Tripulações militares dos EUA prestam assistência no Afeganistão

Helicópteros militares têm sido usados para socorrer afegãs prestes a dar à luz, vítimas de ataques cardíacos, acidentes e doenças

The New York Times |

Sob o lençol, a mulher afegã coberta por véus deslizou os pés ao longo da maca em direção aos quadris, fazendo com que seus joelhos subissem. Ela estava em trabalho de parto, com contrações a intervalo de dois minutos, procurando uma posição confortável em um helicóptero militar que sobrevoava o deserto. O bebê estava preso no canal de parto.

O rosto da mulher não podia ser visto. A tripulação não sabia o nome dela, nem o do marido, que estava sentado ao seu lado. Mas os soldados sabiam disso: ela estava em trabalho de parto há quase nove horas e a intensidade com que se agarrava ao especialista Charles J. Williams, o médico do voo, sugeria preocupação e dor. "Ela está apertando a minha mão como se fosse arrancá-la", disse o especialista ao microfone do seu capacete.

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Em trabalho de parto, a afegã Bibi-Shakira foi levada, juntamente com o marido Karimullah Jan, em avião militar americano para o hospital
"Ah, ela está com dor", respondeu o sargento Patrick E. Schultz, o médico sênior do voo. Ele olhou para um monitor mostrando seus sinais vitais. "Quanto tempo?", perguntou.

Do controle, a capitã Amy L. Bauer, pilota do Exército, respondeu: "Sete minutos".

Para um grupo americano e uma mulher afegã em um trabalho de parto com risco de vida, o voo rápido em um helicóptero Black Hawk representava uma viagem de mundos separados e as promessas e dificuldades que ocorrem quando esses mundos se encontram.

A pobreza e a falta de serviços médicos na província rural de Kandahar são quase total, sobretudo longe da estrada pavimentada que corre ao longo do rio Arghandab. Uma mulher na periferia árida que enfrentasse um parto perigoso que a parteira local não pudesse resolver, geralmente tinha poucas opções além de uma viagem ao longo de uma trilha rochosa e a esperança de chegar à cidade de Kandahar antes que ela e o bebê morressem.

Helicópteros

Desde o verão passado, existe outra possibilidade. Helicópteros americanos e equipes de deslocamento médicas foram posicionados em pequenos postos avançados ao longo do rio, alocados ao lado de soldados da Otan e afegãos lutando contra o Taleban.

Os helicópteros têm sido usados para chegar a um grande aeródromo em Kandahar e reduzir o tempo de voo para que soldados feridos cheguem a hospitais mais modernos e bem equipados. Mas paciente é paciente. Afegãos comuns, muitas vezes com graves problemas de saúde – vítimas de ataques cardíacos, acidentes ou doenças avançadas – também procuram ajuda.

Cada caso apresenta uma questão. As equipes médicas devem prestar atendimento a civis e correr o risco de não ter um helicóptero disponível caso um soldado seja atingido por uma bala ou explosivo?

Trabalho de parto

No dia 11 de dezembro, a missão foi informada à tenda da Base Avançada de Operações Wilson, onde um destacamento da Brigada de Aviação de Combate 101 aguardava a sua próxima chamada. Era pouco depois da 1h25 da madrugada. O voo para pegar a mulher grávida havia sido aprovado. A paciente estava a cerca de 30 quilômetros de distância, no sul do deserto de Khakrez.

O sargento Patrick E. Schultz, médico sênior do voo, emitiu as instruções, querendo saber como equilibrar as exigências médicas e culturais. Por volta de 1h45 o helicóptero pousou. Os soldados rapidamente carregaram a mulher e seu marido na aeronave. O Black Hawk partiu para Kandahar.

Williams fez sinais para o marido para obter sua permissão para levantar o véu e colocar uma máscara de oxigênio na mulher. Schultz inseriu uma agulha intravenosa em seu braço esquerdo. A paciente, disse Schultz, ficou estável.

Às 2h07, o helicóptero pousou em uma pista ao lado do Hospital Nacional do Exército Afegão. Os médicos escoltaram a mulher para dentro. Na chegada, os militares disseram que a mulher afegã recusou o tratamento e pediu para ser transferida para o Hospital Mirwais, instituição codirigida por afegãos e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, em Kandahar. Os registros do hospital contam o resto da história. No fim do dia um homem chamado Karimullah Jan chegou com sua esposa, Bibi-Shakira, que precisava de um parto cirúrgico. A cesariana foi realizada por volta das 6h com sucesso. O bebê, um menino, é saudável.

*Por C. J. Chivers, com reportagem de Taimoor Shah

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