TV egípcia é alvo de críticas por entrevistar israelense Shalit

Para Israel, entrevista quis ser elogio à mediação do Egito para soltar soldado, enquanto egípcios acharam que palestinos foram esquecidos

The New York Times |

Uma entrevista exclusiva feita pela televisão estatal egípcia com o sargento Gilad Shalit, assim que deixou o cativeiro e antes de encontrar sua família, provocou fortes reações em ambos os lados da fronteira.

Os israelenses acusaram a emissora de colocar o homem, obviamente exausto, sob os holofotes em busca de elogios para o Egito (que mediou o acordo de sua libertação em troca de 1.027 prisioneiros palestinos), enquanto os egípcios criticaram a emissora por se concentrar no israelense em vez de nos 477 palestinos que foram libertados (os outros 550 serão soltos nos próximos dois meses).

A televisão estatal e a jornalista responsável defenderam a entrevista de cerca de dez minutos como uma exclusiva que qualquer organização jornalística teria tentado fazer. "Quando um furo de reportagem como esse cruza o seu caminho, devemos recusá-lo?", perguntou Khaled Mehanna, diretor de notícias da televisão estatal. "Do ponto de vista profissional, quando temos a oportunidade de entrevistar uma pessoa de quem houve apenas algumas fotos antes na mídia, não deveríamos aproveitar essa oportunidade?"

A entrevista não foi uma condição para a libertação de Shalit, disse Shahira Amin, a repórter responsável. A jornalista afirmou que havia questionado o ministro da Informação sobre a possibilidade de fazer a entrevista e que ele passou sua solicitação para militares e oficiais da inteligência responsáveis pela troca, que a autorizaram no último minuto. No entanto, ela diz que ainda fez questão de questionar Shalit se ela poderia falar com ele brevemente.

"Se ele tivesse dito não, não teria forçado", disse. Durante o encontro, ela realmente disse em árabe que pularia algumas perguntas porque ele estava visivelmente cansado.

Shalit, que vestia uma camisa xadres azul, foi entrevistado em inglês, mas respondeu em hebraico por meio de um tradutor. Ele apresentou dificuldades na conversa, aparentes em seu rosto magro e no movimento cambaleante da cabeça. A entrevista não foi transmitida ao vivo, mas foi veiculada com praticamente nenhuma edição enquanto ele se dirigia para Israel, disse Shahira.

Em Israel, as críticas se concentram principalmente no fato de ele ter sido questionado sobre o fato de uma mediação egípcia ter obtido sucesso enquanto outras fracassaram e se planejava trabalhar na libertação de cerca de 4 mil palestinos que ainda estão em prisões israelenses. (As respostas: O Egito mantém boas relações com ambos os lados. E, sim, desde que ex-prisioneiros não voltassem a lutar contra Israel.)

"Pelo amor de Deus, os esforços de mediação têm acontecido há quantos anos e nenhum deles conseguiu nada", disse Shahira. "Esse foi um sucesso – Shalit foi libertado e isso é um resultado positivo. Precisamos dar crédito onde o crédito é devido."

Shahira, que tem 52 anos e é famosa no Egito por ter deixado a televisão estatal em fevereiro por causa do apoio da emissora à continuidade do governo do presidente Hosni Mubarak, disse que também queria enfatizar o fato de que ainda há milhares de palestinos atrás das grades em Israel.

Ela especula que o Ministério da Informação estava ansioso em obter a entrevista porque a agência de notícias estatal foi duramente criticada durante todo o ano, especialmente nas últimas semanas, quando foi acusada de incitar multidões a atacar manifestantes de maioria cristã nos levantes de 9 de outubro , que deixaram 25 mortos.

Mas ela pareceu ter exatamente o efeito oposto sobre os telespectadores egípcios, pelo menos aqueles que comentaram no site do canal. Alguns ecoaram a queixa comum entre os árabes de que Shalit, embora um soldado armado, foi tratado como um indivíduo, enquanto os prisioneiros palestinos são tratados como uma multidão.

"O que é esse ato bizarro?", escreveu um homem. "Nossa mídia está gabando-se da sua entrevista exclusiva com o soldado que matou os nossos soldados? Quando é que mudaremos?"

Outros disseram que a televisão egípcia deveria ter dado a mesma atenção a um palestino libertado. Shahira defendeu a emissora, dizendo que tinha câmeras acompanharam os ônibus que transportaram prisioneiros palestinos para casa .

Mas a maior parte dos comentários elogiou o papel do Egito na mediação da troca.

Safwat el-Alim, professor de mídia política na Universidade do Cairo, disse que a televisão estatal nunca perdeu uma oportunidade de promover o Egito, ainda que de maneira inadequada. Para ele, esse objetivo superaria qualquer consideração de que entrevistar Shalit enquanto ele ainda se sentia em cativeiro não necessariamente extrairia respostas honestas.

"A televisão estatal busca propaganda política em qualquer situação para apoiar as políticas do Egito, mesmo se a situação não exigir isso", disse.

*Por Neil Macfarquhar

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