Um ano após tsunami, agente funerário leva esperança a parentes de vítimas

Atsushi Chiba cuidou de quase 1 mil corpos em necrotério improvisado em escola fechada da cidade de Kamaishi, no Japão

The New York Times |

Em meio à tristeza de encontrar o corpo de sua mãe em um necrotério improvisado em Kamaishi, cidade devastada pelo tsunami em março do ano passado , Fumie Arai achou conforto em uma pequena e surpreendente descoberta. Ao contrário do resto dos corpos enlamaçados, o rosto de sua mãe havia sido cuidadosamente limpo.

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Arai não sabia na época, mas o ato foi obra de um empresário aposentado que conhecia bem os antigos rituais budistas de preparar os mortos para a cremação e sepultamento. O agente funerário, Atsushi Chiba, pai de cinco filhos que cuidou de quase 1 mil corpos em Kamaishi, virou um herói inusitado em uma comunidade que vem tentando curar suas feridas um ano depois que o terremoto seguido de tsunami devastou grande parte da costa do nordeste do Japão.

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Atsushi Chiba, ex-agente funerário, do lado de fora de necrotério improvisado em escola fechada em Kamaishi
"Eu tinha medo de encontrar o corpo de minha mãe deitado sozinho no chão frio entre estranhos", disse Arai, 36 anos. "Quando eu vi o rosto dela, limpo e com uma expressão pacífica, eu sabia que alguém havia cuidado dela antes de eu chegar. Isso fez eu me sentir muito aliviada."

À medida que o Japão marca um ano desde que o terremoto seguido de tsunami tomou quase 20 mil vidas na região nordeste de Tohoku, histórias como essa estão sendo contadas e recontadas como relatos de esperança em um momento em que o país enfrenta o início do que serão décadas de reconstrução da região.

A história de Chiba foi imortalizada em um livro best seller no Japão, que já vendeu mais de 40 mil exemplares e está em sua 11º edição. "Os corpos dos mortos são o aspecto mais perturbador de qualquer desastre, e algumas pessoas podem não querer lembrar disso", disse o autor do livro, Kota Ishii, que passou três meses em Kamaishi e nos arredores, logo após o desastre, narrando o trabalho de Chiba. "Mas essa história fala basicamente a respeito de como pequenos atos de bondade podem trazer um pouco de humanidade mesmo a uma tragédia que vai além da nossa imaginação."

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As ondas de 9 metros que atingiram Kamaishi logo após o terremoto de magnitude 9 no dia 11 de março de 2011, pouparam a estátua branca de Kannon, a deusa budista da misericórdia, que olha para o mar das colinas localizadas acima da cidade. Mas as ondas destruíram as zonas mais animadas da cidade, os bares e restaurantes frequentados pelos pescadores da região.

À medida que a água escura recuou, os trabalhadores de resgate entraram nas ruas devastadas da cidade e começaram a retirar os mortos dos escombros, levando-os em caminhões para uma escola que havia escapado ilesa do desastre. O ginásio rapidamente se tornou um grande necrotério.

Chiba, que tem cerca de 70 anos e cuja casa também foi poupada, correu para o ginásio no dia seguinte para procurar amigos e familiares, mas ficou chocado com a condição dos corpos que se amontavam no local. A maioria ainda estava vestida com roupas cheias de lama e coberta com sacos plásticos, seus membros rígidos salientes e seus rostos feridos por destroços expressavam sua agonia na hora deda morte.

"Eu pensei que se os corpos fossem deixados lá desta maneira, as famílias que viessem procurá-los não seriam capazes de lidar com isso", disse Chiba. "Sim, eles estão mortos. Mas no Japão nós tratamos os mortos com respeito, como se eles ainda estivessem vivos. É uma forma de confortar os vivos."

Chiba começou a trabalhar. Ele acabou se sentindo à vontade no necrotério, falando com os corpos enquanto os preparava para serem vistos e, em seguida, cremados. "Você deve estar se sentindo tão frio e solitário, mas sua família vai vir até você em breve, então é melhor pensar no que irá dizer para eles quando chegarem", lembra de ter dito aos corpos.

Técnicas

Ele também ensinou os trabalhadores da cidade como amolecer membros endurecidos pelo rigor mortis, ficando de joelhos e massageando-os suavemente para que os corpos parecessem menos contorcidos. Quando os parentes de uma vítima de meia idade choravam, pois seu corpo parecia retorcido magro e branco, Chiba pediu um pouco de maquiagem e passou blush no corpo da vítima.

As tentativas de Chiba para homenagear os mortos acabaram virando exemplo para muitos. Os trabalhadores da cidade juntaram antigas carteiras escolares para construir um altar budista. Eles juntavam os corpos de casais e de membros da mesma família e cada vez que um corpo era levado para fora de lá, os trabalhadores se juntavam em uma fileira com suas cabeças baixas para prestar suas últimas homenagens.

Pela insistência de Chiba, Kamaishi se tornou uma das únicas comunidades que foram duramente atingidas a cremar todos os seus mortos, que é de costume japonês, contando com a ajuda de crematórios perto de Akita, a mais de 160 kms de distância.

Ao todo, 888 dos cerca de 40 mil habitantes de Kamaishi morreram no desastre; 158 pessoas estão listadas como desaparecidas e consideradas provavelmente mortas.

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Cidade de Kamaishi um ano depois do terremoto que arrasou o país em 2011
O sacerdote Enou Shibasaki, do Templo Senjuin, localizado nas colinas com vista para Kamaishi, lembra da mudança que ocorreu no necrotério improvisado quando Chiba e trabalhadores de outras cidades começaram a cuidar dos corpos.

"Seja você religioso ou não, o luto aos mortos é uma necessidade fundamental", disse Shibasaki. "O luto começa com os cuidados do corpo. É a última vez que você verá seu ente amado e você quer se lembrar dele tão bonito quanto era em vida. "

*Por Hiroko Tabuchi

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