Um ano depois do terremoto: nascimentos, antigas feridas e intransigência governamental

MIANZHU, China - Com apenas 45 dias de existência, Sang Ruifeng já tem um propósito na vida: trazer justiça aos responsáveis pela morte de seu irmão de 11 anos.

The New York Times |

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Sang mostra foto do filho de 11 anos que morreu no terremoto; sua mulher, Liu, carrega o filho de 45 dias

Sang mostra foto do filho de 11 anos que morreu no terremoto;
sua mulher, Liu, carrega o filho de 45 dias

Ruifeng terá que garantir, afirma seu pai, que o governo chinês preste contas pelos motivos pelos quais milhares de estudantes morreram no desabamento de escolas durante o terremoto que devastou o sudeste da China há um ano. O irmão que Ruifeng não conheceu estava entre os 126 esmagados nos destroços da Escola Primária 2 em Fuxin.

"Eu não estou nem um pouco feliz", disse Sang Jun, sobre o nascimento de seu novo filho, enquanto sua mulher balançava o bebê no colo, na casa de um vizinho. "Eu disse isso para minha mulher hoje: se não conseguirmos justiça, nosso filho terá que lutar por nós. Este será o fardo desta criança".

Um ano depois do terremoto que abalou a província de Sichuan e matou cerca de 70 mil pessoas, deixando 18 mil desaparecidos, mães de toda a região estão grávidas ou tiveram outros filhos, com a ajuda do governo e equipes médicas que ofereceram conselhos sobre fertilidade e reverteram processos de esterilização.

Por causa da política da China que limita o número de filhos da maioria das famílias em um, os estudantes que morreram geralmente eram os únicos filhos de seus pais. Os oficiais dizem ter esperança que uma onda de nascimentos ajude a diminuir a raiva a respeito do desmoronamento de tantas escolas no dia 12 de maio de 2008, enquanto prédios das redondezas continuaram de pé.

Mas as feridas estão abertas, em parte por causa do governo chinês, que não aceita desafios a sua postura autoritária, que abafou os pais e impediu debates públicos sobre a construção ruim das escolas.

Conforme a atenção se volta novamente a Sichuan para a marca de um ano do terremoto, o governo intensifica sua campanha para silenciar os pais e a mídia, adotando táticas agressivas da polícia e a ameaça de prisão.

"O governo diz: 'Você teve seu segundo filho, então por que está questionando isso?'", disse Sang, ex-operário que foi preso pela polícia em janeiro quando tentou pegar um trem para Pequim para dar entrada em uma reclamação formal. "Nós dizemos ao governo: 'Isso é sua responsabilidade, sua culpa. Então por que não deveríamos questionar?'"

O governo chinês se recusou a revelar o número de estudantes mortos e seus nomes. Mas um relatório oficial logo após o terremoto estimava que até 10 mil crianças morreram no desmoronamento de mais de 7 mil salas de aula e dormitórios.

No ano passado, oficiais do governo central anunciaram que iriam realizar uma investigação sobre o desmoronamento das escola, mas nada foi divulgado. Em março, um oficial da província de Sichuan disse aos repórteres em Pequim que a força do terremoto, e não a construção ruim, levou aos desmoronamentos.

No dia 4 de abril, o Dia de Varrer Túmulos no qual os chineses honram seus mortos, grupos de pais tentaram se reunir nos locais onde antes eram as escolas. Mas policiais à paisana rapidamente impediram qualquer manifestação.

Oficiais de propaganda recentemente ordenaram que as organizações de notícias chinesas reportassem apesar histórias positivas sobre o terremoto e o governo de Sichuan explicitamente proibiu a mídia de escrever sobre os abortos de mulheres alojadas temporariamente em assentamentos locais. Alguns sobreviventes dizem temer que os abortos sejam causados pelo alto nível de formol presente nas casas pré-fabricadas.

"Tantas mulheres abortaram", disse Ren, uma mulher do acampamento de Dujiangyan que informou apenas seu sobrenome, por medo de represálias. Seu neto estava entre os mortos da Escola Primária de Xinjian. Sua nora engravidou novamente no ano passado, mas sofreu um aborto. "O quarto do Hospital do Povo de Dujiangyan estava cheio de mulheres com  o mesmo problema", disse Ren.

O governo central enviou especialistas em fertilidade à região no ano passado. O jornal oficial "Sichuan Daily" relatou, no dia 29 de fevereiro, que quase mil mulheres da região engravidaram, citando a Comissão de Planejamento Familiar de Sichuan. Oficiais de planejamento familiar de Chengdu, capital de Sichuan, recusaram pedidos de entrevista.

Uma das grávidas é Liu Li, que disse ter tido "sentimentos complicados" quando descobriu que estava grávida. "Eu fiquei nervosa e feliz, mas também me senti culpada porque foi tão rápido depois da morte de nosso primeiro filho", disse Liu, 35, ao encher de água uma bacia no acampamento Dujiangyan.

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Li e seu marido, Bi Kaiwei, posam em frente à foto da filha morta no terremoto

Li e seu marido posam em frente à foto da filha morta no terremoto

Como muitos pais cujos filhos morreram, Liu aceitou um pagamento de cerca de US$ 8.800 do governo local e a garantia de uma pensão em troca de seu silêncio. Mas muitos pais, mesmo os que esperam outras crianças, se recusaram a aceitar o silêncio.

Aqui em Mianzhu, mulheres de mais da metade dos 126 lares que perderam seus filhos na Escola Primária 2 em Fuxin estão grávidas ou tiveram bebês recentemente. Um pai, Bi Kaiwei, elogiou o atendimento médico que o governo ofereceu a sua mulher, agora grávida de quatro meses. Mas a gravidez não substitui a justiça, ele disse.

Todos os dias, os dois visitam o túmulo de sua filha. Eles guardaram todos seus pertences, incluindo um cachorro de pelúcia branco e uma manta que estão sobre a cama do casal. Fotografias da menina estão por toda a casa, que fica a poucos metros da antiga escola.

"Eu sinto que este será o retorno da nossa filha", disse Liu Xiaoying ao tocar a barriga. "Mas mesmo que me conforte com isso, ainda não me sinto feliz. Estou muito deprimida".

Liu esteve entre os pais que viajaram secretamente a Pequim em janeiro para entrar com uma petição no governo central. Oficiais da capital disseram que eles deveriam fazer isso em Sichuan.

Mas os oficiais de Sichuan estão tentando convencer os pais. Sang, o pai do bebê de 45 dias, disse que a polícia ameaçou de voltar a prendê-lo. Um homem que atendeu o telefone na delegacia de Mianzhu se recusou a comentar.

Perto de uma plantação de trigo, Sang construiu uma nova casa para substituir a que desmoronou durante o terremoto. No canto está um quarto para seu filho morto, Xingpeng. Lá dentro estão fotos do menino e seus pertences - uma vara de pescar, sapatos de dança, um aquário.
O novo filho não irá dormir ali. "Nós manteremos este quarto assim para sempre", disse Sang.

Por EDWARD WONG


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