamente sobre a escassez de pão preto. Mas aqueles protestos se espalharam como fogo, chegando aos grevistas e aos soldados que se recusaram a atirar neles. Uma semana após o primeiro comício ser sancionado, Nicholas foi forçado a abdicar do trono.

Os premiês e secretários-gerais soviéticos que vieram depois de Nicholas decoraram essa experiência histórica: a melhor maneira de lidar com manifestações em massa, eles concluíram, é impedir que elas aconteçam. Vladimir Putin, que assumiu o poder nos anos seguintes às manifestações em massa da era da perestroika, adotou uma postura similar, embora tenha evitado o uso da violência.

Richard E. Pipes, um estudioso de longa data da história russa em Harvard, disse que Putin também aprendeu sua própria história. Quando as manifestações têm início na Rússia, disse ele, cedo ou tarde saem de controle.

"Se eu estivesse no comando, antes de tudo reformaria o governo", disse Pipes. "Se eu não quisesse fazer isso, proibiria as manifestações. Simplesmente proibiria e prenderia qualquer pessoa que não cumprisse minhas ordens".

Ecos desta teoria puderam ser ouvidos após as eleições parlamentares de 4 de dezembro, quando ficou claro que os jovens russos estavam prontos para protestar em números maiores do que em qualquer momento desde que Putin subiu ao poder em 2000. Antes de uma manifestação na Praça Bolotnaya em 10 de dezembro, oficiais adotaram uma típica frase de Alexander Pushkin: "Por favor Deus, não nos deixe ver aquela clássica revolta russa - impiedosa e sem sentido."

O romancista favorável ao Kremlin Sergei Minaev avisou os manifestantes de que, se morressem ali, até mesmo seus amigos mais próximos iriam esquecer a causa pela qual haviam perdido suas vidas. "Se eu acreditasse em Deus", escreveu o liberal político Leonid Gozman na véspera do encontro, " rezaria para que ele trouxesse razão aos generais, e, mais importante, para aqueles que lhes dão ordens."

O que ocorreu, é claro, foi algo fundamentalmente diferente.

Para quem já passou pela Rússia de Putin, o que aconteceu na Praça Bolotnaya em 10 de dezembro foi um choque quase físico. Fazia tanto tempo que os russos não saiam às ruas em grande número para pedir mudanças políticas que a multidão - estimada em 50 mil pessoas, observada calmamente pela polícia - parecia uma maravilha natural, como a aurora boreal.

As pessoas na multidão, em vez de ouvir os discursos, a maioria dos quais tinha a veemência de agitadores partidários, olhavam ao redor, umas para as outras. Elas não estavam enlouquecidas ou tampouco eram oprimidas. Elas não transpareciam medo ou agressão. A massa crítica formada por profissionais de classe média que existiu na Internet por muitos anos era um fato repentinamente físico, uns tão perto dos outros que era possível sentir o calor dos seus corpos. Parecia o nascimento de um novo organismo.

Nada de assustador aconteceu naquele dia ou em uma manifestação em 24 de dezembro, quando a multidão foi significativamente maior. Yevgeny S. Gontmakher, um economista que aconselhou o governo ao longo da agitação social, disse que os líderes russos não tinham uma fórmula para lidar com manifestantes cujas exigências não podem ser tratadas com dinheiro, já que esse tipo de protesto não existiu aqui anteriormente. O fato de ter acontecido agora "é um sinal de que a Rússia se tornou um país ocidental, à sua própria maneira".

"É a política pública", disse Gontmakher. "Já não é marginal se envolver na política pública. Acho que isso está acontecendo pela primeira vez na Rússia. Isso sugere que a Rússia tem que escolher um caminho europeu. As pessoas dizem que a Rússia não é Europa. Mas não, a Rússia é Europa".

Pode ser que estes protestos recentes tenham marcado uma mudança na relação entre o Kremlin e as multidões.

Após uma explosão inicial de hostilidade, Putin e seus oficiais começaram a falar dos manifestantes com um mínimo de respeito, talvez porque tenha ficado claro que eles representam uma fração dos negócios da capital e da elite. Na semana passada, Vladislav Y. Surkov - o oficial do Kremlin que durante 10 anos trabalhou para sufocar qualquer política de rua que pudesse se tornar uma ameaça para Putin - disse que os manifestantes na Praça Bolotnaya representam "a melhor parte da nossa sociedade, ou, mais precisamente, a mais produtiva". O amolecimento o prejudicou, porém: Surkov foi transferido para uma posição menos importante depois destes comentários.

Ainda assim, a história é forte no Kremlin, cuja fortificação de tijolos vermelhos data da Idade Média. Alguns argumentam que a estrutura básica da sociedade russa mudou pouco nesse tempo. Vladimir Sorokin, que escreveu um romance sobrepondo o Kremlin de Putin ao de Ivan, o Terrível, coloca desta forma: "Como regra geral, na Rússia as autoridades temem o povo e as pessoas temem as autoridades".

Essa tese é posta à prova pelos acontecimentos do último mês. A multidão agora faz uma pausa, como para uma respiração profunda, e Moscou entra no novo ano menos previsível do que em qualquer outro momento da história recente. Isto é muito claro: os russos caminham em direção a algo - algo tão antigo quanto o confronto, ou algo tão novo quanto o diálogo.

Por Ellen Barry

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