Tunísia questiona qual será o papel político do islã no país

Depois de forçar renúncia de presidente, tunisianos vivem debate feroz sobre espaço que o islã terá no futuro da sociedade

The New York Times |

A segunda fase da revolução da Tunísia aconteceu diante da antiga medina da capital Túnis, na semana passada, quando helicópteros militares circulavam e forças de segurança se apressavam para realizar uma missão pouco comum: proteger os bordéis da cidade.

A polícia dispersou um grupo de manifestantes que atirava pedras ao entrar em um labirinto de ruelas repletas de bordéis gritando: "Deus é grande!" e "Não à prostituição em um país muçulmano!"

Semanas depois de os manifestantes forçarem a queda do governo autoritário do presidente Zine El Abidine Ben Ali, os tunisianos estão vivendo um debate feroz e ruidoso sobre o papel do islã na política.

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Manifestantes pedem saída do premiê interino da Tunísia, depois de forçarem queda do presidente Ben Ali
Cerca de 98% da população de 10 milhões do país é muçulmana, mas as políticas sociais liberais da Tunísia e seu estilo de vida ocidental rompem com os estereótipos do mundo árabe. O aborto é legal, a poligamia é proibida e as mulheres geralmente usam biquínis nas praias do país. Além disso, vinho e outras bebidas alcoólicas são vendidos abertamente em supermercados e em bares.

Os grupos de mulheres dizem temer que, nesse confuso momento pós-revolução, as forças conservadoras do país possam retomar sua rígida tradição e forçar a queda do secularismo. "Nada é irreversível", disse Khadija Cherif, ex-chefe da Associação Tunisiana das Mulheres Democratas, uma organização feminista. "Nós não queremos baixar a guarda".

Cherif esteve entre os milhares de tunisianos que marcharam pela capital no sábado exigindo a separação entre religião e Estado, em uma das maiores manifestações desde a derrubada de Ben Ali. Os manifestantes seguravam cartazes dizendo: "A política arruína a religião e a religião arruína a política".

Eles também lamentavam a morte de um sacerdote polonês por atacantes desconhecidos na sexta-feira. O ataque também foi condenado pelo principal movimento político muçulmano do país, o Ennahdha, ou Renascença, que foi proibido durante a ditadura de Ben Ali, mas agora está se reagrupando.

Em entrevistas à imprensa local, os líderes do Ennahdha tomaram o cuidado de elogiar a tolerância e a moderação, comparando-se aos partidos islâmicos que governam a Turquia e a Malásia. "Sabemos que temos uma economia essencialmente frágil, que é muito aberta ao exterior a ponto de ser totalmente dependente dele", disse Hamadi Jebali geral, secretário do partido, em entrevista à revista tunisina Réalités. "Não temos nenhum interesse em jogar tudo isso fora, hoje ou amanhã".

Aliado

O partido, que é aliado da Irmandade Muçulmana do Egito, diz que se opõe à imposição da lei islâmica na Tunísia. Mas alguns tunisianos ainda não se convenceram.

Raja Mansour, que trabalha em um banco em Túnis, disse que é muito cedo para saber como o movimento islâmico iria evoluir. "Nós não sabemos se eles são uma ameaça real ou não", disse ela. "Mas a melhor defesa é o ataque". Com isso ela quis dizer que os secularistas devem se afirmar, explicou.

O Ennahdha é um dos poucos movimentos organizados em um cenário politico altamente fraturado. O governo interino, que tem gerido o país desde que Ben Ali foi deposto, é frágil e fraco, sem liderança clara.

A unanimidade do movimento de protesto contra Ben Ali, em janeiro, a revolta que desencadeou protestos em todo o mundo árabe, evoluiu desde então para inúmeros protestos diários por parte de grupos divergentes, um desenvolvimento que muitos tunisianos acham inquietante. "A liberdade é uma grande aventura, mas não é isenta de riscos", disse Ben Fathi Yathia Haj, escritor e ex-preso politico. "Há muitas incógnitas".

Uma das maiores manifestações desde que Ben Ali fugiu aconteceu em Túnis, quando milhares de manifestantes marcharam até o escritório do primeiro-ministro para exigir a renúncia do governo interino - acusado de ligações com o governo de Ben Ali.

Os tunisianos estão literalmente debatendo o futuro do seu país nas ruas. A Avenida Habib Bourguiba, rua central de Túnis batizada em homenagem ao primeiro presidente do país, se assemelha a um fórum romano nos fins de semana, cheio de gente de todas as idades discutindo política animadamente.

A atmosfera exuberante e um tanto caótica em todo o país tem sido acompanhada por uma falta de segurança particularmente inquietante para as mulheres. Com o aparato de segurança extensiva do antigo governo dizimado, deixando a polícia em desordem, muitas mulheres dizem ter medo de andar sozinha.

Achouri Thouraya, 29 anos, uma artista gráfica, disse que tem sentimentos mistos em relação à revolução. Ela compartilhou a alegria da derrubada do que descreveu como o governo cleptocrático de Ben Ali. Mas ela também acredita que o controle do governo sobre qualquer grupo muçulmano extremista, que incluía um programa policial draconiano de monitoramento daqueles que rezam regularmente, ajudava a proteger os direitos das mulheres.

"Tivemos a liberdade de viver nossas vidas como as mulheres na Europa", disse Thouraya. "Não sabemos quem será o presidente e qual será sua atitude em relação às mulheres".

Mounir Troudi, um músico de jazz, discorda. Ele não tem amor pelo governo de Ben Ali, mas acredita que a Tunísia vai continuar a ser uma terra de cerveja e biquínis. "Esse é um país marítimo", disse ele. "Nós somos marinheiros, e nós sempre estivemos abertos ao mundo exterior. Tenho confiança no povo tunisiano. Esse não é um país de fanáticos".

*Por Thomas Fuller

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