Troca de farpas entre militares mostra uma China mais forte

Discursos duros em conferência de Cingapura mostra difícil relacionamento entre militares chineses e americanos

The New York Times |

Se alguém tinha qualquer dúvida, uma troca de farpas em uma conferência na semana passada em Cingapura deixou bem claro: o relacionamento entre os militares americanos e chineses está congelado.

O que não se sabe é se isso é uma verdadeira mancha no relacionamento dos dois países ou apenas um presságio.

O fuzilamento verbal aconteceu no sábado no Diálogo de Shangri-La, um encontro dos ministros da Defesa de 28 nações da Ásia-Pacífico do qual participou, entre outros, o secretário de Defesa Robert M. Gates e o general Ma Xiaotian, chefe adjunto da equipe geral do Partido da Libertação do Povo.

Ma fez um discurso com ataques pouco disfarçados aos Estados Unidos. "Uma mentalidade de Guerra Fria continua a existir" em alguns países, ele disse, com "a ameaça de recorrer à força nas relações internacionais e interferência nos assuntos internos de outros países" - linguagem em código para mencionar a venda de armas americanas a Taiwan, que a China considera como seu território.

© AP
General Ma Xiaotian ouve discurso duro de Robert Gates em Cingapura (05/06)

Em seu discurso, Gates foi ainda mais direto. Elos militares entre as nações são "mantidos como reféns" pela questão de Taiwan, ele disse, embora a venda de armas ao país "seja uma realidade há décadas". A China não pode mudar essa realidade, ele disse - e de qualquer maneira, Washington não apoia a independência de Taiwan do continente.

Essa troca de farpas aconteceu após a China ter rejeitado formalmente na semana passada a proposta de Gates de parar em Pequim durante sua atual passagem pela Ásia. Tudo isso veio depois de um almirante chinês ter feito uma palestra inesperadamente agressiva sobre a hegemonia americana, em uma sessão privada no Diálogo Econômico Estratégico em Pequim, que deixou diplomatas americanos furiosos e pareceu sinalizar atitudes divergentes entre líderes civis e militares da China.

Tomados isoladamente, os episódios significam pouco. Especialistas que falam sobre as relações militares chinesas-americanas regularmente utilizam palavras como "albatroz" e "moinho" para descrever seu impacto na cooperação entre Washington e Pequim. Suspeita e, por vezes, hostilidade definem as reuniões entre líderes militares.

Mas existe um contexto: uma agressividade cada vez maior dos líderes chineses em relação à economia global e assuntos diplomáticos. Defensores de uma China mais severa e nacionalista ganharam influência nos últimos seis a 12 meses, e seu impacto é sentido tanto em políticas externas quanto internas.

Para alguns analistas ocidentais, que sugerem que a postura do governo Obama em relação à China - fazer do país um parceiro responsável em assuntos globais dando a Pequim mais espaço nas resoluções de questões internacionais - precisa ser repensada.

"Houve uma onda de mudanças e endurecimento da atitude do governo chinês em relação ao seu relacionamento com os Estados Unidos ao longo dos últimos seis a oito meses", disse David Shambaugh, especialista em assuntos militares da China e o Partido Comunista na Universidade George Washington. "Nestas circunstâncias, Washington tem de rever completamente sua estratégia para a China".

Stephanie Kleine-Ahlbrandt, analista de Pequim pelo grupo International Crisis, disse que a esperança do governo Obama de cooperação com Pequim "têm sido mais otimista do que o cenário atual justifica".

"A China e os Estados Unidos continuam a ter valores, objetivos e capacidades fundamentalmente diferentes", ela disse, citando a relutância chinesa em pressionar a respeito da verdade sobre o naufrágio do navio da Coreia do Sul, um ataque que uma investigação internacional determinou ter sido trabalho da Coreia do Norte.

Sinais de endurecimento das políticas chinesas são fáceis de encontrar. Pequim recentemente aprovou uma nova e mais contundente postura a respeito de suas alegações sobre disputadas ilhas do Mar da China, dizendo a Filipinas, Indonésia, Vietnã e outros que têm interesse na região que as ilhas são um "núcleo de interesse nacional" que estão além de possíveis negociações regionais. A China exige que a decisão seja feita país a país, o que dará a Pequim uma grande vantagem sobre seus vizinhos menores.

Os Estados Unidos lutam com um êxito reduzido em recrutar a China como parceiro em ações da ONU, não apenas contra a Coreia do Norte mas também contra o programa nuclear do Irã. Tanto empresas americanas quanto europeias estão cada vez mais agitadas a respeito do que consideram um bloqueio injusto de sua capacidade de concorrer com empresas nacionais no amplo e crescente mercado da China, apesar das garantias chinesas.

Ainda assim, não está claro se a hostilidade dos militares chineses reflete a estratégia diplomática do seu país, muito menos se a determina. Parte do problema é que ninguém fora de Pequim tem certeza de como os líderes chineses delineiam sua política externa para os Estados Unidos, que, de acordo com Pequim, é de longe seu mais importante parceiro.

"Muitos, se não todos os oficiais do governo americano acreditam que a situação atual está sendo liderada pelos militares", disse Michael Swaine, estudioso da China pelo Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Na sua avaliação, Swaine explicou, "o Partido Comunista e o aparato de assuntos externos não estão muito felizes com isso, mas seguem adiante".

A verdade é que ninguém sabe. A política em relação aos Estados Unidos - especialmente a política militar - é criada em uma caixa preta no nível mais elevado do governo, disse Swaine.

Gates pode ter dado aos oficiais militares chineses uma necessária bofetada no rosto com as suas palavras em Cingapura. Ou ele pode ter passado do limite.

"Gates é um grande estadista e sempre muito franco", disse Shi Yinhong, especialista em relações chinesas-americanas da Universidade Renmin em Pequim. "Mas para lidar com os chineses, talvez sua linguagem seja franca demais. Os dirigentes chineses, especialmente os generais chineses, podem achar isso difícil de aceitar".

Por Michael Wines

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