Tropas americanas perseguem vestígios do Haqqani no Afeganistão

Operação contra a rede se torna prioridade dos esforços contra o terrorismo dos EUA desde a morte de Osama bin Laden

The New York Times |

O primeiro helicóptero aterrissou na penumbra cinzenta azulada antes do amanhecer. Mais de 20 membros de um pelotão de reconhecimento dos Estados Unidos e as tropas afegãs que os acompanham desceram em meio à poeira, em uma floresta com cheiro de sálvia e pinho.

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Sargento Gregory Brown assegura os membros de sua brigada no vale Charbaran, no Afeganistão

Outros três helicópteros vieram em seguida, e em breve cerca de 100 soldados estavam no chão deste vale na província de Paktika, perto da fronteira com o Paquistão. Eles davam início à sua parte de uma operação contra a rede Haqqani , grupo insurgente que colabora com o Taleban e a Al-Qaeda e se tornou o principal alvo dos esforços de contraterrorismo dos Estados Unidos desde a morte de Osama bin Laden .

O grupo, com sede na fronteira noroeste do Paquistão, insere combatentes no Afeganistão e tem orquestrado uma longa campanha de guerrilha e ataques terroristas contra o governo afegão e seus patrocinadores dos EUA.

Sua provável ligação ao serviço de inteligência do Paquistão , e a relutância do Paquistão em agir contra a sede Haqqani em Miram Shah, uma cidade não muito longe da fronteira com o Afeganistão, têm atraído a condenação de Washington e aumentado as tensões entre os dois países que, oficialmente, são parceiros contra o terrorismo.

Nesse contexto, o ataque de helicóptero em Charbaran na semana passada ressaltou tanto os falsos empreendimentos quanto as últimas metas urgentes que orientam o envolvimento militar dos EUA no Afeganistão .

O Pentágono planeja ter retirado a maioria de suas tropas do país até 2014 . As discussões entre muitos oficiais mudaram drasticamente por causa do debate sobre estabelecer a democracia no Afeganistão ou um governo robusto para uma ambição militar mais pragmática e realista: fazendo o que pode ser feito em pouco tempo.

No sentido tático, isso se traduz em tarefas simples para unidades de segurança posicionadas ao longo da fronteira. Enquanto a presença de suas tropas ainda está no auge, os comandantes dos EUA estão tentando prejudicar ao máximo as forças armadas anti-governamentais ao colocar milhares de policiais e soldados afegãos em áreas contestadas.

A ambição de longo prazo é que as forças afegãs tenham as habilidades e a determinação necessárias para enfrentar a insurgência conforme os americanos deixem o país. Ainda assim, mesmo enquanto esperam a retirada total em 2014, as unidades dos EUA precisam travar uma guerra diária.

Um dos principais elementos está em tentar evitar mais dos ataques cuidadosamente planejados que abalam Cabul, a capital afegã, várias vezes este ano. Os ataques – que tem como objetivo alvos de destaque, de um hotel de alto padrão a Embaixada dos Estados Unidos – têm sido frequentemente organizados pelo Haqqani, e destacaram a vulnerabilidade do governo afegão e o poder de recuperação dos insurgentes.

O tenente-coronel John V. Meyer, que comanda o Segundo Batalhão do Regimento de Infantaria 28, que coordenou dois ataques para isolar o Vale Charbaran e outro para inspecionar as aldeias, chamou a operação de "um ataque que buscava evitar outras grandes ações na área de Cabul”. Ele também foi destinado, segundo ele, a obter informações.

O Vale Charbaran se tornou uma das principais vias para os combatentes Haqqani entrarem no Afeganistão. Eles geralmente vêm a pé, segundo oficiais dos EUA, e então pernoitam em casas seguras e acampamentos a caminho de Cabul ou de outras áreas onde irão participar de combates.

Os líderes de nível médio do Haqqani também se encontram nas aldeias do vale, segundo oficiais dos EUA, inclusive perto de uma escola abandonada e nas ruínas de um centro governamental que os EUA construíram no início da guerra, mas que combatentes locais destruíram em 2008.

Foi em 2010 que a última unidade entrou no vale. Uma companhia de infantaria, que chegou de helicóptero e se viu em meio a um tiroteio de duas horas ao partir. Quando as tropas afegãs e dos EUA se espalharam pela região dessa vez, sua missão enfrentou uma familiar lei do conflito de guerrilha: quando as forças chegam em massa, os guerrilheiros muitas vezes dispersam, deixando de lado as armas para observar os soldados passarem.

A operação, provavelmente, não foi nenhuma surpresa para os lutadores Haqqani no vale, segundo oficiais dos EUA, já que nos dias de preparação alguns soldados das tropas afegãs provavelmente vazaram a informação.

Conforme os soldados escalavam as colinas – carregando além de suas armaduras, mochilas pesadas com água e munições – eles quase imediatamente encontraram sinais da presença de insurgentes. Na primeira casa em que entraram, não muito longe da zona de aterrissagem, se encontravam apenas duas mulheres e várias crianças. Os homens tinham todos partido.

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Soldados afegãos fazem busca em residência durante operação no vale Charbaran, Afeganistão

No seu interior, as tropas afegãs descobriram uma caixa de munições para metralhadoras PK e rifles de precisão Dragunov. Eles também encontraram duas cartucheiras de munição de calibre .303 para os datados rifles Lee-Enfield que continuam a ser usados pelos insurgentes.

O capitão Nicholas C. Sinclair, comandante da companhia, ordenou que as tropas afegãs confiscassem a munição. A mulher mais jovem protestou em voz alta. "Muitos soldados americanos passaram por aqui e sempre deixaram [as munições]", ela disse.

Isso, disseram os americanos, provavelmente não passava de uma mentira. Um policial afegão retirou as munições. O grupo partiu. Mais tarde, na escola agora abandonada que os combatentes Haqqani forçaram a fechar, os soldados foram recebidos por uma mensagem escrita em giz branco acima da entrada principal. "O Taleban é bom", dizia, em inglês.

A escola, segundo os soldados, era evidência de um confronto anterior. De acordo com aqueles que avançaram a doutrina contra-insurgência que domina os militares americanos há anos, a construção de escolas deveria ajudar na revitalização de vales como este.

Em vez disso, ela foi fechada pelos mesmos combatentes que invadiram o centro do governo e expulsaram a polícia. Ela está lá, vazia – um retrato de boas intenções que deram errado, de tempo e recursos perdidos. Logo apareceram outros sinais dos insurgentes. Na ponta do bazar Charbaran, onde combatentes do Taleban e do Haqqani supostamente se reúnem, segundo o tenente Mark P. Adams, um oficial de apoio deu uma olhada em uma pilha de lenha que estava usando como proteção e viu uma bomba improvisada.

A arma – feita a partir de morteiros de 120 milímetros e 82 milímetros ligados a cerca de 10 kg de explosivos caseiros – era poderosa, mas não estava carregada. Aparentemente ela tinha sido escondida ali, mas seria usada em uma estrada frequentada por soldados afegãos e dos EUA.

O Sargento Robert Blanco, um especialista em explosivos, colocou uma pequena carga explosiva contra ela e detonou a bomba no local. Logo os soldados escalaram uma montanha, juntando-se ao resto do batalhão, para dormir na segurança relativa do cume.

Na manhã seguinte, conforme a busca era retomada, Mohammad Ghul, um idoso da região, se sentou com o Tenente Tony E. Nicosia, líder de pelotão dos EUA, conforme soldados afegãos e americanos realizavam uma busca nas lojas locais uma segunda vez.

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Residentes caminham pelo vilarejo onde ocorre operação de busca das tropas militares no vale Charbaran, Afeganistão

Havia uma familiaridade ritual na conversa, o produto de uma guerra que já entra em sua segunda década. "Quando vocês vem aqui, isso é um grande problema para nós", disse o ancião. "Porque depois que vocês vão embora, o Taleban vem e faz perguntas sobre vocês e pega a nossa comida sem pagar por ela."

Não se sabe se isso é ou não verdade, muitos moradores, segundo soldados afegãos e americanos, apoiam os combatentes do Haqqani e do Taleban. Os soldados também disseram que pelo menos alguns dos homens reunidos em torno deles eram provavelmente combatentes, pelo menos em tempo parcial, que tinham escondido suas armas durante a “visita” dos americanos.

"Nós entendemos as suas preocupações e, esperançosamente, nós tentamos estabelecer alguma segurança aqui", disse educadamente Nicosia. Ghul Mohammad assentiu. "Eu não posso fazer nada sobre isso", disse ele. "Eu quero que o meu Deus traga segurança para cá."

Os americanos seguiram para os próximos edifícios, no lado oposto do vale. Durante toda a operação, combatentes escondidos eram ocasionalmente ouvidos nos rádios que os intérpretes afegãos monitoravam em busca de informações. Os combatentes tinham ameaçado uma emboscada ao grupo de reconhecimento.

Depois que os soldados dos EUA e do Afeganistão chegaram a encosta oposta, os combatentes conseguiram realizar seu único ataque: eles dispararam quatro tiros de morteiro.

Os disparos explodiram bem atrás dos soldados, perto da escola abandonada, sem causar danos, mas deixando claro que Charbaran, que tinha ficado quase silenciosa conforme os soldados passavam, está fora das mãos do governo.

Por C. J. Chivers

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