Um Bolívar pronto para uma luta na Venezuela

Leopoldo López, que quer disputar eleição presidencial de 2012, é descendente de Símon Bolívar, ídolo do rival Hugo Chávez

The New York Times |

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, fez de Simon Bolívar, o aristocrata do século 19 que libertou grande parte da América do Sul da Espanha, a figura central de uma ideologia de Estado "bolivariano", invocando o seu espírito, exumando seu sarcófago e chegando até a iniciar a construção de um novo mausoléu que se assemelha a um navio para seu herói.

Mas um dos mais fortes adversários que tentará vencer Chávez na eleição presidencial do ano que vem é um ativista com sangue de Bolívar em suas veias: Leopoldo López, um economista formado em Harvard e descendente da irmã do Libertador, Juana.

EFE
Opositor Leopoldo López concede entrevista coletiva em Caracas, na Venezuela (18/10)
A campanha de López tornou-se possível por uma decisão tomada em setembro pelo Tribunal Interamericano de Direitos Humanos, que disse que o governo da Venezuela deve abandonar uma desqualificação que impede Lopez de concorrer a cargos públicos.

López havia argumentado que a desqualificação representava uma discriminação política. Ela foi imposta por autoridades pró-Chávez por causa de ações judiciais movidas contra ele quando atuava como membro de um grupo sem fins lucrativos.

Certamente havia um problema, uma vez que as instituições de Chávez reagiram à decisão do Tribunal Interamericano, uma entidade judicial da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em sua própria decisão, anunciada na semana passada , o Supremo Tribunal da Venezuela defendeu a desqualificação de Lopez.

A Suprema Corte, controlada por juízes fiéis a Chávez, chamou a decisão do Tribunal Interamericano de "não executável". Mas Luisa Estella Morales, presidente do tribunal da Venezuela, também disse que López "pode livremente se inscrever e participar de eleições", incluindo a disputa do próximo ano, embora ela não tenha dito se ele poderá tomar posse caso seja eleito presidente.

López, 40 anos, já operou nas cinzentas áreas da política na Venezuela, um país onde os burocratas dirigentes caçam a oposição com ameaças legais e reguladores multam organizações de notícias independentes, algo evidenciado por uma pena de US$ 2 milhões imposta recentemente contra a rede de televisão Globovisión por informar sobre motins locais.

"O Estado procura desqualificar aqueles que procuram uma alternativa", disse López em uma entrevista. "Eles têm medo de mim porque eu posso vencer."

Desde a decisão do Tribunal Interamericano, Lopez, cujo pensamento tramita no espectro político de centro-esquerda da América Latina, tem sido atacado de novo pelo governo de Chávez.

Um artigo no site da rádio estatal o chamou de "extremista de direita” e alegou que ele "constantemente comete atrocidades contra a estabilidade da revolução bolivariana".

O artigo foi ainda mais longe, afirmando que López foi "ajudado pelo império" – a frase usada na Venezuela para implicar os Estados Unidos – e é um "manipulador de caráter".

López, um produto da americanizada elite do país, se formou na Faculdade de Kenyon, em Ohio, e fez mestrado em políticas públicas na Universidade de Harvard. Casado com Lilian Tintori, uma ex-apresentadora de televisão e campeã de kite-surf, seu passado privilegiado fica em nítido contraste com o de Chávez, um ex-oficial do Exército que saiu da pobreza para um movimento político confrontando a influência dos Estados Unidos na América Latina.

Mas López também parece ter adotado algumas estratégias de Chávez, que formou um movimento político de base na década de 1990 depois de ter supervisionado um golpe de Estado falho em 1992. López tem viajado muito pelo país, formando um movimento nacional chamado Voluntad Popular (vontade popular), que virou um partido de centro.

López, que raramente divulga os laços de sua família e a família Bolívar, ganhou destaque nacional durante seus oito anos como prefeito de Chacao, um município relativamente próspero, em Caracas. Ele foi reeleito para um segundo mandato em 2004 com 80% dos votos depois de se concentrar em reformar as escolas da cidade e seu sistema de transporte público.

Durante um golpe de Estado caótico, em 2002, que brevemente tirou Chávez do poder, López atraiu a ira dos partidários de Chávez ao tomar parte na prisão de Ramon Rodriguez Chacin, que então era ministro do Interior. Mais tarde, em 2006, homens armados mataram a tiros um dos guarda-costas de Lopez enquanto ele estava dentro do carro, um episódio que ele disse ter sido usado para passar uma mensagem assustadora de intimidação.

Essa não é a primeira vez que o governo procura desqualificar López de concorrer à presidência. Quando ele era prefeito de Chacao, as autoridades fizeram várias acusações contra ele, incluindo a alegação de que havia transferido dinheiro indevidamente, em 2003, de uma parte do orçamento do município para outro.

López disse ser "completamente inocente", alegando que isso foi feito para cumprir obrigações de salário e benefícios para os professores, que haviam sido promovidos pelo próprio Chávez. Embora os oficiais tenham desqualificado dezenas de outras pessoas de concorrer ao cargo, López apontou que nenhum tribunal venezuelano o condenou por qualquer delito.

Após da decisão do Tribunal Interamericano, uma organização guarda-chuva dos partidos da oposição da Venezuela saudou a decisão de López de concorrer a uma primária prevista para fevereiro. Em pesquisas recentes, ele tem disputado a indicação com Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda, como o candidato da oposição.

Quem ganhar a primária irá se encontrar em uma eleição diferente de qualquer outra na história recente da Venezuela. Embora Chávez tenha dominado o panorama político há mais de 12 anos e seus partidários controlem a Assembleia Nacional, o Supremo Tribunal e a companhia petrolífera nacional, a sua luta com o câncer expôs uma vulnerabilidade.

Ainda assim, não se sabe como a doença de Chávez irá influenciar a disputa. Seus índices de aprovação, na verdade, subiram desde que ele revelou a doença, e nenhum outro candidato comanda os recursos de petróleo ou o aparelho de propaganda do Estado. O presidente disse que venceu o câncer e renovou as provocações a seus adversários.

Enquanto isso, a candidatura incerta de López dependerá, em parte, de instituições controladas por partidários de Chávez. Um promotor sênior do governo disse esta semana que os oficiais iriam "oportunamente" divulgar os resultados de inquéritos criminais contra López. O grupo Human Rights Watch chamou a decisão do Supremo Tribunal de um "golpe para o Estado de Direito."

No entanto, o esforço de vários anos de López para ter seu nome removido da lista negra eleitoral do governo pode estar ganhando força. O Conselho Nacional Eleitoral, que também é controlado por partidários de Chávez, concordou na quinta-feira em permitir que López concorra ao cargo.

"Não é uma luta fácil", disse López. "Mas como Davi contra Golias, temos fé, perseverança e sabemos para onde apontar."

Por Simon Romero e Maria Eugenia Diaz

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