Tunísia busca equilíbrio entre democracia e religião

País enfrenta desafio para estabelecer identidade de uma sociedade muçulmana tida por seus líderes ditatoriais como secular

The New York Times |

Insultos furiosos foram proferidos de maneira incessante. "Infiéis!" e "Apóstatas!" era como os manifestantes chamavam os dois homens que estavam na corte para apoiar um diretor de televisão que estava sendo acusado de blasfêmia. De repente, um deles foi vítima de uma cabeçada e de um soco de um dos manifestantes.

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NYT
Said Ferjani (dir) membro do Ennahda, discute um release de imprensa com um colega em Túnis

Quando o tumulto se dissipou poucos minutos depois, a Tunísia, país que grande parte do mundo árabe vê como um modelo para a revolução, havia testemunhado um momento crucial que, para alguns, foi como uma jornada pela alma do país.

"Estamos abrindo mão do nosso direito de pensar e falar", disse Hamadi Redissi, um dos dois homens, que ostentava uma ferida na testa uma semana depois da agressão.

Os desafios diante da revolução da Tunísia são inúmeros - corrigir uma economia doente, elaborar uma nova Constituição e se recuperar de décadas de ditadura que fizeram com que muitos tenham dificuldades em se adaptar aos dias de hoje.

Mas nos primeiros meses de um governo de coalizão liderado pelo Partido Ennahda , visto como um dos mais pragmáticos movimentos islâmicos da região, um desafio até então escondido se tornou aparente: uma luta para estabelecer a identidade de uma sociedade árabe e muçulmana a qual seus líderes autoritários sempre tentaram classificar como inflexivelmente secular.

As revoltas populares que tomaram conta do Oriente Médio há cerca de um ano, fizeram com que sociedades como a Tunísia, desprendida das garras de líderes autoritários e celebrando uma unidade imaginada, confrontassem sua própria complexidade. Os efeitos colaterais dessas revoltas levaram a eleições no Egito e na Tunísia , bem como a uma influência islâmica mais decisiva no Marrocos , Síria e Líbia .

Essas mudanças abriram uma porta para que os movimentos islâmicos tenham uma oportunidade de exercer mais influência e se definam tanto localmente quanto no cenário mundial. Elas também têm gerado medo - pessoas que moram em lugares como Túnis, uma metrópole costeira orgulhosa de seu cosmopolitismo, começam a se preocupar com o que a revolução que apoiaram pode ter desencadeado.

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Um jornal da oposição alertou contra islamitas puritanos que declararam cidades pequenas como sendo parte de seu próprio "feudo". Protestos aconteceram em uma universidade em Túnis que se recusou a permitir que alunas fizessem os exames enquanto vestiam véus que escondiam seus rostos.

Além disso, houve o julgamento do qual Redissi participou no dia 23 de janeiro, de um diretor de uma rede de televisão que pode pegar até até cinco anos de prisão por transmitir o longa metragem animado francês Persépolis, que contém uma breve cena que descreve Alá, algo que muitos muçulmanos consideraram uma blasfêmia.

Alguns habitantes do país esperam que, eventualmente, as pessoas possam encontrar um equilíbrio entre a sensibilidade religiosa e a liberdade de expressão, uma questão tão comum no ocidente quanto nos países muçulmanos. Outros temem que os debates incentivados por indivíduos mais radicais - como o questionamento da utilização do véu, o uso de praias para tomar banho de sol e outras questões expostas na mídia – possam dividir as sociedades e envolver novos governos em discussões que alguns ainda preferem evitar.

"É como uma guerra de atritos", disse Said Ferjani, membro do Ennahda, que reclamou que o seu partido ficou preso entre dois extremos, o extremo secular e o religioso. "Eles estão tentando desviar nossa atenção de problemas mais pertinentes."

Quase todo mundo no país parece concordar que Persépolis foi transmitido no dia 7 de outubro pela rede de televisão Nessma como uma espécie de provocação. Abdelhalim Messaoudi, um jornalista da Nessma, disse que ele enxergou o filme, sobre a infância de uma menina revolucionária no Irã, "como um pretexto para iniciar uma conversa". Mas muitos na Tunísia, religiosos ou nem tanto, ficaram surpresos com a breve cena em que Deus foi personificado - falando em gírias tunisianas.

Dois dias depois do tumulto na frente do tribunal, em um comunicado que muitas figuras seculares consideraram tímido, Samir Dilou, um porta-voz do governo e membro do Ennahda, reiterou a visão do partido dizendo que o filme era "uma violação do sagrado." Mas ele não foi à favor da violência que ocorreu naquele dia e prometeu agir a respeito. Um dos agressores, que foi identificado através de um vídeo, acabou sendo preso.

Para algumas pessoas como Messaoudi, no entanto, o incidente reflete uma tendência de banditismo que vem crescendo por parte dos salafistas, começando com um ataque a uma sala de cinema que exibiu um filme que consideravam indesejável até o breve controle no mês passado de uma cidade do norte da Tunísia chamada Sanjan.

Algumas figuras seculares reconhecem que o Ennahda está envergonhado com os incidentes, e que está relutante em ser classificado como parte do mesmo grupo que os salafistas. Outros, no entanto, veem ambos os partidos como parte de uma perspectiva islâmica mais ampla que visa celebrar a identidade muçulmana da Tunísia como uma maneira de promover uma sociedade mais conservadora.

AFP
Homem com bandeira da Tunísia passa por estátua em homenagem a Bouazizi, vendedor que se imolou. Na parede, lê-se: 'Para todos os que anseiam pela liberdade' (17/12/2011)
"Algumas facções islamitas querem transformar a identidade nacional em sua cavalo de Troia", disse Messaoudi. "Eles usam o pretexto de proteger a sua identidade como uma forma de acabar com o que conseguimos, como sociedade tunisina. Eles querem acabar com os pilares da nossa sociedade civil."

Mesmo figuras seculares como Redissi afirmam que o Ennahda prefere evitar debater sobre o filme Persépolis. Ele também previu que o julgamento deve ser adiado para depois das próximas eleições, que também atualizarão a antiga Constituição dentro de mais ou menos um ano. Outros insistiram que o Ennahda deveria se posicionar de uma maneira mais firme contra os salafistas antes que a sociedade fique cada vez mais dividida.

"Não estou vendo nenhuma ação ou reação - cadê o governo?" perguntou Ahmed Ounaies, um ex-diplomata que brevemente serviu como ministro de Relações Exteriores após a revolução. "Qual será a concepção que o Ennahda tem da Tunísia do amanhã? Isso não está muito claro."

Na sede do Ennahda, Ferjani balançou a cabeça. Ele disse que o caso havia tomado uma “proporção exagerada” e que a mídia foi imprudente ao alimentar o debate e que as forças do antigo governo querem incitar os salafistas para sujar o nome do Ennahda. Mas ele chegou a admitir que a linha entre a liberdade de expressão e a sensibilidade religiosa não seria definida tão cedo assim. "É uma luta filosófica", disse, "e deve continuar assim durante muito tempo."

Por Anthony Shadid

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